Mato Grosso do Sul: (des)articulação, alinhamento e aumento do número de casos no interior do estado[i].

Mato Grosso do Sul: (des)articulação, alinhamento e aumento do número de casos no interior do estado[i].

REDAÇÃO

24 de junho de 2020 | 08h26

Profa. Dra. Déborah Monte, Doutora em Relações Internacionais (Puc Minas) e Professora da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

Prof. Me. Marcos Prudencio. Mestre e Doutorando em Geografia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Enf. Me. Elaine Regina Prudencio Hipólito da Silva, Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

 

O surto da COVID-19 em Mato Grosso do Sul tem apresentado um aumento relevante no número de casos em relação aos dados do último mês. Em 06/05 o estado registrou 303 casos confirmados e, em contrapartida, no dia 23/06 já são 5.784 casos (208,13 casos/100.000 habitantes). Até o momento, 55 óbitos foram registrados, representando 1% de letalidade.

 

Gráfico 1. Evolução diária por data de notificação, 06/05 a 22/06.

Fonte: Painel COVID MS, 2020.

 

Os números, no entanto, confirmam que o vírus vem avançando e evidenciando a sua interiorização no estado, indo ao encontro do cenário do restante do Brasil. Dos 79 municípios, 63 (80%) já confirmaram a sua circulação em seus territórios, vindo em destaque no ranking, as pequenas cidades de Guia Lopes da Laguna, com uma população de 10.309 habitantes e uma taxa de incidência da doença de 2.567 casos/100.000 habitantes (254 casos confirmados), e Douradina com 5.294 habitantes e uma taxa de 1.586,8 casos/100.000 habitantes (94 casos confirmados). Dourados, segundo município mais populoso do estado, é o novo epicentro da pandemia com 1.964 casos confirmados, sendo 113 na reserva indígena.

Mapa 1. Número de casos confirmados de COVID-10 segundo município de residência, Mato Grosso do Sul, 2020.

Fonte: os autores com dados de Painel COVID MS, 2020.

 

A análise mais acurada do cartograma permite inferir que a dispersão do vírus aumentou muito em áreas onde o território é mais fragmentado, isto é, onde há um maior número de municípios. A mesorregião sul é onde se encontra a cidade de Dourados, principal foco da COVID-19 no estado atualmente, apresentando maior fragmentação e maior integração territorial por rodovias.

Dourados é a cidade de maior desempenho econômico da mesorregião sul e ocupa o maior grau na hierarquia da rede urbana deste local. Especula-se que o seu poderio econômico, que atrai populações das cidades menores ao seu entorno, e o baixo de índice de isolamento social resultam nesta aglomeração de casos. Próximo à Dourados existem pequenos municípios que apresentam elevados números de casos, como Fátima do Sul (214 casos), Rio Brilhante (211), Itaporã (97) e Vicentina (63).

O quadro do expressivo incremento no número de pessoas infectadas e a propagação do vírus em grande parte dos municípios apontam para um importante e preocupante problema: os baixos índices de isolamento social apresentados pelo estado desde o início do combate à disseminação da doença. A taxa de isolamento social corresponde a 36,7%, uma das mais baixas do país em 22/06, e vai na contramão da recomendação feita pela OMS de 70% das pessoas em casa.

Em face das tentativas de conter a doença, houve a implantação do Drive-Thru de testes PCR e testes rápidos, para sintomáticos respiratórios, nas quatro maiores e principais cidades do estado, que realizou 9.857 exames até 22/06. Ao confrontar este total com uma população de 2,778 milhões de pessoas, fica evidenciada uma cobertura de 0,35% da população testada para a COVID-19.

Com o aumento crescente dos casos, o estado vem engendrando esforços para o enfrentamento da doença, como a ampliação do número de leitos SUS, ainda que apresente uma taxa de ocupação de 17% dos leitos clínicos e 31% dos leitos de UTI disponibilizados para casos confirmados e suspeitos de COVID-19. Ressalta-se, porém, que uma parcela significativa dos leitos de UTI está concentrada na capital e o restante distribuídos em alguns municípios do interior, o que implica na necessidade de deslocamento daqueles que precisarem de cuidados intensivos.

Por outro lado, a taxa de ocupação global dos leitos de UTI SUS é preocupante. Quando considerados leitos destinados para casos confirmados e suspeitos de COVID-19 somados aos leitos para demais casos, os municípios de Campo Grande e Corumbá apresentam, respectivamente, percentuais de 71% e 80% de ocupação. Essa conjuntura tem um potencial de acarretar um eventual colapso do sistema de saúde.

(Des)coordenação no contexto de crises

No contexto da pandemia do novo coronavírus, o Brasil também passa por uma crise política e federativa causada, principalmente, pela presidência da República. Em linhas gerais, os discursos e as ações de Jair Bolsonaro incentivam o afrouxamento do isolamento social e dificultam a adoção de critérios técnicos e científicos como diretrizes para as políticas de combate à pandemia.

Reinaldo Azambuja (PSBD) subscreveu em abril/2020, juntamente com outros 19 governadores, um manifesto que questiona as ações e os discursos da presidência em relação à pandemia e aos ataques às instituições democráticas. Tal ato sinaliza um não alinhamento às diretrizes políticas federais e evidencia a descoordenação da gestão da pandemia entre as esferas federal e estadual. A primeira ação do governo de Mato Grosso do Sul em relação à COVID-19 ocorreu em 13/03, após a declaração do status de pandemia pela OMS, em 11/03/2020.  Desde lá, o executivo estadual tem lançado medidas de suspensão de serviços públicos, fiscalização sanitária, assistência social, incentivos econômicos, entre outras temáticas. Apesar da flexibilização do isolamento social em várias cidades, o governo estadual não atuou neste sentido. Contrariamente, há manifestações relacionando o aumento do número de casos no estado à redução do isolamento social[ii].

A capital Campo Grande é governada por Marcos Trad (PSD), primo do ex-Ministro da Saúde Luís Henrique Mandetta. Trad criticou a postura do presidente Jair Bolsonaro que defende a necessidade de retomar as atividades econômicas e estabelecer um isolamento “vertical”, afirmando que tais argumentos levariam a população a rejeitar os decretos municipais[iii]. No entanto, a partir de 17/04, as ações da prefeitura passaram a instituir a abertura do comércio (Decreto 14.257) e serviços, como academias (Decreto 14.256), em observância ao Plano de Contenção de Riscos[iv].

A prefeitura de Dourados, por sua vez, age de maneira mais alinhada ao governo federal. Délia Razuk (PTB) instituiu medidas de flexibilização do isolamento social que autorizaram o funcionamento dos setores comerciais e de serviços (Decreto 2.511), academias (Decreto 2.543) shoppings e igrejas (Decreto 2.575), sendo que o Decreto 2.511 menciona explicitamente alinhamento às orientações do governo federal de que “o enfrentamento da Pandemia […] não pode causar a paralisação da Economia”. Ante ao aumento do número de casos nos meses de maio e junho, o Decreto 2.664 (15/06) suspendeu por 15 dias o funcionamento dos templos religiosos e instituiu a obrigatoriedade do uso de máscaras em espaços públicos e estabelecimentos comerciais. Medidas mais restritivas, como o lockdown, não foram ainda implementadas.

O Mato Grosso do Sul se encontra em uma intrincada situação de aumento de casos, especialmente no interior, avanço do vírus em populações mais vulneráveis e descoordenação entre os executivos estadual e municipais. Para controlar a pandemia e assegurar um atendimento adequado às demandas de saúde é importante elevar o isolamento social.  Para tanto, os esforços do poder público, somados aos da população em geral, são fundamentais para evitar o avanço significativo do vírus, bem como o colapso do sistema de saúde.

 

[i] O artigo faz parte do projeto em parceria com a ABCP coordenado pela professora Luciana Santana (Ufal) intitulado: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia de covid19 no Brasil. Essa é uma versão elaborada a partir de texto publicado no site da ABCP em 09/06/2020 no seguinte link: https://cienciapolitica.org.br/noticias/2020/06/especial-abcp-acoes-mato-grosso-sul-enfrentamento-pandemia

[ii] http://www.ms.gov.br/afrouxamento-do-isolamento-social-tem-relacao-direta-com-aumento-de-casos-de-coronavirus/ e http://www.ms.gov.br/onda-de-positivos-para-covid-19-e-fruto-do-descaso-com-distanciamento-social/

[iii] https://www.correiodoestado.com.br/politica/primo-de-mandetta-prefeito-marcos-trad-critica-bolsonaro/370594

[iv]     https://nepolufjf.wordpress.com/2020/04/26/campo-grande-dilemas-e-alinhamentos-frente-a-pandemia/

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