Logística no cenário  contemporâneo brasileiro

Logística no cenário contemporâneo brasileiro

REDAÇÃO

30 Maio 2015 | 10h06

Manoel de Andrade e Silva Reis é Professor da FGV-Eaesp e Coordenador de Projetos da FGV Projetos.

 

A logística desempenha papel crescentemente importante para a economia de um país, tendo em vista que a mobilidade e a disponibilização de bens, onde e quando sejam necessários, são parte essencial do processo de agregação de valor em praticamente todas as atividades, núcleo do processo de desenvolvimento. Não menos importante é a mobilidade das pessoas, nas longas distâncias e, especialmente, nos grandes centros urbanos. No Brasil, conforme o IPEA, em 1970, 56% dos brasileiros viviam em áreas urbanas, em 2006 eram 80% e a ONU estima que em 2050 serão 90%.

Nosso país, por sua extensão continental, pela necessidade de melhor explorar todo seu potencial produtivo e dar um atendimento mais universalizado e geograficamente abrangente às suas populações, depende profundamente de sua infraestrutura logística, que possui sérias deficiências e insuficiências que limitam a eficácia de empresas e governos. Paradoxalmente, nosso país ocupa um papel de destaque na economia mundial, oscilando entre a sexta e a oitava posições, mas é mal classificado no ranking global em muitos setores. No Índice de Desempenho Logístico (LPI – Logistics Performance Index) do Banco Mundial, ocupava, na edição de 2014, a 65ª posição, sem perspectivas palpáveis de evolução positiva. Apesar de ser um dos maiores produtores e exportadores de commodities agrícolas e minerais do mundo, sofre o revés dos altos custos e tempos na movimentação desses bens no mercado interno e nas exportações, limitando sua competitividade.

Essa competitividade tem sido ainda mais reduzida pela baixa participação porcentual das exportações de produtos de maior valor agregado frente aos produtos básicos. Temos sim o potencial para sermos um celeiro do mundo em termos do suprimento de alimentos, mas é essencial o crescimento da  competitividade e da rentabilidade.

Os desafios logísticos passam por melhorias na quantidade e qualidade da infraestrutura, maior compreensão de sua importância, melhor formação e treinamento das pessoas, redução da burocracia e dos empecilhos legais, redução da informalidade, em especial no transporte rodoviário de cargas, regulação equilibrada e eficácia da fiscalização. E quais são nossas perspectivas?

Do ponto de vista da infraestrutura logística, há planos adequados e, mais recentemente, um reconhecimento da importância da iniciativa privada nos investimentos e operação da mesma. O PIL – Programa de Investimentos em Logística, publicado em agosto de 2012 pelo Governo Federal, propõe a implantação/remodelação de um conjunto até modesto de infraestrutura, mas que certamente, se implantado em prazos adequados, poderá multiplicar em muito a capacidade logística do país. No setor ferroviário está proposta a construção de cerca de 11 mil km de novas linhas, um investimento de cerca de R$ 100 bilhões, além dos 28 mil existentes, um conjunto relativamente pequeno para o país, mas que poderá multiplicar em muito a capacidade de movimentação de cargas e o acesso aos principais portos brasileiros. Para o setor portuário estão propostas implantações/remodelações de portos, na busca da descentralização do movimento portuário, que hoje concentra mais de 70% nas regiões Sul e Sudeste, com investimentos previstos de cerca de R$ 55 bilhões. Para as rodovias há investimentos previstos de cerca de R$ 20 bilhões e para aeroportos de grande porte cerca de R$ 9 bilhões (Galeão no Rio de Janeiro e Confins em Belo Horizonte). Do ponto de vista da mobilidade das pessoas na longa distância, o PIL prevê a implantação/remodelação de 270 aeroportos regionais, com a subvenção de parte dos custos das passagens pelo Governo Federal, estimulando a utilização por uma faixa mais ampla da população.

Apesar de insuficiente, o PIL poderá trazer melhorias substanciais para a logística brasileira, mas é necessário que as iniciativas aconteçam com celeridade, o que não tem acontecido.

Um outro ponto em que falta agir, com determinação, é sobre o transporte fluvial, que é pífio, representando menos de 1% da produção de transporte no país, apesar de o Brasil ter uma das maiores redes de rios do mundo. O modal fluvial é tão ou mais importante do que o modal ferroviário, na movimentação das cargas de grande volume, baixo valor agregado a longas distâncias, uma das vocações brasileiras. Foram construídas inúmeras barragens para aproveitamento hidrelétrico, o que faz da matriz energética brasileira uma das mais limpas do mundo, mas não foram implantados meios para a transposição dessas barragens pelas embarcações e é de grande importância que se o faça com brevidade.

Do ponto de vista da mobilidade de pessoas nos ambientes urbanos, existe uma consciência a respeito e diversas iniciativas no sentido de se equacionar esse difícil problema. A principal iniciativa é a Lei 12.587, de 3 de janeiro de 2012, que institui a Política Nacional de Mobilidade Urbana e que, em resumo, exige que municípios com mais de 20 mil habitantes tenham desenvolvido seu Plano de Mobilidade Urbana até janeiro de 2015, sob pena de não receberem recursos federais para projetos de mobilidade urbana. Até agora, no entanto, são poucos os municípios que o fizeram.

Vivemos hoje no Brasil um momento crítico nos aspectos econômico, político, ético, social e de segurança, realidade que tem dificultado o desenvolvimento do país e trazido desalento generalizado para a sociedade e para as empresas em geral. No entanto, é possível, e completamente desejável, ter-se uma visão positiva dessa realidade, pelo fato que as grandes dificuldades podem gerar oportunidades de mudança para melhor, através de um amadurecimento efetivo e mais perene da sociedade e das instituições, o que depende da conscientização e da ação de todos.