Marielle, presente!

Marielle, presente!

REDAÇÃO

12 de março de 2020 | 18h05

 

Rafael R. Ioris, professor da Universidade de Denver, membro da Rede Norte-Americana pela Democracia no Brasil e do Comite de Justiça e Paz de Denver.

Chegamos ao 14 de março de 2020, data de marca o segundo aniversário do assassinato de Marielle Franco, sem que tenhamos avançado na investigaçao e especialmente na puniçao dos envolvidos nesse brutal ataque ‘a democracia no Brasil. De fato, apesar de prisões dos prováveis executores do crime, que também matou Anderson Gomes, motorista da vereadora, os fortes indícios de que os ex-PMs Ronnie Lessa e Elcio Queiroz tinham ligações estreitas com a família Bolsonaro, inclusive a ponto que terem talvez visitado a casa do presidente no dia do assassinato, não foram até o momento propriamente investigadas.
Alguns vem apontando que o caminho seria federalizar a investigação, especialmente agora que uma das possíveis testemunhas do caso, o miliciano e também ex-PM Adriano Nobrega foi vítima de um estranho assassinato na Bahia. Apesar de talvez atraente, dado que poderia, em tese, dar conta dos problemas oriundos da infiltração das próprias milícias nos vários aparelhos do governo do estado do Rio de Janeiro, a transferência do processo para a esfera federal, com o eventual envolvimento da Polícia Federal, faria com que uma investigação que provavelmente, se feita de maneira isenta, chegaria ‘a família do presidente da República, venha a ficar ‘a merce dos desígnios do atual Ministro da Justiça, Sergio Moro, aliado e defensor de primeira linha do presidente.
É certo que o trabalho de Marielle sempre incomodou os interesses da família Bolsonaro. Lembremos que ela era uma das principais vozes a favor dos direitos humanos na cidade do Rio de Janeiro, base eleitoral de uma família de políticos que fez carreira na negação da importância desses mesmos temas. Da mesma forma, e maneira diretamente ligada a membros da família, Marielle era vista por muitos, embora a idéia não tenha sido implementada, como a principal adversário de Flávio Bolsonaro ao cargo de Senador na eleição de 2018.
Dado os evidentes conflitos de interesse envolvendo os maiores mandatários do país, estariamos frente a mais um claro caso de crime político que provavelmente ficará sem punição? Dada a escalada autoritária do governo Bolsonaro ao longo dos últimos dias, é difícil ter otimismo que esse não seja o caso, pelo menos no curto prazo. Alguns tem mesmo apontado que parte da motivação para um eventual fechamento do que ainda resta de estado de direito no país tenha a ver com o fato de que, apesar de tudo, setores do Ministério Público tem tentado avançar em um possível indiciamento de Flávio Bolsonaro pelo crime do assassinato de Marielle.
Dentro desse quadro, que evidencia bem os meandros criminosos do estado brasileiro, estaríamos condenados a ter que vivenciar o aniversário dessa trágica barbárie somente com dor ou seria possível em algo diferente?
Estudiosos da América Latina nos EUA tem ha´muito tempo a entender os paradoxos profundos existentes de sociedades que apresentam, ao mesmo tempo, riqueza cultural e potencialidades de desenvolvimento ímpares, e níveis de exclusão socio-econômica e políticas também únicas. A reflexão sobre essas questões é riquíssima e, especialmente ao longo dos últimos 20 anos, um efetivo e criativo diálogo tem se estabelecido entre especialistas norte-americanos e brasileiros trabalhando em temáticas diversas e complexas como desigualdade, racismo, democracia, etc. Lembremos também o papel importante que acadêmicos de diveras prestigiosas instituições dos EUA desempenharam em denunciar violações aos direitos humanos no período mais duro da ditadura civil-militar que atormentou a sociedade brasileira entre os anos de 1964 e 1985.
Vivenciamos hoje ecos, cada dia mais fortes, desse passado inglório e vergonhoso de autoritarismo, destruição do regime democrático, aumento acelerado da exclusão social e perseguição clara dos defensores dos direitos humanos ativistas dos movimentos sociais organizados. Lembrar e vivenciar de maneira corajosa Marielle e seu trabalho representa, pois, a própria defesa da democracia, dos direitos humanos e da vida no Brasil.
Ness sentido, ao redor dos EUA, diferentes organizações ligadas ‘a defesa dos direitos humanos e da democracia no Brasil, muitas delas associadas ao coletivo Rede Norte-Americana pela Democracia no Brasil (US Network for Democracy in Brazil), assim ao Comitê de Justiça e Paz de Denver (DJPC), no estado do Colorado, estão organizando multiplos eventos a fim de lembrar a ocasião do assassinato de Marielle, exigir que as investigações ligadas ao caso prossigam de maneira isenta, e denunciar o aprofundamento do processo de erosão da democracia e Estado de Direito no Brasil. É o que esperam todos que ainda acreditam na democracia no Brasil, nos EUA e ao redor do mundo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.