Jair Bolsonaro derrubará o Presidente

Jair Bolsonaro derrubará o Presidente

REDAÇÃO

18 de março de 2021 | 20h37

José Antonio G. de Pinho, Professor Titular Aposentado da Escola de Administração (UFBA) e Pesquisador (FGV-EAESP)

Com a prática reticente de acintosos atos antidemocráticos desde o início de seu mandato, vários pedidos de impeachment do Presidente Jair Bolsonaro foram encaminhados à Câmara Federal, mas não colocados em votação pelo seu Presidente, Rodrigo Maia. Com a pandemia do COVID 19, agora sofrendo um agudo agravamento, e com a posição negacionista do grupo Bolsonaro, surgem novas iniciativas de pedir o impeachment do Presidente, inclusive com uma ação de denúncia da Comissão Arns ao Conselho Internacional de Direitos Humanos da ONU.

De modo a se blindar, o Presidente tem lançado mão de uma série de estratégias políticas para evitar qualquer impeachment e, assim, viabilizar o seu sonho de concorrer e vencer a eleição de 22. Por um lado, tem espalhado militares por todos os ministérios possíveis, acreditando que as Armas lhe dão retaguarda para deter qualquer tentativa de impedimento, ação passível de dúvida, com certeza. Por outro lado, celebrou um acordo com o centrão de modo não só a impedir a apreciação de pedidos de impeachment, como assegurar os votos necessários no Plenário para manter-se no poder. Ainda, pode-se considerar outro caminho, no caso de um enfrentamento a partir de uma posição mais radical por parte do ex-capitão reformado, de quebra da ordem democrática. Neste caso, o Presidente deve considerar contar com as armas, cuja importação foi tratada com maior presteza do que a de vacinas, alimentando grupos milicianos.

Essa seria, ou é, a situação vista na perspectiva bolsonarista. Mas a terra (que não é plana) se move, como disse Galileu Galilei, frente à Inquisição, quase quatro séculos atrás. E assim, o quadro vai se modificando. Três movimentos principais podem ser elencados nesse processo. O primeiro se constitui na união entre governadores para se postarem frente à posição negacionista e à sabotagem por parte do governo federal na questão sanitária através de um pacote variado de atos contrários ao controle da doença no uso das máscaras, na indicação de remédios preventivos não autorizados por autoridades médicas, a negação das vacinas. Enquanto pôde o Presidente confrontou os governadores, o que se mostra difícil agora. O segundo movimento refere-se à entrada em cena de Lula, colocando-se como candidato em 22, o que faz tremer as hostes bolsonaristas, tendo no tabuleiro político um candidato que pode lhe confrontar decisivamente. E por fim, a demissão do Ministro da Saúde General Pazuello, consumada pelo elevado desgaste com a falta de respostas e de responsabilidade à altura da crise existente, e sua substituição pelo médico Marcelo Queiroga No entanto, aplicada a hierarquia militar que caracteriza a Presidência, ao que tudo indica, o quarto ministro da saúde deverá seguir as ordens emanadas pelo Presidente. Algumas mudanças podem ser implementadas, mas nada que confronte frontalmente as ordens do chefe, que são bem conhecidas.

Dois outros movimentos complementares, mas decisivos, podem ser adicionados. Um primeiro é desdobramento desta recente nomeação. A escolha do Presidente preteriu pretensões do centrão. Como ocupante da Câmara Federal durante 27 anos, Jair Bolsonaro deveria ter aprendido que com esse grupo não se brinca. Contratos devem ser cumpridos. O Presidente preferiu uma solução “caseirinha” vinda dos filhos, que parecem ser o RH do Planalto, contratando e descontratando. Aliás, o centrão acusou o golpe e não ficou calado, mandou aviso para o Palácio, mostrando que sua tolerância pode ser mínima. Se lhe faltar o centrão, o rei ficará nu, pois tem a chave da urna de votação na mão. Pedidos de impeachment poderão progredir celeremente, ainda mais percebendo que o navio está naufragando.

Outro movimento, também dos últimos dias, vem da manutenção dos dados do COAF referente a movimentações “estranhas” por parte do filho 01, decisão do STJ. Se até então tudo parecia abafado, garantido, as brasas foram sopradas e daí pode surgir um incêndio de proporções dantescas, que não ficará confinado às supostas rachadinhas ou à lucrativa loja de chocolate, mas se irradiará em direção ao chefe da família.

A viabilização de um processo de impeachment passa, no entanto, pela necessidade de algumas condições. Antes, vamos nos deter, nas poucas cartas que Bolsonaro ainda tem na mão. A pandemia e seu agravamento dificultam bastante os movimentos nas ruas e a mobilização digital tem seus limites óbvios, o que beneficia o Presidente. A isso se soma certa inércia da sociedade civil. Por outro lado, a situação caótica da Saúde com o tratamento de escárnio da questão pelo Presidente da República começa a minar o apoio que este ainda desfrutava em parte da população, atestado pela recente divulgação da pesquisa Datafolha (17/03/21), revelando um aumento substancial da rejeição ao Presidente na condução da trágica crise do COVID 19 (44% reprovam o Presidente enquanto 30% aprovam), ou seja, começa a se romper o apoio de que até então desfrutava. E isto deve ser apenas o começo.

Para finalizar, o quadro mostra-se tétrico para o País, na questão da pandemia, da economia, do desemprego, da crise social. Defendemos nesse mesmo espaço, no artigo Homo caos, que o Presidente se alimenta do caos que produz. Agora, no entanto, essa tragédia anunciada, com número de mortes chegando a 300 mil pessoas, a tergiversação no enfrentamento da pandemia, a procrastinação da compra de vacinas, estão cobrando a fatura. Com o sistema de saúde (público e privado) atingindo seu esgotamento, o que inclui os quadros clínicos, o Presidente não tem mais onde se esconder.  Os elementos postos acima somados a um negacionismo inaceitável, seus delírios e paranoia fazem com que ele próprio esgarce o seu tecido social e político de apoio. A situação ficará insustentável caso não haja uma mudança radical de rumo, hipótese de difícil conjectura, pois atentaria contra toda a biografia de Bolsonaro.

Assim, defendemos que Jair Bolsonaro derrubará o Presidente. Ele se mostra o ator político mais capaz de realizar seu impeachment. Bolsonaro não reúne condições de liderança e de estadista para enfrentar uma situação dessas proporções. Isso não se trata de qualquer previsão ou vaticínio, mas olhando o seu currículo de mais de trinta anos de militar, Deputado Federal e Presidente.

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