Inovação nas políticas públicas: o desafio de construir capacidades inovadoras

Inovação nas políticas públicas: o desafio de construir capacidades inovadoras

REDAÇÃO

18 de junho de 2019 | 09h22

Pedro Cavalcante , Doutor em Ciência Política e Coordenador de Governança e Capacidades Estatais do Ipea.

É cada vez mais consensual que a inovação vem se tornando o “Novo Normal” na administração pública, ou seja, em contexto de constantes mudanças e crescentes demandas por melhores serviços, transparência e accountability, a inovação dá sinais claros de fazer parte das diretrizes estratégicas dos governos no Brasil. Contudo, transformar o discurso e as intenções em prática rotineira é o grande desafio.

Para tanto, um pré-requisito para o incessante fomento à cultura e construção de capacidade inovadora nos servidores e organizações públicas é o de superar o mito da ideia. Sem dúvida, a etapa de criatividade de equipes e/ou líderes é fundamental em processos de mudanças, no entanto, não é suficiente para produzir uma inovação que efetivamente gere mais e melhores entregas à sociedade. Compreender como avançamos na implementação de iniciativas inovadoras para além da fase de ideação é o foco da publicação recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea, Inovação e Políticas Públicas: superando o mito da ideia (http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=34783&Itemid=444), em parceria com pesquisadores e empreendedores governamentais . A partir de uma diversidade de casos de sucesso, em distintas áreas de ação estatal e esferas de governo, a publicação traz insights importantes para entendermos sobre os fatores cruciais ao desenvolvimento de capacidades e de disseminação de boas práticas na administração pública brasileira.

Então, o que aprendemos sobre essas experiências que transformaram ideias promissoras em inovações de verdade? Primeiro, elas não surgem de uma ideia preestabelecida, mas sim de processos e momentos de construção coletiva, tanto do mapeamento dos problemas quanto das soluções a serem implementadas. Além disso, a heterogeneidade dos casos é a regra, e não a exceção, o que reforça a visão de que empreender no governo não significa seguir guias, manuais ou receitas, uma vez que as especificidades do setor, as estruturas existentes, os atores envolvidos, os aspectos conjunturais, entre outros fatores, precisam ser sempre considerados em processos de mudança.

Na implementação, observa-se ainda predominância da prática de cocriação e coprodução na aplicação de métodos e abordagens em diferentes etapas dos projetos. O constante aprendizado, seja individual, organizacional ou interorganizacional, também é uma dimensão valorizada. Chama atenção que o exercício do aprender é identificado tanto como objetivo a ser alcançado pela iniciativa quanto como um dos fatores que levaram a experiência a ser bem-sucedida.

Um outro componente desse processo envolve a experimentação. Nada está pronto e acabado, pois tanto o entendimento de desafios e problemas quanto das ideias e soluções para enfrentá-los em projetos de mudanças organizacionais precisam ser testados e validados para efetivamente gerarem os efeitos positivos desejados. Ademais, a preocupação com a agilidade no desenvolvimento das inovações vem sendo crescentemente incorporada na gestão pública, por meio dos chamados métodos ágeis e suas adaptações. O foco em ‘micro-entregas’ tende a gerar mais apoio e engajamento de atores envolvidos, legitimidade perante à liderança e, consequentemente, melhores condições para continuar e difundir as práticas.

A superação da visão de linearidade dos processos de construção de inovações nas políticas públicas também é um insight recorrente nos casos de sucesso. Em outras palavras, normalmente, eles não seguem supostas sequências lineares, tais como identificar o problema, ideação, teste e implantar a solução. Ao contrário, essas etapas vão e voltam num processo de combinação de aprendizagem, tentativa e erro e mudanças de rumos, em contexto de complexidade, dinamismo e incertezas, típicos da vida real da administração pública. Por fim, destaca-se o papel que os servidores públicos desempenham na implementação das inovações. Normalmente, eles são os principais responsáveis e protagonistas, na medida em que atuam desde o início como idealizadores, formadores e coordenadores dos processos de co-criação e, assim, propiciam a continuidade e perenidade, fundamentais em projetos de médio e longo prazo, comuns da inovação.

Em suma, se a inovação é, de fato, um imperativo na gestão pública, é essencial avançarmos na compreensão de como ela se efetiva em um país repleto de dilemas, barreiras e demandas por melhores práticas e serviços. É importante também reconhecermos que a inovação se trata de um processo gradual, complexo e multicausal, no qual suor e esforço são tão ou até mais importantes que a genialidade. Nesse contexto, a aplicação deliberada de abordagens e métodos colaborativos, tais como design thinking, métodos agéis, prototipagem, gamificação, laboratórios ou a mistura entre eles, vem se mostrando um caminho mais rápido e eficaz na construção da cultura e da capacidade inovadora nas políticas públicas.

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