Minha saúde, minha doença

REDAÇÃO

03 Julho 2017 | 11h37

Ana Maria Malik, é Médica pela Universidade de São Paulo, mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas – SP e doutora em Medicina (Medicina Preventiva) pela Universidade de São Paulo. É Professora Titular da EAESP-FGV (departamento de Administração Geral e Recursos Humanos) e Acadêmica eleita para a Academia Brasileira de Qualidade.

 

Planos de saúde, prevenção, serviços de saúde. São muitas palavras com as quais já nos acostumamos sem pensar o que elas significam. Só temos clareza que cada um de nós tem (ou gostaria de ter) a sua saúde, embora não faça questão de ter qualquer doença. Saúde não é escolha, porém. Às vezes não se consegue deixar de fumar nem de beber demais.  Por outro lado, mesmo conseguindo (ou tendo evitado desde sempre todos os hábitos considerados nocivos à saúde) a doença chegará.

Com a longevidade essa equação é cada vez mais presente, aumentando a relevância da carga genética. A probabilidade de quem tem diabetes, hipertensão, problemas cardíacos na família apresentar problemas desse teor é maior do que daqueles que têm outros tipos de herança. O corpo humano mais velho apresenta desgastes, como qualquer máquina, independentemente da qualidade da sua manutenção. Ossos e músculos se cansam, mesmo que cada vez mais tarde

Simultaneamente o desenvolvimento da indústria farmacêutica (com antibióticos, vacinas e quimioterápicos), e de outras tecnologias (de produtos e de processos, como equipamentos de diagnósticos, órteses e próteses, cirurgias minimamente invasivas) na área traz benefícios inequívocos aos tratamentos, apesar do efeito colateral do aumento de custos. Com isso, morre-se mais tarde, atingindo o fenômeno da democratização da sobrevivência. Não são apenas os mais ricos que chegam à terceira idade, embora talvez cheguem em melhores condições. Exemplo disso é que o limite para a definição da faixa etária que caracteriza os idosos é, nos países desenvolvidos, 65 anos, enquanto nos países em desenvolvimento é 60 anos.

Frente a esse cenário, fica claro que dificilmente as pessoas conseguirão – exceto se tiverem resfriados comuns ou outros problemas agudos como de retirada de apêndices inflamados – ser curadas. Pelo contrário, seu relacionamento com o sistema social ou de saúde passará de buscar a cura para buscar o cuidado (em inglês o jogo de palavras faz mais sentido – passa-se do modelo de cure para o de care). A utilização oportuna de serviços corretamente realizados pode reduzir em muito a utilização de procedimentos mais invasivos, mais caros e menor eficazes. Por exemplo, controles de glicemia em pacientes com diabetes, acompanhados de exames de visão e de circulação nos membros, além de prevenção de ressecamento da pele, reduzem necessidades de busca de serviços de urgência com problemas difíceis de controlar.  Algumas dessas atividades podem ser realizadas pelo próprio indivíduo, desde que ele seja orientado e lembrado disso. Outras devem ser realizadas por profissionais, de forma regular e agendada.

Nem juventude é sinônimo de saúde nem doenças crônicas são sinônimo de velhice. Seja com que idade for, o indivíduo deve entender que ele tem sua saúde e sua doença, além de tudo o que ocorra no ambiente em que ele vive. Sobre alguns fatores ele tem controle e pode atuar a respeito. Em função disso, ele tem seus direitos e seus deveres (frente ao SUS e/ou a planos de saúde ou ainda a modelos alternativos de serviços, de acesso mais fácil). O controle sobre seu cuidado não deve ficar inteiramente na mãos de outras pessoas, profissionais, por mais competentes que sejam ou que pareçam.

Todos os exames que se pede são necessários? O que se espera encontrar com eles? Em quanto tempo é comum o medicamento prescrito fazer efeito? Ele deve aliviar sintomas, acabar com o problema ou manter as condições o mais saudáveis possíveis? A cirurgia da qual se fala resolverá ou problema ou é apenas uma tentativa de ver o que acontece? Essas questões não devem ser buscadas junto às redes sociais ou à internet, mas sim junto a profissionais ou serviços de confiança. A experiência de conhecidos ou familiares podem reforçar suas intenções e ter muito sucesso. Grupos de apoio como Alcoólicos ou Neuróticos Anônimos são reconhecidamente úteis para apoiar, como diz o seu nome, mas não substituem o cuidado profissional. Mesmo que seja mais fácil conversar com semelhantes, a experiência destes não necessariamente tem respaldo científico.

Saúde e doença são conceitos abstratos e podem ser discutidos filosoficamente. A SUA saúde, a SUA doença merecem atenção, concreta e constante, de maneira a lhe permitir fazer escolhas com relação a sua vida.