Limites e consciências do “novo” normal

Limites e consciências do “novo” normal

REDAÇÃO

03 de junho de 2021 | 06h59

Nathália Araujo Vieira Bruni, Graduanda em Administração Pública na FGV – EAESP

Se o conceito de normalidade pode ser considerado a constituição de um padrão que assegura às pessoas que estão contidas nele uma certa proteção, segurança, continuidade e, portanto, sobrevivência, o seu oposto – acompanhado do prefixo “a”, coloca em ameaça tais características, conferindo uma situação daquilo que é anormal. Logo, não é à toa que na atualidade, lugar do tempo aqui referido como o presente, tais conceitos estejam tão latentes no cotidiano de diferentes pessoas, que vivem diferentes contextos.

Se antes a sociedade vivia em um cenário que indivíduos se pautavam pela identificação com os outros, dentro daquilo que desempenhavam individual e coletivamente, hoje a realidade destoa de seus padrões previamente conhecidos na medida em que o que – talvez, mais sustenta alguém foi colocado em risco: a sobrevivência. O que ficou evidenciado com marcas superadas dia após dia com relação ao número de óbitos pela Covid-19 tal qual foi o caso do dia 26 de março de 2021, com o número de 3.600 mortes no Brasil.

Cabe destacar, ainda, que tal ideia de sobrevivência carrega consigo chances ou condições menores de se fazer presente na realidade de indivíduos e grupos específicos. Explicação esta que se dá pelo fato de a Covid-19 estar longe de ser uma doença democrática – onde todas as pessoas estariam igualmente submetidas à ela e às suas consequências, pois incide sobre as populações mais carentes e precarizadas, que no Brasil é formada pelo contingente das pessoas negras e pardas, segundo levantamento do Ministério Público e que foi publicado na Folha de São Paulo.

Como pontuado em outros acontecimentos, a exemplo do pós-crise de 2008 nos Estados Unidos, novos conceitos vinham sido construídos para explicarem mudanças drásticas vividas pela sociedade, ou seja, transformações substanciais no modo de fazer as coisas, e não a uma retomada imediata ao status anterior, tal como definido pela consultoria McKinsey em estudo acerca do conceito de “novo normal”. Ademais, tendo em vista as definições conceituais daquilo que é normal e então (a)normal, quiçá o conceito de “novo normal” possa soar vago ou ao menos contraditório perante ao que vem sendo observado em outros países, como Portugal, onde comércios, festas e atividades diversas estão integralmente liberadas e caminham para uma realidade – como a vivida anteriormente, sem restrições.

Entretanto, apesar da realidade em outros países, como Estados Unidos e muitos da Europa e da Ásia, é importante parafrasear o líder indígena Ailton Krenak uma vez que este defende que a pandemia trouxe “a nossa chance de aprender com o que está acontecendo”, isto é, de rever os nossos hábitos enquanto indivíduos imersos dentro de uma sociedade com realidades ímpares. Fato este que diz respeito à tomada de consciência e à percepção de que enquanto seres humanos, carregam consigo a responsabilidade sobre a pandemia e sobre as ações que a desencadearam pois pensar no próximo tomou, ou evidenciou, novas proporções: as ações individuais afetam, diretamente, a vida dos outros. Aquilo que fazemos enquanto indivíduos pode definir quem morre e quem vive, considerando, inclusive, como dito anteriormente, que a pandemia afeta os grupos vulneráveis de forma mais intensa.

Não obstante, para além da tomada de consciência acerca do processo que vem sido vivenciado, destaca-se a importância de os indivíduos estarem situados com relação à determinada linha (invisível) do tempo que foi criada entre o antes, o durante e o depois da pandemia, respectivamente. Mesmo porque, se o antes era sinônimo de hábitos previamente conhecidos e enraizados na mentalidade de indivíduos, grupos e comunidades, o durante trouxe um lado jamais ou pouco explorado ao trazer consigo fatores como o isolamento social e a oportunidade de refletirmos e de estarmos com nós mesmos e com os nossos familiares mais próximos, de modo que o futuro traga consigo a necessidade de readaptação.

Nesse sentido, readaptação daquilo que antes poderia ser considerado “normal” mas que, na verdade, trouxe novos significados e valores daquilo que mais importa, tanto no âmbito individual quanto no âmbito coletivo.
Adicionalmente, Krenak defende o momento de reflexão – seguido de mudança na postura que adotamos perante à sociedade, como o momento no qual os seres humanos têm, durante o isolamento social, uma oportunidade para a pausa e correção de rumos tomados no espaço do futuro. O que se coloca como um pilar decisivo para a sociedade tomar consciência do porquê de ter vivenciado, a morte em massa e, assim, sua sobrevivência – verdadeiramente – em risco. Por conseguinte, enquanto o isolamento social trouxe a diminuição no número de pessoas atingidas pela Covid-19, este também trouxe a necessidade de ressignificação de tudo aquilo que fazíamos, fazemos e pretendemos fazer de modo a nos colocar em uma posição um tanto quanto passiva em um contexto no qual antes o “sermos ativos” aparentava ser o mantra da vez, trazendo à tona novas oportunidades.

Vale apontar que na China, local de origem da crise atual, o ideograma para a palavra crise é composto pelas palavras risco e oportunidade (crise = risco + oportunidade), ou seja, dentro do contexto atual, se a Covid-19 trouxe um cenário de crise, esta também representa oportunidades e caberia a nós, enquanto indivíduos e sociedade, aproveitá-las. Assim, tais oportunidades refletem diretamente no florescimento ou melhoria de consciências individuais e coletivas, mas, principalmente, em tudo aquilo que diz respeito ao então futuro deste (novo) normal e a sociedade que resultará das mudanças que estão ocorrendo.

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