Jair respeita Bolsonaro

Jair respeita Bolsonaro

REDAÇÃO

24 de maio de 2019 | 17h28

José Antonio  Gomes de Pinho, Professor Titular Aposentado da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Pesquisador FGV-EAESP.

Valho-me de uma peça da obra do grande Luiz Gonzaga  (“Respeita Januário”, 1946) para inspirar o título deste artigo. Aqui, Jair representa o nome da casa, de como a família se refere a ele, enquanto Bolsonaro é o nome público, ou na linha de DaMatta, o nome da rua. O “respeita” quer dizer que o que é dito em casa tem que se curvar ao que é dito em público, ou seja, o que é dito na rua (em público) se impõe sobre o que é dito no âmbito da casa. Em outras palavras, o que é dito em público deve ter primazia, vir em primeiro lugar ao que é dito no espaço da casa. O que temos visto no Brasil, com o atual governo, é uma primazia da fala e do modo de agir familiar em relação à fala oficial, pública e ainda agravada por um emaranhado de vozes,  não só a voz do presidente, mas de seus três filhos e de um outro membro da “família” (seria um “irmão” mais velho), assentado em outras terras. Tem-se, então, muitas vozes, muitas falas, e ao mesmo tempo, emitindo posições “oficiais”. Muitos supostamente falando pelo público, quando a voz pública dever ficar a cargo de um só. Assim, a voz da família acaba assumindo posições oficiais quando estas deveriam ficar circunscritas ao mandatário unicamente.

Sociedades complexas, plurais e democráticas não se governam por “manu familiari”, formadas que são por instituições que abarcam funções bem definidas.  A posição oficial, a voz pública, deve vir do palácio e não da casa, da família. Um mandatário é eleito, é quem tem e deve portar a posição oficial, não a família. Não se elege uma família para governar.

Para entender essa questão, é conveniente recorrer ao filósofo inglês Thomas Hobbes que, no distante ano de 1640, afirmava “A língua do homem é como uma trombeta de guerra de sedição”. Em 1651 faz a distinção entre o espaço público e o privado da seguinte forma: quando o homem está pensando consigo próprio ou no ambiente familiar pode brincar. “Entretanto, num sermão, em público, diante de pessoas desconhecidas” (Idem), brincar com as palavras seria uma “loucura manifesta”, recomendando um senso de “prudência” Isto quer dizer, o que se fala no privado, no ambiente familiar, dificilmente se diz em público.

Assim, se a posição oficial compete ao mandatário, ao que recebeu o mandato, o que tem ocorrido é a emissão de posições supostamente oficiais por vários membros da família. E o fato não tem sido desautorizado pelo chefe da família, ao contrário, tem sido incentivado. Isto não quer dizer que as pessoas não possam emitir suas posições, o que evidentemente deve ocorrer, mas não pode haver confusão entre posições privadas e públicas, ou seja, o privado falando pelo público ainda mais quando se trata de questões que dizem respeito à Nação, o que parece comportar um outro tipo de patrimonialismo até então não experimentado.

Essa situação se agrava mais ainda em tempos de redes digitais onde as “noticias” e opiniões jorram aos borbotões e em velocidade estonteante. Com três ou quatro falando e emitindo cada um a sua opinião isso gera ruído e confusão. Voltando à Hobbes quando a conversa em privado transpassa para o público, esvai-se a prudência surgindo uma “loucura manifesta”. Na era das redes digitais “fala-se” para uma multidão de desconhecidos, é certo, mas os riscos são maiores quando alguns que falam são umbilicalmente ligados ao presidente e buscam colocar posições oficiais, falar pela presidência, abandonando qualquer senso de prudência e de conhecimento dos limites dos espaços público e privado. O presidente tem que perceber, separar o que é sua competência e assumir a responsabilidade do cargo que ocupa, e o que pensa sua prole.

Tem-se presenciado de forma frequente muito ruído de comunicação, não se sabendo no que acreditar, com posições conflitantes. Posições são assumidas em um determinado momento e pouco tempo depois são negadas, revistas, e isto se torna um moto contínuo. Os exemplos são inúmeros e já se tornaram costumeiros, mostrando que as repercussões negativas que tem sido geradas não foram absorvidas, compreendias pelo chefe da família. Ainda valendo-nos de Hobbes, quando o filósofo contratualista diz ser a língua uma trombeta de sedição, de guerra, de desordem, isso ganha outra dimensão no contexto das redes digitais onde a língua mostra-se muito ativa e imprudente. Assim, o que pertencer ao âmbito familiar neste deve ficar e não extravasar para o público. Para o bem da democracia, a prudência, a ocupação por cada um do espaço que lhe é devido é uma boa política. E esta tarefa, o exemplo, deve vir de cima, Jair e família devem respeitar Bolsonaro e este deve assumir as responsabilidades que o cargo impõe.

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