Mídia móvel semanal 4

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REDAÇÃO

15 de janeiro de 2022 | 20h21

Resenha dos acontecimentos político-eleitorais que moveram a mídia (03-09/01/22)

Ruben Cesar Keinert, Professor Titular aposentado da FGV – EAESP

As candidaturas começaram a divulgar diretrizes econômicas para o próximo quadriênio de mandato presidencial, por meio de porta-vozes autorizados. Como sói acontecer nessas ocasiões, a recepção foi mais ou menos positiva de acordo com as preferências dos comentadores. Em um resumo geral, foram apreciações genéricas sobre o negativo quadro econômico em que o país se encontra (estagnação, inflação, desemprego) e como melhorá-lo.

A repercussão no eleitorado, como era de se esperar em assuntos complexos, foi nenhuma. Nem sequer os segmentos mais escolarizados acompanham tais exposições, mas a crônica especializada exige e aguarda. As pesquisas Genial/Quaest, dia 12, Exame/Idea, dia 13 e XP/ Ipespe (14) mostraram basicamente os mesmos números do mês de dezembro de 2021, com Lula ostentando o dobro (ou quase isso) das preferências do eleitorado, confirmando a pouca influência dos textos.

No entanto, os grandes esboços apresentados revelam características das pré-candidaturas que merecem ser levadas em conta. E contribuem muito para se pensar o futuro.

A ordem das postagens diárias ajuda a diferenciar as propostas, que têm muitos pontos em comum. O primeiro artigo, do dia 2, foi de Nelson Marconi, “É preciso coragem para mudar o modelo econômico fracassado”, economista ligado a Ciro Gomes (PDT). Nele, Marconi expõe o diagnóstico e o projeto que o pré-candidato Ciro vem afirmando em todas as suas falas: o problema econômico-social brasileiro está na perda da condição de sociedade com economia industrial e na volta a uma variante tecnificada de sociedade com economia agrícola e mercantil/financeira. Isso acarretou mudanças profundas no emprego e na educação, alargando o hiato entre as possibilidades do País e das sociedades mais avançadas nos campos científico, tecnológico e cultural. A saída está em retomar as pré-condições para o desenvolvimento industrial fortalecendo a educação, a pesquisa para a inovação tecnológica e os estímulos aos produtores industriais.

As colocações de Marconi auxiliam a ler a proposta de Henrique Meirelles/João Doria, “Ponto de partida para consertar o Brasil é crescer reduzindo desigualdades”, saída no dia 3. Nela, o experiente economista e homem público afirma que a causa principal da economia brasileira estar estagnada é a desigualdade social. E que a redução da desigualdade depende do crescimento sustentado do emprego e da remuneração dos trabalhadores. Assim como, “da geração de riquezas e arrecadação tributária que viabilize programas eficientes e focalizados de transferência de renda aos vulneráveis”. Para amenizar a tônica de Estado provedor, Meirelles acentua, a seguir, a necessária participação do setor privado, a quem caberá liderar o processo de criação de riquezas.

A diferença entre as duas propostas está justamente na ênfase colocada no combate, por meio da ação direta do Estado, à desigualdade social. Na proposta de Ciro/Marconi, o combate à desigualdade é uma decorrência dos investimentos em educação e qualificação profissional.

Em seguida, no dia 4, foi publicada a análise que mais espaço ganhou na mídia, o texto de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma, intitulado “Bolsonarismo levou Brasil à crise, e retomada virá com o seu fim”. Como o título indica, o artigo repõe no centro do debate o que chama de política econômica neoliberal colocada em prática desde o curto, mas proficiente, governo Michel Temer até o governo Bolsonaro. Foi um abalo na consolidada unanimidade em torno da ideia de que o problema econômico de Guedes/JMB é de incompetência. Decorre da apreciação de Mantega que o problema é de filiação político-ideológica do modelo, ou seja, mesmo dando certo, daria errado. É um modelo que retira direitos e salários dos trabalhadores.

Segundo o texto, não será fácil superar essa “herança maldita”. Mas propõe como antídoto adotar uma combinação de medidas emergenciais de combate à fome e à pobreza, um arrojado plano de investimentos públicos e privados para recuperar a infraestrutura, aumentar a produtividade e propiciar empregos, uma reforma tributária que alivie as contribuições dos mais pobres e penalize os mais ricos, uma política monetária que controle a inflação e não iniba investimentos, mais política industrial e de investimentos tecnológicos.

No dia 5, saiu o texto de José Affonso Pastore, assumido porta-voz econômico do presidenciável Sergio Moro. O artigo abre com o enunciado de que o objetivo do programa de governo Moro é a retomada do crescimento econômico inclusivo e sustentável, para eliminar a pobreza extrema e melhorar a distribuição de renda. Escapa, assim, ao escopo do neoliberalismo execrado no dia anterior. E agrega a necessidade de preservar o meio ambiente, o que, diga-se de passagem, está também presente em todos os textos anteriores, justiça seja feita.

Pastore inova ao fazer o diagnóstico das nossas mazelas atuais: “Não haverá retomada do crescimento sem um aperfeiçoamento das instituições”. Isso posto, complementa afirmando que o erro do atual governo foi a política de confrontação e de enfraquecimento das instituições; e da gestão petista foi a aposta no capitalismo de compadrio e em um modelo de cooptação de apoio político que jamais levaria a um crescimento econômico sustentável. Portanto, seria necessário, “o fim da reeleição para cargos executivos, eliminação de privilégios e a reforma do Judiciário”.

No campo econômico, propõe a montagem de um arcabouço fiscal, para manter a dívida pública em níveis sustentáveis, reforma tributária para eliminar a regressividade da incidência da tributação, elevar a segurança jurídica e incrementar a competição. No campo social, estipula que políticas publicas voltadas para “assistência à primeira infância, na educação, na orientação objetiva da saúde e nas transferências de renda que ‘deem a todos o mesmo ponto de partida”. E no campo ambiental, destaca a contribuição da Embrapa para o aumento da produção agrícola por unidade de área cultivada, exemplo de eficiência que tem sido desconsiderado devido ao desmatamento criminoso na Amazônia.

Início auspicioso de campanha eleitoral, ao contrário do que se esperava!

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