Messias: loucura, mitificação e desresponsabilização

Messias: loucura, mitificação e desresponsabilização

REDAÇÃO

08 de abril de 2020 | 11h55

Marcelo Galletti Ferretti, graduado em Psicologia e em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Tem experiência nas áreas de Filosofia e de Psicologia, com ênfase em História e Filosofia da Psicologia e da Psicanálise. É professor da FGV-EAESP.

Ao menos desde que participou da manifestação contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, o presidente da República vem sendo objeto de intensos questionamentos de natureza, digamos, psicopatológica. O jurista Miguel Reale Júnior defendeu a inimputabilidade do presidente e sugeriu que o Ministério Público requeresse um exame de sanidade mental para o exercício da profissão. Outras declarações e artigos nessa mesma direção advieram nos meios de comunicação. A jornalista Thaís Oyama, conhecedora dos bastidores da família e do governo Bolsonaro, relatados em livro recente, escreveu algumas colunas sobre o assunto, uma das últimas narrando a percepção geral do cambaleante equilíbrio mental de Jair Messias.

Esses questionamentos indicam o deslocamento, para um plano psicopatológico, de uma discussão que deveria ser mais urgentemente encaminhada num plano ético-político. Numa palavra, tratar Jair Messias como um caso clínico implica, de um lado, continuar a mitificá-lo e, de outro, eximi-lo das consequências de seus atos, bem como desresponsabilizar aqueles que o levaram a ocupar a cadeira da Presidência da República ao defenderem a política econômica que ele poderia implementar.

Qualquer terapeuta ou analista responsável deveria saber que tentar diagnosticar um indivíduo que não se senta em nossa poltrona ou deita em nosso divã representa uma tarefa puramente especulativa desprovida de embasamento rigoroso, mas esse não é o maior problema envolvendo nossa questão. Nesse caso, as especulações contribuiriam ainda mais para a concentração da atenção sobre a personalidade de Jair Messias, que acabou se mostrando o grande trunfo do então candidato em 2018. Sua retórica da autenticidade explica em larga medida o fato de ter conseguido se eleger, como mostraram boas análises, assim como suas demonstrações de virilidade e destemor.

Em maior ou menor grau, tais elementos parecem ter convencido tanto aqueles que o enxergaram como o bastião da moralidade em meio a um deserto de corrupção quanto aqueles que o viam como um excêntrico que teria força para implementar as medidas de austeridade boladas por seu ministro da economia. A mítica em torno dele foi aceita entre seus eleitores em alguma medida, a despeito do que ele de fato havia dito e feito durante quase trinta anos de vida pública. Uma mítica, portanto, em torno de sua personalidade, a qual as ilações diagnósticas só fariam reforçar.

Caberia perguntar então que tipo de análise mais bem fundamentada e adequada os saberes sobre o psiquismo poderiam fornecer nesse caso, o que nos leva às investigações dos fenômenos de massa. Freud nos ensinou que a chave destes residia na análise da relação entre líder e massa. Seu discípulo Wilhelm Reich, por sua vez, analisando o caso específico dos fenômenos de massa fascistas, mostrou que o êxito de Hitler não se deveu à sua personalidade, à ideologia nazista ou a um desânimo da população, mas ao apoio decisivo de vários setores das classes médias. Por outro lado, o psicanalista Christophe Dejours, recuperando o melhor da historiografia sobre o Holocausto desde Raul Hilberg e as poderosas reflexões de Hannah Arendt sobre a questão Adolf Eichmann, mostrou como a mobilização das massas para o pior, do nazismo ao neoliberalismo, só ocorre quando se encara os atos perpetrados como um trabalho sério e desapaixonado, no qual não há lugar para sádicos e psicopatas. São ensinamentos que valeriam ser trazidos à discussão para se investigar os populismos contemporâneos e o caso brasileiro. De todo modo, análises psicológicas consequentes como essas, capazes de evitar a velha e ideológica antinomia indivíduo-sociedade, jamais referendam o enfoque exclusivo da personalidade do líder.

O que nos leva ao outro aspecto desse enfoque problemático, que são as desresponsabilizações decorrentes dele. A psicanálise mostrou que nossas formas de ser no mundo derivam de algum tipo de escolha, de forma que sempre somos responsáveis por elas. Assim, diferentemente de que ocorre com uma doença causada por vírus, temos parte em nossas “doenças da alma”. Porém, não é essa concepção de patologia que está sendo evocada no debate acerca dos comportamentos do presidente. Trata-se de defender que sua loucura, supostamente manifestada quando saiu às ruas e enfrentou as recomendações sanitárias, teriam o tornado inimputável. Como se esse ato fosse muito diferente dos outros tantos que pudemos testemunhar desde sua carreira no Exército. Como se de fato não tenha agido alguma vez como um antipresidente.
Ao mesmo tempo, considerá-lo como insano é uma forma de apartá-lo daquela parcela importante de seus eleitores, os quais o apoiaram pela equipe econômica que trouxe consigo. Ora, as fatídicas saídas às ruas de Jair Messias nada mais foram do que a encenação do imperativo do trabalho em tempos de estado mínimo e do caráter sagrado do mundo financeiro. E no entanto a equipe econômica, a qual retardou ao máximo a efetivação do plano aprovado pelo Congresso Nacional, não recebeu a pecha de desatinada, e nem os empresários que vieram a público defender o país não podia parar. Ao invés disso, Jair Messias foi tido como o grande insensato, o Outro da Razão, essa figura que responde pela loucura na história ocidental. Ele se tornou o bode expiatório da razão econômica que denega a criação de um fundo com os lucros do sistema financeiro ou taxação das grandes fortunas.

Essa estratégia de imputação da patologia mental na política não é nova na vida nacional – remonta ao início da demonização do comunismo no país –, mas sua ascensão recente se deve à emergência da nova direita após junho de 2013. Nova direita a qual, por seu turno, emplacou o que se convencionou chamar de “discurso do ódio”. Neologismos como “esquerdopata” são exemplares do uso irresponsável da retórica psicopatológica como fonte de incitação da aniquilação do outro que não pensa como eu. Termos como esse evidenciam uma lógica discursiva que tem como centro de gravidade a certeza delirante acerca do que o outro é.

Este momento de enorme crise sanitária e política em que vemos pequenos sinais de mudança de posição de muitos pode ser oportuno para o desmonte dessa estratégia de imputação da loucura que trouxe consigo o ódio mortífero. É a ocasião de substituir os falsos diagnósticos de transtornos psíquicos pelas categorias éticas da coragem e da prudência que sempre orientaram a política. Assim poderemos ver que Jair Messias não se comportou como um doente mental, e sim, visando à sua própria sobrevivência política e temendo perder apoio, como um covarde, preocupado em agradar seus fiéis. Assim não apenas podemos tirá-lo do Olimpo em que alguns o colocaram como também o conduzir ao tribunal dos homens em que ele deve responder.

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