Isolamento Social e Óbitos por Covid-19: Lições dos Países Nórdicos.

Isolamento Social e Óbitos por Covid-19: Lições dos Países Nórdicos.

REDAÇÃO

12 de abril de 2020 | 16h02

Eduardo B. Andrade, professor da FGV EBAPE

Há pelo menos três parâmetros básicos que determinam o nível de contágio de um agente infeccioso: (a) o tempo médio de sobrevivência do vírus no corpo, (b) a sua capacidade de migrar de um hospedeiro para o outro e (c) o comportamento do sujeito infectado. Os dois primeiros parâmetros dependem do vírus. Já o terceiro, depende de nós. Daí a importância do isolamento e o distanciamento social.

Teoricamente, basta que as pessoas não circulem e não interajam umas com as outras para que a propagação do vírus despenque. Mas praticar o isolamento social não é apenas difícil. É contrário à natureza humana. Sem falar no fato de que muitos desconfiam da sua eficácia. Será que o isolamento social faz mesmo diferença? A China mostrou que sim. As quedas recentes nas progressões das taxas de óbitos na Itália e na Espanha também. A ciência converge, mas os dados e argumentos ainda parecem pouco palpáveis e convincentes.

Algo inusitado, no entanto, tem chamado a atenção. Contrariando a tendência global de isolamento social, a Suécia decidiu adotar uma abordagem distinta. As ações de confinamento (“lockdown”) não foram implementadas como na maioria dos países europeus. A política Sueca tem sido, desde o início do surto, de distanciamento social responsável. Com isso, creches e escolas primárias ainda funcionam bem como os serviços de mesa em restaurante. Locais de trabalho permanecem abertos, embora o home office seja encorajado. Até mesmo as aglomerações são permitidas, desde que não ultrapassem 50 pessoas. Já os vizinhos Noruega e Dinamarca seguiram a direção oposta. Foram extremamente cautelosos, até mais do que a média da Europa. A Dinamarca iniciou um “lockdown” nacional no dia 11 de março, três dias antes da Covid-19 produzir a primeira vítima fatal no país. A Noruega o fez no dia seguinte, justamente quando a primeira morte em território nacional foi anunciada. Ambos foram ampliando o rigor do isolamento com o passar do tempo.

A drástica diferença de abordagem entre países com características tão similares é uma boa oportunidade para quem busca avaliar a eficácia das políticas de isolamento social. Noruega, Dinamarca e Suécia não se assemelham somente no clima, na cultura, nas condições socioeconômicas e na cor dos olhos. Os três países vivenciaram a primeira morte por Covid-19 no mesmo período (entre 11 e 14 de março). O que ocorreu em cada país nas semanas seguintes, entretanto, variou significativamente.

 

 

 

É possível que outros fatores expliquem, ao menos em parte, por que a progressão de mortes na Suécia tem sido tão superior às da Dinamarca e Noruega. É possível também que a tendência na Suécia reverta bruscamente com o aumento da imunidade da população, e que os óbitos continuem a crescer na Dinamarca e Noruega. Só o tempo e as pesquisa nos darão os detalhes. Mas com o que temos e sabemos hoje, é razoável afirmar que as diferenças de políticas de isolamento social tenham contribuído para o aparente sucesso de uns e fracasso do outro.

Com o novo coronavírus monitorado e sob relativo controle, a Noruega anunciou a reabertura gradual das escolas a partir de 20 de abril e do comércio e serviços na semana seguinte. Hora de reativar a economia. O precoce e rígido isolamento social não foi um custo, foi um investimento que valeu a pena. A mesma tendência é vista na Dinamarca. Nas próximas semanas, o confinamento será gradualmente relaxado. Já na Suécia, o mal-estar é enorme. Em uma carta aberta redigida no fim de março, mais de 2.300 cientistas suecos demandaram leis de isolamento social mais severas no combate à pandemia. Enquanto os vizinhos começam a afrouxar o “lockdown”, a pressão é para que o governo Sueco faça o inverso.

Ainda temos muito a aprender, mas o que a experiência desses países sugere é que um isolamento social severo não é nem ineficaz nem incompatível com a retomada da economia. Muito pelo contrário. Faça cedo um relativamente rigoroso isolamento social, implemente testes em massa, disponibilize equipamentos de proteção individual e reforce o sistema de saúde, e a atividade econômica poderá ser mais rapidamente retomada. Faça tudo isso pela metade, seja por falta de recursos, informação ou força política, e a região poderá sofrer de dois males: uma economia combalida que se arrastará por meses a fio e um número de mortes que continuará a crescer exponencialmente.

Adotar um isolamento social tardio e brando é como dar ao paciente um medicamento com dosagem o suficiente para causar efeitos colaterais sérios, mas incapaz de livrá-lo da doença que o acomete.

 

Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV

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