Literatura e Gestão

Literatura e Gestão

REDAÇÃO

17 Abril 2015 | 10h20

Autor: Renato Guimarães Ferreira

Professor da FGV-EAESP

 

Compreender o comportamento humano é algo difícil, e fazê-lo de maneira clara e definitiva é, talvez, tarefa impossível. Mas gestores de todos os naipes são unânimes em indicar que essa capacidade é fundamental para que seus esforços de liderança resultem em algo efetivo. Fica no ar a pergunta incômoda: mas como aprofundar essa capacidade? Como aumentar a compreensão daquilo que motiva determinadas pessoas a agir dessa ou daquela forma, aderindo ou resistindo a processos de mudança que permeiam suas vidas cotidianas? Como agir orientado por essa compreensão mais profunda e empática com as percepções e sentimentos do outro?

Ao longo do tempo, acadêmicos e profissionais da área de desenvolvimento humano nas organizações têm se aplicado na tentativa de encontrar meios que possam gerar esse tipo de consequência em termos de competência ampliada. Eles têm explorando o desenho e analisado o impacto de atividades formais e estruturadas de educação e treinamento, assim como atividades informais e desestruturadas – fruto de experiências em ambientes não institucionalizados pelo mundo do trabalho – que contribuam para esse objetivo.

Uma das opções mais interessantes que tem ganhado impulso nos últimos anos não é propriamente nova: ler obras de ficção. Talvez ela adquira ares de novidade em uma sociedade que vem gradativamente abandonando o hábito da leitura de obras de maior fôlego em favor de obras menores, populares e açucaradas, com foco em lições de caráter superficial e simplista.

Tem se observado que a leitura de obras de ficção permite àqueles que a elas dedicam tempo e atenção, a ampliação substantiva do repertório humanista, o exercício da empatia e a expansão da compreensão de motivos, valores e necessidades que podem estar fomentando a ação de uma pessoa em seu mundo de interação.

Alguns estudos acadêmicos têm feito uma distinção interessante entre os impactos que a literatura de não ficção, a literatura de ficção popular e a literatura de ficção literária podem promover em seus leitores. A literatura de não ficção praticamente não tem impacto algum sobre isso, tratando-se de leitura técnica importante, mas com aplicação distinta da discutida aqui. A literatura de ficção popular e a de ficção literária têm efeitos quase que opostos, e por isso é importante fazer uma distinção clara entre elas (clara na medida do possível, pois os limites entre elas são permeáveis e podem inclusive ser alterados de acordo com o repertório do próprio leitor).

A literatura de ficção popular tende a apenas confirmar as expectativas dos leitores sobre os comportamentos esperados de um personagem com determinado perfil.  Ela tende a ser estruturada ao redor de estereótipos, não desafia o leitor e não o leva para o campo da dúvida que, sempre que se instaura, promove justamente a revisão de pressupostos e um eventual aprendizado sobre a complexidade dos processos motivações. Ao confirmar as expectativas do leitor, ele não induz o aprendizado, apenas reforça o conhecido e o solidifica em certezas que inibem a dúvida necessária diante de tudo que parece certo e previsível em termos de comportamento humano.

A literatura de ficção literária, por sua vez, tende a surpreender o leitor e a convocá-lo, em alguns casos até mesmo de maneira incômoda, para olhar para o lado obscuro e mais desconhecido das forças motivacionais, aquele que foge a nossa compreensão imediata e que nos coloca frente a impasses e enigmas que nos empurram para um terreno onde reinam os paradoxos e novas perguntas.

Vamos pegar alguns exemplos concretos de grandes escritores brasileiros que certamente podem ajudar na formação de gestores, simplesmente porque ajudam na formação de pessoas com visão de mundo mais ampla, diversificada e complexa.

Ler “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa é, de certa forma, mergulhar no universo da liderança violenta que se exercia e se legitimava no interior do Brasil profundo, universo este pontuado por questões de amor, amizade e ódio que criavam os contornos da vivência de seus personagens tão marcantes. A realidade mítica e sertaneja, aparentemente tão díspar da nossa realidade urbana contemporânea, não nos afasta dela, pois apresenta emaranhados de sentimentos e sensações que permanecem envoltos nas teias de sustentação de nosso mundo cotidiano. Humano, demasiadamente humano.

Ler, do mesmo autor, a extraordinária novela “Campo Geral”, com a delicada história com traços autobiográficos do menino Miguilim, não deixa de ser uma maneira de viajarmos juntos por processos de descoberta e dotação de sentido a dilemas éticos e existenciais, revivendo muitas vezes dúvidas e experiências de nossas próprias histórias de vida. O que é certo fazer? O que é o mundo? O que é a morte?

Voltando ainda mais no tempo, ler qualquer conto do Machado de Assis é sempre a promessa de surpresas e encantamentos, ainda que para muitos ele soe um tanto quanto pessimista em sua avaliação do comportamento dos homens e mulheres de seu tempo. Sua acuidade em descrever, com traços rápidos e precisos, perfis psicológicos profundamente complexos é absolutamente genial.  Se o tempo de um gestor se tornou tão escasso que lhe dificulta a leitura de qualquer um de seus grandes romances (“Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba”), é possível dedicar-se a seus contos e acessar seu universo de grande sofisticação intelectual, que retrata criticamente relações em um Rio de Janeiro em transformação, com ordens de valores que se chocam, gerando tensões e transtornos recorrentes. O pano de fundo recorrente é o da transição do Império para a República e da abolição da escravatura no Brasil, com elementos que permitem acompanhar a eclosão de diferentes tipos de crises, auxiliando-nos a refletir sobre questões contemporâneas estruturalmente similares.

Entre os contemporâneos, a leitura do amazonense Milton Hatoum nos leva a um mundo distante (geográfica e culturalmente) dos centros urbanos do Sul e Sudeste, promovendo nesse movimento o encontro com o novo e o diferente dentro do próprio Brasil, mas trazendo da mesma forma que os anteriores, a marca da compreensão do humano em suas diferentes dimensões, muitas vezes difíceis de explicar e até mesmo descrever.

Enfim, ler pode fazer bem, mesmo naqueles momentos em que a leitura incomoda, machuca e até mesmo dói. São dores do crescimento, pois é disso mesmo que somos feitos: de sonhos e frustrações, ideais e negações, vícios e virtudes. Ler não é exercício fácil, em particular ler esse tipo de literatura. É uma literatura exigente, que nos convoca a tomar posição, a nos envolver e participar junto do enredo que se apresenta. Há indicações robustas de que vale a pena.