Juventude e violência

Juventude e violência

REDAÇÃO

27 Abril 2015 | 14h20

Tiago Corbisier Matheus, Psicólogo Social e professor do departamento de Gestão Pública da EAESP-FGV.

 

As investigações do processo Lava Jato nos jornais impressos e televisivos, que diária ou semanalmente trazem novas informações sobre o caso, mobilizam leitores e expectadores sobre corrupção, questão que nos acompanha há décadas e atinge diferentes hierarquias tanto no sistema público como na iniciativa privada.

Recentemente, o acidente de um avião alemão em solo francês mobilizou a imprensa internacional bem como a brasileira, que passaram a divulgar notícias diárias sobre os possíveis motivos do acidente, em meio à surpreendente hipótese de suicídio do copiloto, que teria levado à morte os demais 149 passageiros e equipe de bordo.

Nesse mesmo período também foi notícia da imprensa nacional a morte, por meio de arma de fogo, de cerca de quinze jovens pretos entre 14 e 29 anos (os números divulgados são incertos, mas, segundo moradores da região, ocorreram em diferentes dias do mês e vários deles morreram dias após terem sido baleados), residentes na região sul da cidade de São Paulo, entre M’Boi Mirim, Capão Redondo e Campo Limpo.

Entretanto, a morte destes jovens não teve o mesmo destaque que as notícias anteriores, não sendo sucedida por novas reportagens nas semanas seguintes. Não havia clareza sobre os motivos das ocorrências, como apontaram os noticiosos e pouco se soube acerca das investigações que teriam ou não sido realizadas para elucidação dos crimes e deliberação dos processos daí decorrentes.

Infelizmente, a morte de jovens na zona sul da capital paulista por motivos não esclarecidos não é um fenômeno novo. Há mais de duas décadas, os índices de homicídio entre população jovem residente nesta região tem elevado a média de mortes da capital, inquietando tanto o poder público, quanto a população local. Segundo dados divulgados pela Secretaria de Segurança do Estado e publicados pelo jornal O Estado de S. Paulo em 25 de Março de 2015, enquanto os bairros de Pinheiros e Jardim Paulista possuem índices de homicídios semelhantes aos países europeus (zero mortes no mês de Fevereiro de 2015), Capão Redondo e Jardim Ângela (localizado como DP Parque Santo Antônio) tiveram índices próximos a países em conflito armado: 9 mortes em apenas um mês, para uma população de aproximadamente 500 mil habitantes – segundo a ONU, Iraque e Afeganistão tiveram entre 8 e 9 mortes anuais para cada cem mil habitantes em 2012.

A discrição da imprensa com o problema da violência sofrida por parte da população jovem, residente em bairros menos assistidos pelo poder público, como é o caso da Zona Sul de São Paulo, não parece ser fruto, simplesmente, da indiferença da sociedade. Não é também, apenas, um problema de ineficiência do poder público, em função da inadequação da política de segurança praticada nos bairros menos assistidos da cidade e da dificuldade da polícia em exercer seu ofício de modo a respeitar, efetiva e regularmente, os direitos previstos a todo cidadão. A questão também não se restringe à disfunção do sistema de educação público disponível à população jovem, que, sobrecarregado na função de garantir a esta uma perspectiva de vida melhor que a experimentada pela população menos favorecida, encontraria dificuldade de dialogar com as aspirações juvenis e promover a construção de projetos de transformação da sociedade, a médio e longo prazo.

É um dilema que enfrentamos há décadas e que expõe nossa impotência e incapacidade de tomarmos medidas efetivas. São vários os fatores que contribuem para este trágico quadro que nos acompanha. Além das dificuldades enfrentadas em função do sistema de segurança e de educação, tantos outros serviços públicos, como saneamento básico, transporte, saúde, lazer e cultura contribuem para a precarização da vida na (dita) periferia e para o recrudescimento das perspectivas que a comunidade local é capaz de construir para seus novos membros, a despeito de sua realidade. A população jovem, por sua experimentação, trânsito e busca de espaço próprio no tecido social, está mais exposta às injunções de uma sociedade desigual e refratária, tornando-se mais vulnerável a seus focos de tensão e conflito.

Tereza Caldeira, em seu consagrado livro Cidade de Muros, mostra que em apoio à violência praticada contras jovens em bairros menos assistidos, há uma sociedade descrente das “instituições da ordem” (sistema policial, jurídico, criminal e penitenciário) e, em larga medida, anseia por medidas punitivas que se mostrem efetivas e logo se traduzem, direta ou indiretamente, em ações que rompem com o estado de legalidade que sustenta nosso projeto de democracia. Na ânsia de que “os culpados sejam punidos”, os crimes são então naturalizados (bandido é para sempre um bandido) e a juventude é mais uma vez associada à violência, mas agora não como vítima e sim como ré. Na premência de encontrar responsáveis pelas disjunções de nossa ordem social, a imagem do jovem preto, pobre e periférico (os três pes) serve à expiação do problema. Entre os cerca de quinze jovens mortos, como relatado acima, sete já haviam cumprido suas penas (como medidas socioeducativas), mas, ao que tudo indica, elas não foram efetivamente prescritas.