Liderança em tempos de crise ou crise de Liderança?

Liderança em tempos de crise ou crise de Liderança?

REDAÇÃO

31 de março de 2020 | 10h49

Filipe Sobral, é professor da EBAPE-FGV.

Estamos vivendo a maior crise das nossas vidas, a maior do pós-segunda guerra mundial. A pandemia do COVID-19 veio para mudar o mundo e os seus efeitos irão se prolongar muito além do fim desta crise. No meio das incertezas e angústias que todos vivemos, a importância da liderança no enfrentamento desta pandemia é inquestionável. É nestes momentos de turbulência e incerteza que líderes emergem ou se consolidam enquanto outros caem em desgraça ou no esquecimento.

Neste contexto, a liderança, definida como a capacidade de mobilizar, guiar e influenciar pessoas em direção a um objetivo comum, assume assim um papel central na forma como a sociedade responde a esta crise. Não existe uma saída fácil para este problema. No entanto, os líderes precisam entender que a forma e conteúdo da comunicação com o público é tão importante como as decisões que tomam. Só dessa forma as pessoas irão confiar nas decisões tomadas e cooperar na sua implementação.

Mas quais os principais cuidados que os líderes devem ter para garantir o apoio e evitar o dissenso entre a população? Décadas de pesquisa e ensino sobre comunicação e liderança ajudam a responder a esta questão.

O primeiro é a consistência da mensagem. Sem consistência a mensagem perde credibilidade. Líderes devem pautar as suas intervenções com uma narrativa clara e serena sem discrepâncias de forma a evitar polêmicas e contradições futuras. Quando existe falta de consistência na comunicação das diferentes lideranças de um país (por exemplo, entre governo e autoridade de saúde ou entre os diferentes níveis federativos) cria-se uma confusão generalizada na população, o que intensifica divisões entre as pessoas, não se promovendo a unidade tão importante nestes momentos. Mais do que nunca, em ambientes de incerteza e turbulência como o que vivemos, os líderes devem basear sua comunicação em evidências científicas e fatos comprovados e evitar o uso político da situação.

Por outro lado, a tentativa de amenizar ou menorizar a situação tem um efeito igualmente negativo. Mesmo que o objetivo seja acalmar as pessoas e evitar que o pânico se instale, os efeitos desse tipo de comunicação são pouco eficazes e geram suspeita. As pessoas querem a verdade, por muito penosa que esta seja. A atitude paternalista de tentar proteger o público de notícias negativas que inevitavelmente virão à tona fará com que as pessoas se sintam traídas, reduzindo a confiança das pessoas nas políticas e ações governamentais. Vejamos o exemplo de Dr Fauci, diretor do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) nos EUA ao afirmar que são esperados 100 a 200 mil mortes nos EUA de coronavírus este ano. Apesar de chocante, esta informação é essencial para que as pessoas tenham consciência da gravidade da situação e cooperem com as medidas governamentais. Todos queremos ouvir notícias positivas, mas só confiaremos nelas se os líderes forem transparentes nas notícias negativas.

Se por um lado as pessoas querem consistência e abertura, por outro precisam de entender que os líderes têm a situação sob controle. A apresentação de medidas concretas e de uma visão de futuro para o pós-crise são essenciais para tranquilizar a população e mobilizar as pessoas na direção certa. As pessoas precisam que os líderes mostram compreensão da situação e que sejam capazes de projetar esperança de que juntos conseguiremos superar esta crise, mesmo reconhecendo que esta irá ter consequências dolorosas para todos. Um bom exemplo disso foi o discurso de Emmanuel Macron, presidente de França, ao afirmar que o mundo enfrenta uma crise sanitária sem precedentes e que precisa do sacrifício de todos para vencer este inimigo invisível, ao mesmo tempo que apresentou um pacote de 300 bilhões de euros de incentivos para pequenas e microempresas e anunciou a suspensão de pagamentos de contas de água, gás e aluguéis para que as pessoas não fiquem sem recursos.

Por último, é importante que as mensagens dos líderes consigam transmitir empatia com o sofrimento das pessoas. Só estabelecendo uma conexão emocional com o público, os líderes conseguirão inspirar as pessoas e promover o seu engajamento coletivo nas ações necessárias para combater a pandemia. Essa premissa é comprovada por diversas evidências ao sugerir que, em momentos de crise, a empatia é fundamental para mitigar o medo que as pessoas sentem e promover mudanças comportamentais. Não é à toa que Angela Merkl, ao se dirigir ao povo alemão começa o seu discurso se solidarizando com as pessoas, realçando que entende o seu sofrimento e a angústia que a pandemia e o isolamento social provocam. Só depois apresenta a sua visão sobre o problema e pede a colaboração dos seus constituintes para ajudar a implementar as medidas de contenção e mitigação do vírus.

Realmente, vivemos um período único nas nossas vidas e neste momento precisamos que os nossos líderes se assumam e mostram que estão à altura do desafio. Infelizmente, uma pesquisa recente mostra que o Brasil é um dos países em que as pessoas apresentam menor confiança de que o governo tomará as medidas necessárias para proteger a população contra o COVID-19, apenas à frente de Rússia e Venezuela . Esperemos que a pesquisa esteja errada e que essa falta de confiança seja apenas consequência de uma retórica pouco alinhada com as ações que estão sendo implementadas no terreno…

 

este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: