Mandetta: a emergência de uma liderança

Mandetta: a emergência de uma liderança

REDAÇÃO

09 de abril de 2020 | 14h39

Filipe Sobral, Professor de Liderança e Comportamento Organizacional da EBAPE-FGV.

A pandemia do coronavírus foi um tsunami nas nossas vidas. Sem aviso e com uma velocidade de propagação vertiginosa trouxe incerteza e imprevisibilidade para nossa realidade. Com a perda de controle sobre a situação, instalou-se o medo, a desorientação e a instabilidade emocional nas pessoas. Mais do que nunca, governos, hospitais, empresas, escolas, entre outras organizações públicas e privadas, precisam de líderes capazes de guiar a ação coletiva que transcenda as limitações e medos individuais para fazer mais e melhor de forma a superar as adversidades.

O que décadas de pesquisa nos ensinam é que essa capacidade para liderar em tempos de crise não está escrita no código genético das pessoas, mas sim em um conjunto de competências e comportamentos que inspiram e encorajam as pessoas para agir e superar a incerteza e o medo que as ameaça de paralisia.

No Brasil, temos assistido à emergência de Luiz Henrique Mandetta como um desses líderes. A aprovação de Mandetta na resposta à crise de coronavírus é, de acordo com pesquisa recente da Datafolha, de 76%, o que revela uma rara concordância de diferentes segmentos do espectro político-ideológico. Mas quais são os comportamentos que têm permitido ao Ministro Mandetta, um político relativamente desconhecido até há bem pouco tempo, emergir com um líder no meio desta crise?

Talvez o mais importante é a forma como assumiu a responsabilidade do combate a esta pandemia. Como Ministro da Saúde, Mandetta assumiu o protagonismo com a defesa de uma estratégia de defesa do distanciamento e isolamento social para mitigar os efeitos do colapso do sistema de saúde Brasileiro. Mesmo contra vozes dissonantes que defendem outras estratégias de atuação, Mandetta tem se mantido firme na defesa da estratégia de isolamento social que é, também de acordo com o Datafolha, a preferida dos Brasileiros. Mandetta está amparado nas diretrizes da OMS e em diversos pareceres e relatórios técnico-científicos, mas tem sofrido diversas pressões para mudar de estratégia ou mesmo abandonar o Ministério da Saúde. Ficou célebre a sua afirmação de que “médico não abandona o paciente” que ilustra a sua resiliência e determinação em liderar até ao final o combate ao coronavírus.

Por outro lado, a sua formação profissional dá-lhe credibilidade e confiabilidade. O momento de crise que vivemos faz com que as pessoas tendam a enxergá-lo mais como um médico do que como um político. Desta forma, o fato ser especialista em saúde e estar amparado em uma burocracia profissional altamente competente dá-lhe as condições necessárias para que as pessoas confiem e endossem a sua liderança neste momento de crise de saúde pública. Simbolicamente isso fica bem visível nas coletivas de imprensa e aparições públicas, nas quais Mandetta faz questão de usar o colete do SUS, vincando assim a sua autoridade e legitimidade sobre a gestão desta crise.

O reconhecimento e destaque que Mandetta dá à sua equipe de gestão é outro fator que contribuiu para a sua emergência enquanto líder. Frequentemente está acompanhado de João Gabbardo, secretário-executivo do Ministério, Denizar Viana, da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, e Wanderson Viana, da Secretaria de Vigilância em Saúde, com quem tem compartilhado o protagonismo nas coletivas de imprensa. Esse envolvimento da equipe gera comprometimento e lealdade ao líder. A solidariedade de dezenas de servidores e membros da equipe técnica da Saúde que se manifestavam contra a eventual demissão de Mandetta na frente do Ministério da Saúde é um bom exemplo disso mesmo.

Mandetta também se tem destacado pela forma serena e objetiva como comunica. Como intervenções regulares sobre a evolução da crise, Mandetta tem procurado focar o seu discurso nos relatórios e pareceres técnicos que transmitem segurança e transparência para a população. Recorrentemente refere que as suas decisões são baseadas na ciência, tendo por exemplo, alertado que ainda não existem evidências empíricas que comprovem a eficácia da cloroquina no tratamento do coronavírus e que a sua utilização tem alguns efeitos colaterais que precisam ser considerados aquando da sua prescrição. Além disso, a sua comunicação privilegia uma linguagem simples e empática que lhe permite conectar com a população, ao contrário de falas tecnocratas mais direcionadas para as elites. Essa empatia é bem visível quando afirmou “Não tem nenhum avô ou avó que não coloque o neto no colo e beije e abrace, mas é preciso cuidar dos idosos”.

A emergência de Mandetta como líder é potenciada pelo seu foco na busca de soluções pragmáticas para controlar e mitigar os impactos da pandemia. Seja articulando com o setor privado, como quando negociou o empréstimo de ventiladores da Rede D’Or para hospitais em Manaus onde atualmente se verifica um pico de casos de coronavírus, seja articulando com outros órgãos e entidades públicas, como por exemplo, desenvolvendo um programa de rastreamento do 125 milhões de brasileiros usando inteligência artificial para cadastrar hábitos e monitorar os contatos, Mandetta tem demonstrado um estilo de liderança focado na resolução de problemas. Essa agência na busca de soluções efetivas para os problemas mostra que sabe onde quer chegar e o que deve ser feito para atingir as metas estabelecidas.

No entanto, é importante entender que liderança não significa infalibilidade. Especialmente em momentos de grande instabilidade e imprevisibilidade, líderes assumem posições que podem não ser as mais adequadas, como quando Mandetta criticou as recomendações da OMS sobre a realização massiva de testes como forma de supressão da pandemia, estratégia que se tem revelado muito eficaz em outros países. Na medida em que mais dados vão ficando disponíveis, é importante reconhecer os erros e corrigir as posições, algo que Mandetta tem feito. Mudança de opinião não é um sinal de fraqueza da liderança, mas sim de inteligência e capacidade de adaptação.

No meio desta crise inesperada e avassaladora, o surgimento de uma liderança que traga serenidade e esperança é uma luz ao fundo do túnel. O estilo conciliador e   equalizador de Mandetta tem lhe permitido ampliar a sua rede de apoio político, e não apenas o popular. Vários atores políticos, como a cúpula do Congresso, do Senado, do STF e lideranças militares, têm manifestado o seu apoio às decisões do ministro. No entanto, essa notoriedade também lhe traz opositores, uma vez que a ascensão de uns representa uma ameaça para outros. Seja qual for o seu destino, Mandetta ficará na história como o principal rosto na luta contra o maior inimigo que já enfrentamos.

Este artigo expressa a opinião do autor, não representando a opinião institucional da FGV.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.