Isolamento social: de nós ou dos demais?

Isolamento social: de nós ou dos demais?

REDAÇÃO

24 de agosto de 2020 | 12h55

Nathalia Bruni, é aluna do 7.º semestre do curso de Administração Pública da FGV EAESP

 

Se uma sociedade pode ser considerada sinônimo de agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua, a pandemia instaurada e decorrente do novo Coronavírus trouxe o seu antônimo ao analisarmos o conceito de isolamento social na medida em que este último se destaca como um estado no qual uma pessoa vive isolada e é separada de um contexto do qual estava originalmente habituada.

Ademais, enquanto o isolamento social trouxe consigo a diminuição no número de pessoas atingidas pela Covid-19, este também trouxe a necessidade de ressignificação de tudo aquilo que fazíamos, fazemos e pretendemos fazer de modo a nos colocar em uma posição um tanto quanto passiva em um contexto no qual antes o “sermos ativos” aparentava ser o mantra da vez.

Colocados em um dilema entre a estagnação e a projeção de dias melhores, não é à toa que milhares de pessoas se encontram neste paradoxo que é viver enclausurado – quando possível dado que não é uma realidade homogênea, e ainda assim, ter a expectativa de que tudo passará e de que dias melhores ainda estão por vir. Para tal, valeria adentrarmos em questões íntimas e em conformidade com as projeções discorridas pelo filósofo contemporâneo Mario Sergio Cortella, adepto do otimismo crítico, uma vez em que este levanta que momentos como estes, de isolamento social, são momentos propícios para adentrarmos em nós mesmos e refletirmos sobre dilemas éticos dos quais são inerentes e nos instigam a compreender sobre o que nos levou a estar neste limbo atual definido, ao meu ver, como uma não adaptação deste eu isolado: de nós mesmos e dos demais.

Em paralelo, quiçá bastasse nos aprofundarmos em alegorias como o Mito da Caverna que, apesar de escrita nos primórdios de nossa sociedade pelo filósofo grego Platão, talvez nunca tenha sido tão válida para o presente. Isto porque, se narrada como um cenário no qual pessoas acorrentadas são forçadas a olhar somente para a parede do fundo de uma caverna sem poder ver uns aos outros ou a si próprios, bastaria nos enxergarmos neste contexto dentro de nossas próprias casas com o intuito de nos auto despertar. Mesmo porque, transpondo o contexto desenvolvido por Platão, para a nossa realidade, seria como redesenharmos um mundo que determinado por um modelo viver, agora, tenta nos mostrar novos conceitos e modelos de nos relacionar como seres sociais.

E se fosse para, hoje, definirmos um aprendizado tirado pelo fenômeno do “isolamento social”, em vigor há mais de cinco meses no Brasil, talvez isto viria acompanhado de um melhor conhecimento sobre nossos próprios atos com o intuito de deixarmos de lado o egocentrismo tão latente em nossos cotidianos. Mesmo porque, se a pandemia trouxe consigo paradoxos, não poderia ficar de fora a oposição entre seus dois pólos: a solidariedade e o egoísmo. Assim, valeria a moralidade trazida pelo altruísmo na medida em que este último retoma não só o conceito de sociedade, nos colocando como agentes responsáveis de nossas ações, mas também o conceito de agentes responsáveis pela construção do próprio ecossistema – representado por um modelo, do que é de fato (com bem-estar) viver.

Ou talvez bastaria continuarmos a nos inspirar em antigos poetas ao buscarmos o conforto em hinos como “Pro Dia Nascer Feliz” – conhecido por muitos como hino da redemocratização, no qual Cazuza e Frejat já previam em que estamos por um triz, para o dia nascer feliz e o mundo inteiro acordar. Mesmo porque, pareceria insustentável acreditarmos que é possível vivermos isolados: de nós mesmos e dos demais. E o intuito desta reflexão é nos instigar à arte do ressignificar, adentrar pois só assim de fato, talvez encontrássemos o caminho para o mundo inteiro acordar.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: