Liderança, pandemia e polarização ideológica

REDAÇÃO

11 de junho de 2020 | 11h21

Filipe Sobral, Professor de Liderança da EBAPE-FGV

Liliane Furtado, Professora da Universidade Federal Fluminense

Juliana Carvalho, Doutoranda da EBAPE-FGV

Ula Lagowska, Professora da NEOMA Business School

Miriam Grobman, Doutoranda da EBAPE-FGV

 

Quando se fala em liderança, algumas facetas e comportamentos do líder têm sido amplamente discutidas, tanto na mídia como na academia. Quem nunca ouviu ou leu sobre a importância de líderes na articulação de uma visão clara do futuro e na motivação da sua audiência de forma a buscar os objetivos decorrentes dessa visão? Em momentos de crise, entretanto, algumas dessas facetas da liderança já são “dadas” pelo próprio contexto. Em meio a uma pandemia sem precedentes, o futuro idealizado, os objetivos e a motivação para agir já estão, em certa medida, construídos. Nessas situações, outras facetas da liderança, menos discutidas e exploradas, emergem como fundamentais. Uma delas envolve o que chamamos de sensemaking, ou seja, o processo de identificar, interpretar, e dar sentido a sinais e informações presentes no ambiente. O sensemaking feito por líderes políticos em momentos de crises, nos quais as informações são normalmente incompletas e ambíguas, é essencial para moldar a percepção e as reações dos cidadãos sobre o ocorrido e com isso promover a ação coletiva necessária para ultrapassar a crise.

Assim, visando entender como o sensemaking de líderes políticos pode afetar a percepção e reação dos cidadãos durante a crise do Covid-19, realizamos uma pesquisa com 436 participantes entre os dias 1º e 7 de abril. Os participantes foram apresentados ao pronunciamento de um prefeito de uma cidade fictícia em uma coletiva de imprensa. Nela, o prefeito descrevia a pandemia e as ações de enfrentamento que iria adotar. Nosso objetivo era entender como diferentes interpretações e sentidos (sensemaking) transmitidos pelo prefeito afetavam os níveis de ansiedade e as percepções dos cidadãos sobre o governo. Para isso, construímos cenários onde duas características das mensagens do prefeito eram manipuladas: o tom da mensagem, que podia ser otimista (por exemplo, “tudo vai ficar bem!”) ou pessimista (“o pior ainda está por vir”), e a especificidade das medidas a serem adotadas pelo governo municipal, que podia ser genérica (“a Prefeitura vai ajudar os cidadãos”) ou mais específica (“a Prefeitura concederá um crédito de R$ 1.000,00 aos desempregados, informais e pessoas em situações vulneráveis”). Independente do cenário, o prefeito defendia o isolamento social e medidas de ajuda a empresas e a trabalhadores, o que mudava era o tom da mensagem e o nível de detalhamento das ações de enfrentamento. A escolha pelo nível municipal, e não de outros níveis de governo, teve como objetivo afastar os participantes das disputas entre governos estaduais e federal, que estavam em foco no período da pesquisa.

Nossos resultados mostraram que os participantes expostos a mensagens pessimistas se sentiram mais ansiosos, porém avaliaram melhor a transparência do governo e as medidas por ele adotadas, em relação àqueles que receberam uma mensagem mais otimista do prefeito. Tais resultados estão alinhados com pesquisas anteriores, que sugerem que líderes que interpretam e abordam um evento de forma mais pessimista provocam maior ansiedade nos seus liderados, mas por falarem mais francamente sobre um evento negativo, são mais bem avaliados. Por outro lado, participantes expostos a mensagens mais específicas e detalhadas sobre as ações para o enfrentamento da pandemia avaliaram melhor a transparência do governo em comparação àqueles cuja mensagem do prefeito era mais genérica e abstrata, o que realça a importância de informações claras e precisas na abordagem da crise.

Entretanto, o que mais chama a atenção nos resultados deste nosso estudo é o efeito da polarização ideológica na percepção dos participantes. Embora esse não tenha sido o objetivo principal da pesquisa, observamos que existe uma forte influência da orientação política dos participantes (direita versus esquerda) na confiança demonstrada por eles no governo municipal. Especificamente, percebemos que os participantes com alinhamento político à esquerda demonstraram significativamente maior confiança no governo quando eram apresentados ao prefeito com abordagem mais pessimista da situação. Tendência oposta foi observada entre os participantes que informaram ter alinhamento político à direita, que demonstraram maior confiança no governo quando eram expostos ao pronunciamento otimista do prefeito. De forma similar, participantes alinhados à esquerda demonstraram maior confiança no governo quando o prefeito relatava medidas específicas sobre o enfrentamento da crise, enquanto a tendência junto aos participantes alinhados à direita foi de demonstrar maior confiança no governo quando as mensagens do prefeito eram mais genéricas. Mas, de fato, o que esses resultados nos revelam?

Os resultados sugerem que as percepções e avaliações do governo, em ambos os lados do espectro político, são construídas a partir de um pensamento ideológico, que considera o quão alinhado o discurso do líder está do discurso defendido pelos líderes que representam a orientação política dos participantes. Como no Brasil os líderes de direita – e particularmente o presidente Jair Bolsonaro – têm adotado uma abordagem mais otimista acerca da pandemia, participantes mais alinhados ideologicamente com a direita reagem melhor a mensagens otimistas do prefeito. Por outro lado, demonstram menor confiança no governo quando expostos a mensagens ideologicamente divergentes desse posicionamento, evitando dar crédito a um governo que apresenta abordagem alinhada com o “lado [político] oposto”. Igualmente, como mensagens pessimistas se aproximam do discurso mais à esquerda, os participantes de direita reportaram níveis mais reduzidos de confiança no governo municipal quando expostos a mensagens com tom mais pessimista, num claro movimento de distanciamento ideológico. Há, portanto, uma espécie de “antipatia política”, na qual ambas as partes têm sempre visões negativas do outro lado.

Não há novidade na direita criticar a esquerda, e vice-versa. Mas esses resultados demonstram que o nível de antipatia política está cada vez mais intenso. Essa crescente antipatia política parece ser uma consequência importante da forte polarização e divisão política e ideológica que o Brasil vive. A União transformou-se em um Estado de desunião e isso ameaça, cada vez mais, o bem-estar da nação. Os achados da nossa pesquisa parecem indicar que, em ambientes polarizados e fragmentados como o atual cenário político brasileiro, o sensemaking dos líderes políticos, que deveria ter um importante papel de dar sentido e norte aos cidadãos, parece estar reduzido à função de ativar as lentes ideológicas por meio das quais as pessoas interpretam a crise, reforçando ainda mais a divisão entre a população. O problema é que, conforme pesquisadores têm revelado, se esse contexto de polarização não for revertido, consequências imprevisíveis, e cada vez mais perigosas, poderão emergir. A violência entre grupos de manifestantes pró e contra o atual governo, como aconteceu recentemente em São Paulo e no Rio de Janeiro, é um bom exemplo dos impactos sociais dessa polarização.

E como resolver tal situação? Conforme apontado por outras pesquisas, é fundamental que haja cooperação e diálogo entre líderes de diferentes espectros ideológicos, de diferentes níveis de governo e dos três poderes, de forma a se buscar unidade, determinando uma frente única de ação. Em um momento em que se enfrenta uma crise de saúde que afeta a toda população, independentemente de orientação política, a busca de consenso que promova uma ação coletiva convergente é fundamental. Neste cenário, não deve haver disputa entre esquerda e direita, mas união frente à ameaça comum. Países onde essa união foi alcançada, como Portugal, Coreia do Sul e Alemanha apresentam uma eficácia muito maior no combate ao Coronavírus, em comparação com países onde a polarização ideológica está contaminando todo o debate público, como no Brasil e nos Estados Unidos.

 

Acesse a versão completa da pesquisa no link:

http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rap/article/view/81706

 

Este artigo expressa a opinião dos autores, não representando a opinião institucional da FGV.

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