Metaverso – destruidor ou criador de novos modelos de negócios e oportunidades?

Metaverso – destruidor ou criador de novos modelos de negócios e oportunidades?

REDAÇÃO

17 de junho de 2022 | 00h15

Ariane Reisier, Mestre em Administração de Negócios e Marketing na FIA (Fundação Instituto de Administração) e Professora contratada da FGV – IDE

Luiz Carlos Di Serio, Doutor em Engenharia da Produção na Escola de Engenharia de São Carlos da USP e Professor da FGV – EAESP

A partir dos conceitos e trabalhos de Adam Smith, Taylor e Fayol, Ford estruturou as bases da Administração. Os pilares do modelo de negócio do Fordismo foram: padronização, intercambiabilidade, escala, volume, divisão da tarefa, departamentalização. Ou seja, os clientes tinham poucas opções e seu lema era: “qualquer carro desde que seja preto”.

Slogan da GM, já tinha iniciativas de criar um portfólio mais amplo de produtos, ou seja, mais variedade.

O modelo Toyota de produção (TPS) colocou o foco da produção sob demanda e conseguiu revolucionar o mercado, exportando produtos com qualidade superior comparados a outros, com ênfase em durabilidade, e com uso intenso de estatística (CEP).

Em 1984, Dell conseguiu montar computadores em casa e iniciar um novo modelo de negócio, de venda direta e de forma customizada.

Novas tecnologias, como Inteligência Artificial (IA), Simulação, Robótica, Internet das Coisas (IOT) e Realidade Aumentada (RA), trazem novas oportunidades para desenvolvimento de novos modelos de negócio e elevam a produtividade a patamares superiores.

A partir desta mudança de paradigma, de escala para customização em massa e fortalecida pelo conceito de produtos e serviços baseados em bite, ou melhor, dados, que caracterizam a instantaneidade, acesso imediato e a replicabilidade, cópias executadas sem nenhuma alteração, surgem empresas como Google, Facebok, Amazon e outras.

O Metaverso se beneficia dessas tecnologias e o paradigma de customização está presente nos possíveis modelos de negócio, produtos e serviços.

Segundo The Future Today Institute’s 2022, no Tech Trends Report, a mídia sintética, como é chamada a mídia digital no metaverso, será usada para gerar semelhanças de produtos materiais e entregará uma variedade de produtos e serviços customizados e em escala.

Os executivos perguntam: como “aterrar” as oportunidades do Metaverso?

Observamos a necessidade das empresas de diferentes setores de apreender mais sobre o assunto, para poderem construir um planejamento e provisionar orçamento que contemple o Metaverso. Mas, várias dificuldades serão encontradas para se vender a ideia nas organizações, onde geralmente os executivos e a cultura organizacional tendem a não aceitar mudanças significativas e avaliar a vantagem no investimento.

A dificuldade de diferentes gerações convive nas empresas, agrava a dificuldade de entendimento, os hábitos e valores das diferentes gerações interferem diretamente na compreensão das novas tecnologias.

Então, vamos lembrar do passado?

Estamos revivendo, em proporção exponencial, o mesmo momento que vivemos com as primeiras páginas HTTP para o universo de terminais de computadores, baseados em tela de texto. As empresas, então, se perguntavam: será que preciso ter um site na internet?

Hoje, sabemos que foi um caminho sem volta, assim como demonstram as tendências de como será o metaverso e a adoção de plataformas imersivas.

Sabe-se que inovação pautada em tecnologias disruptivas é a chave para acompanhar o ritmo do progresso, do crescimento e do tecnológico, perpetuando a marca da empresa. O entendimento é que sair na frente exige investimento, mas garante aprendizado e conhecimento para alcançar o desejado “oceano azul”.

Assim sendo, à medida que o metaverso continua a crescer e evoluir, igualmente aumenta o potencial para as marcas interagirem com os clientes de maneira inovadora.

Fazendo uma analogia com o universo de games e inteligência artificial (IA), a proporção de conhecimento dessas duas tecnologias, está diretamente associado ao conceito do Metaverso, o que pode gerar uma dualidade de percepções. Isso pode, por exemplo, causar medo, gerar insegurança em relação a um futuro imaginário desconhecido extremo ou uma realidade virtual que pode ser prazerosa.

Dessa forma, o conceito e as tecnologias envolvidas no Metaverso são recentes, o que pode gerar dificuldades para se estabelecer um consenso entre as pessoas e dentro das organizações. Há necessidade de se promover capacitação e um alinhamento sobre as possíveis aplicações.

O que é o metaverso?

A etimologia da palavra: o prefixo grego “meta” significa mais alto, além, muitas vezes até transcendendo. E a parte “verso” vem da palavra “universo”, para indicar que o metaverso é um universo que transcende aquele que habitamos atualmente.

Em termos técnicos, o metaverso é uma infraestrutura tecnológica, a qual permite que a interação humana ultrapasse as barreiras físicas e geográficas, também denominada de experiência Figital. Este termo é utilizado para denominar uma fusão das experiencias digitais com as físicas. De certa forma, já vivemos no metaverso. Os jogadores de games certamente já experienciaram jogos de realidade virtual, avatares digitais e comunidades online. Os usuários de redes sociais já aplicam filtros de realidade aumentada em suas fotos.

Refere-se a uma experiência digital na internet, algo que é semelhante ao que vivenciamos na realidade, mas não está realmente acontecendo no mundo físico. O metaverso é muito mais imersivo do que videogames ou experiências de realidade virtual, porque inclui múltiplos sentidos (por exemplo, visão, som e tato). Tudo isso pode oferecer uma maneira inovadora de comprar, jogar e se comunicar com outras pessoas online.

A maioria dos entusiastas do metaverso argumenta que a pandemia global do coronavírus impôs o uso da tecnologia nas interações à distância, e agora muitos já estão acostumados a ter interações através da tecnologia, seja em atividades de trabalho pelo Zoom, videochamadas com membros da família ou vendendo produtos físicos no Facebook Marketplace. O metaverso, através da Web 3 (internet de terceira geração descentralizada), aprimorará essas experiências, equipando os consumidores com carteiras digitais contendo sua criptomoeda (dinheiro) e quaisquer ativos digitais que possuam na forma de NFTs (Non-fungible token)

A seguir discutimos algumas possíveis perspectivas e aspectos relevantes.

Como os dados serão usados? E a privacidade?

Acredita-se que, quanto mais usuários tiverem a necessidade de criar um vínculo de seus perfis do metaverso com as informações pessoais, as ferramentas de averiguação e segurança, como por exemplo a biometria, ganharão relevância essencial. (Fonte: Key Insights of Metaverse – The Future Today Institute’s 2022 Tech Trends Report)

Os relacionamentos virtuais substituirão o toque humano?

Equipamentos inteligentes que poderemos vestir serão utilizados com mais frequência, a exemplo dos óculos e lentes de contatos, que poderão derrubar a indústria de interfaces atualmente projetadas e utilizadas nos smartfones.

As vestimentas hápticas são outro exemplo relevante a ser mencionado, pois simulam sensações corporais como o tato nas relações sociais de entretenimento.

Como acessar o metaverso?

Pode ser através de um equipamento de realidade virtual, onde o usuário fica imerso, usando um conjunto de óculos de realidade virtual. Isso permite controlar seu avatar com seus próprios movimentos físicos ou pode ser por seu computador, entrando nas plataformas dos “mundos existentes” (o equipamento não é obrigatório, mas é parte importante da experiência pelo usuário).

Como interagir no Metaverso?

É necessário ter uma carteira de criptomoedas compatível. Os mundos e plataformas de jogos mais populares do Metaverso operam no blockchain Ethereum, no Solana ou Layer1 blockchains.

O que é propriedade no metaverso?

Então, se tudo é digital, o que realmente podemos possuir no Metaverso?

Imagine que você é um jogador de videogame e recebe um token ou prêmio especial que lhe dá vidas extras. No videogame, o seu avatar poderia guardar esses itens em uma mochila digital. Esse é um conceito semelhante a coletar moedas de ouro jogando Super Mario.

No metaverso, a propriedade funciona de forma semelhante. Exceto agora, graças à tecnologia blockchain, é possível criar uma escritura digital (também conhecida como registro) da transação.  O Blockchain é um livro digital gigante que armazena todas essas informações para sempre, e seus ativos não desaparecem apenas porque você desliga o computador ou o console de jogos.

Levando as coisas um passo adiante, as empresas do metaverso estão encontrando maneiras de expandir a definição de propriedade digital além de apenas prêmios de videogame.

Brave, um navegador de internet, permite que os usuários optem pela quantidade de anúncios que desejam ver. Quando os usuários, optam por visualizar mais anúncios, eles são recompensados ​​com Brave Attention Tokens (BAT), que são armazenados em uma carteira de criptomoedas para que os consumidores usem como quiserem.

Será a revolução da propriedade, hoje só existe em empresas de entretenimento centralizadas e somente elas recebem o pagamento da atividade do usuário. Imagine uma plataforma que irá dividir o lucro que ela obtém em publicidade com o usuário?

Esses novos conceitos de propriedade digital são pilares fundamentais para o admirável mundo novo da Web 3, onde todas as nossas contribuições digitais podem ser registradas no blockchain.

Como você faz compras no metaverso?

Assim como as compras online, acessaremos os marketplaces do metaverso digital pela internet. Mas, em vez de nos conectarmos às nossas contas por meio de um login do Google ou do Facebook, simplesmente conectaremos uma carteira digital como a MetaMask (colocar endereço). Para compras precisaremos manter criptomoeda compatível e suficiente na carteira para cobrir o custo do item e mais as taxas aplicáveis.

Os marketplaces serão shoppings virtuais, onde os usuários poderão comprar e vender mídia sintética e até mesmo licenciar seus próprios produtos para usar online e no metaverso.

Significa que, no futuro, as compras online no metaverso serão personalizadas por propósito e a variedade oferecida para uma mesma pessoa atenderá a diferentes projeções virtuais e, assim, as marcas poderão oferecer produtos e experiências criativas e envolventes, as quais seriam impossíveis de se oferecer no mundo real.

O metaverso é divertido?

Isso depende da definição de diversão e do que exatamente se pode fazer no Metaverso, mas muitos acham divertido.

É possível entrar neste mundo virtual para conhecer novas pessoas, experimentar novas atividades e criar oportunidades de conexão humana, desassociadas do seu formato físico materializado no mundo real. No Metaverso é possível ser quem se sente que é, sem as inseguranças e rótulos que o mundo te impôs.

Assim sendo, vestir um avatar no metaverso é uma forma divertida de autoexpressão.

The Tech Trends Report 2022 menciona que as pessoas criarão múltiplas versões de si mesmo, cada uma adaptada a determinado propósito.

Isso poderá levar à fragmentação das pessoas em diferentes personalidades e a uma lacuna cada vez maior entre quem uma pessoa é no mundo físico e como ela se projeta no mundo virtual.

Como as marcas podem usar o metaverso?

Existem muitas maneiras diferentes, pelas quais as marcas podem usar o Metaverso para interagir com os clientes. Algumas das maneiras mais fáceis de começar a se envolver incluem:

  • Criando NFTs que representam sua marca ou empresa

Exemplo dessa utilização foi o primeiro Fashion Week realizado no Decentreland, onde os convidados tinham acesso por um convite gerado em uma NFT.

  • Patrocinando eventos dentro do Metaverso, como torneios de jogos ou festivais de música

O banco HSBC adquiriu lote de terra no The Sandbox, onde serão desenvolvidas atividades de entretenimento esportivo e de games. A Warner Music tem desenvolvido experiências musicais imersivas e inovadoras, com cantores e Djs famosos, ganhando inúmeros participantes.

  • Construindo escritórios virtuais para que os funcionários trabalhem juntos

O NFT Floor da Accenture é exemplo dessa iniciativa, eles adquiriram os equipamentos de imersão para os colaboradores e clientes, para que as reuniões pudessem ser realizadas no Metaverso.

  • Criação de lojas virtuais ou plataformas para experiências de compras

O Boticário, primeira marca brasileira de cosméticos a entrar no metaverso Avakin Life, teve o objetivo motivador de abrir conversa com o público gamer, estabelecendo interações com o público em um nível de imersão.

As marcas precisam começar a planejar sua entrada no metaverso

Para estar à frente da concorrência, as marcas devem começar a traçar estratégias agora para poderem, em breve, entrar no Metaverso.

Embora possa parecer uma ideia abstrata, o Metaverso está começando a fazer parte da agenda de muitas empresas de diversos setores. Assim, é essencial ocupar o papel de um novo entrante, acompanhar o desenvolvimento dessa tecnologia, para ocupar um espaço na mente dos clientes e daqueles ainda não clientes.

Não menos importante, antes de tomar qualquer decisão, é essencial entender se o metaverso é adequado para o seu público-alvo. Por exemplo, avaliar o perfil dos clientes para poder direcionar os investimentos da empresa.

Estude a concorrência

Para ficar à frente da concorrência, é essencial saber avaliar as iniciativas e investimentos dos principais concorrentes. Isso significa estudar que tipo de experiências outras marcas estão oferecendo ou como elas estão interagindo com os clientes. Algo semelhante funcionaria para a sua marca?

Encontre oportunidades para sua marca participar

Depois de entender melhor o que é o Metaverso e como pode beneficiar seu negócio, é hora de encontrar oportunidades em que sua marca possa participar. Isso pode incluir o patrocínio de eventos, a criação de escritórios ou plataformas virtuais.

O futuro do trabalho que iremos experimentar será híbrido e digitalmente imersivo, segundo 2022 Tech Trends Report.  Acredita-se que as empresas implantarão plataformas de reuniões virtuais, experiências digitais e mundos de realidade mista para conectar seus inúmeros colaboradores de diferentes localidades do mundo.

O Metaverso é uma experiência digital que está crescendo rapidamente em popularidade. Existem muitas maneiras diferentes das marcas se envolverem e, por isso, é importante criar estratégias agora e decidir se a mais adequada é ser um early adopter or late mover.

 

* As ideias e opiniões nesse texto são de responsabilidade dos autores.

 

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