Incentivos, vacinas e o laboratório da pandemia

Incentivos, vacinas e o laboratório da pandemia

REDAÇÃO

17 de janeiro de 2022 | 09h56

Edward Lúcio Vieira Borba, Mestre em Governança e Desenvolvimento (Enap)

Gustavo de Queiroz Chaves, Mestre em Engenharia (COPPE) e cursa Especialização em Ciência de Dados para Avaliação de Pol. Públicas (Enap)

Marcus Vinicius de Azevedo Braga, Doutor em Políticas Públicas (PPED/IE/UFRJ), realiza atualmente estágio pós doutoral na saúde coletiva (IESC/UFRJ)

O tom folclórico de reportagens, divulgadas em 12 de janeiro de 2022, sobre o aumento geométrico da taxa de vacinação na cidade de Quebec, no Canadá, por conta da exigência de passaporte vacinal para a aquisição de álcool e maconha, remete-nos imediatamente a um conjunto de matérias datadas de maio de 2021, que tratavam de incentivos estadunidenses para a vacinação. Nos Estados Unidos, foram vistos incentivos oferecidos por empresas e governos locais, como cerveja com desconto, donuts grátis, ingressos para o futebol, flores, sorteios de automóveis e dinheiro, e …cigarros de maconha – todos voltados para ampliar a adesão dos cidadãos à política pública de vacinação.

Com a devida ressalva que nesses lugares o consumo dessa substância para fins recreativos é legal, a peculiaridade de um agrado na mão e uma vacina no braço trouxe destaque na imprensa a essas situações, pelo seu caráter inusitado e pelos limites possíveis no intento de se incentivar a vacinação, deixando oculta, entre piadas e espantos, a discussão mais profunda e que será debatida aqui nessas linhas. Quais as melhores maneiras de se incentivar as pessoas a adotarem um comportamento que trará benefícios coletivos? Ora, não é só dar dinheiro? Existem questões teóricas envolvidas nisso.

Nesse período, além da badalada estratégia da Cannabis, se viu de tudo por parte dos governos pelo mundo: drones vigilantes, detenção pela polícia, cobrança de impostos, aplicação de multa, exposição pública, demissão, isso pela linha mais diretiva e legalista, de hard control. Mas, pode-se citar também medidas mais afinadas com um soft control, algumas já citadas, como sorteios, depoimentos de personalidades, recompensas financeiras ou não, ampla publicidade e até atribuir nota maior na escola. Um verdadeiro laboratório de experiências para esse tema.

Tema esse de uma área de estudo que precede algumas décadas a crise sanitária da Covid-19, denominada de economia comportamental, e que ganhou destaque, entre outros pontos, ao trazer evidências e questionar a fragilidade da premissa quase hegemônica na economia de que as pessoas decidem e agem dentro de uma visão racional baseada em custos e benefícios estimados.

Não por acaso, mas pela grande revolução que esses estudos provocaram nos modelos propostos em Economia, com efeitos transbordados também para outras áreas, rendeu pela primeira vez em 2002 a concessão de um prêmio Nobel na área de Economia para um não economista – o psicólogo Daniel Kahneman. Destacam-se nessa discussão as obras seminais do mesmo Daniel Kahneman : Rápido e devagar-Duas formas de pensar; e de Richard Thaler e Cass Sunstein: Nudge- como tomar melhores decisões sobre saúde, dinheiro e felicidade. Ambas, no Brasil, editadas pela Objetiva.

Aí, para entender o uso desses incentivos pró vacina para além de um cálculo de custo benefício nas mentes dos cidadãos, é preciso resgatar essa palavrinha, o “nudge”, numa tradução livre, o empurrãozinho, preconizado na ciência comportamental para sutilmente influenciar as escolhas das opções pela sociedade, na ideia da chamada arquitetura de escolhas, a forma de influenciar as decisões, alterando a maneira pela qual as opções são apresentadas.

Nudge, definido pelos autores na obra já citada como um aspecto no processo de escolha que altere o comportamento das pessoas de uma maneira previsível, sem proibir nenhuma opção ou alterar significativamente seus incentivos econômicos, vem sendo bem pesquisado e estudado em diversos países ao longos das últimas décadas. Um aprimoramento das discussões de economia comportamental e que se aplicam as políticas públicas, tendo grande destaque no período do governo Obama, nos EUA, bem como na Inglaterra,  com David Cameron, em 2010, com a criação do BIT (Behavioural Insights Team).

Trata-se de uma intervenção sutil. Os nudges não são ordens explícitas ou meramente uma remuneração por uma decisão, a título de incentivo. Atuam no subjetivo do processo de escolha, e  adotam estratégias simples,  pautadas em uma lógica particular de paternalismo libertário, dos governos propiciarem desenhos que incentivem decisões benéficas à coletividade, como no exemplo clássico, colocar na gôndola do mercado as frutas, mais saudáveis, ao nível dos olhos, como um incentivo para uma alimentação saudável, escondendo a chamada junk food das prateleiras, reduzindo as alternativas aos amantes de um calórico X-Tudo, que a longo prazo impacta todo o sistema de saúde.

No caso da utilização da maconha para incentivar a vacinação, contrasta, e esse é o ponto que chama a atenção e merece maior destaque dentro da temática, o fato dos canadenses adotarem um incentivo que foi negativo, de caráter repressivo, pois suspende o direito de compra de algo desejável sem a apresentação do passaporte de vacinação, enquanto os EUA usam um apelo positivo, ao oferecer uma recompensa pelos que optarem pela vacinação. Uma mão limita, a outra oferece.

O laboratório para estudo da economia comportamental propiciado pela Covid-19, remetendo ao título desse artigo, ao trazer esses dois modelos de incentivos, um do tipo pedágio (Canadá), o outro do tipo cenoura (EUA), nos permite discutir a aspectos desses a luz da ideia de nudges. Embora, possam a um olhar menos atento sobre a forma de implementar uma política pública, parecerem menos relevantes, os nudges  têm o potencial de influenciar a decisão dos seres humanos, pelas suas características específicas no mundo real, para além do simples incentivo econômico do bônus ou da multa, mais próximos de uma visão de homo economicus.

Sobre o incentivo pedágio (Canadá), seu fator de força passa pela chamada disponibilidade, no qual um risco familiar é percebido como mais grave do que um risco que desconhecemos, e a possibilidade de ser proibido de utilizar algo prazeroso vai trazer uma dor conhecida e que tem mais peso no processo de decisão do que tomar uma vacina, que alguns dizem para não tomar, mas que o indivíduo não tem vivência dos seus efeitos negativos. Ponto para o Canadá!

Já pelo conceito de priming na teoria nudge, ao oferecer a possibilidade de receber algo desejável, chama-se a atenção do candidato a vacina e se trilha um caminho mais fácil para ele adotar esse comportamento, com um benefício ao final. Tem-se meio caminho para avançar até o “sim”, como fazem as pessoas que vendem assinaturas em rodoviárias e oferecem prêmios, perguntando se os transeuntes querem conhecer uma oportunidade. Ponto estadunidense!

Outro aspecto é que pela teoria, se o benefício for na hora e o custo ficar para depois, por exemplo, como quando comemos um doce, a chance dessa escolha é mais provável porque temos um benefício presente – saciar o desejo de comê-lo – se comparado a um custo futuro de ter aumentado o ponteiro da balança! O incentivo pedágio lhe impõe um custo, a vacina, para poder comprar algo lá na frente que você não saberá quando se dá, e só se lembra quando vai ao local de compras e é impedido. O incentivo cenoura estadunidense concentra o custo e o benefício no mesmo instante. Go Yankees!

Por fim, mais um ponto para os EUA, pois as discussões de nudge indicam que quando se tem dificuldade de traduzir aquela decisão diretamente nas consequências que ela trará, ela é mais custosa. O incentivo cenoura sai na frente, pois a decisão e a recompensa são de “bate pronto” e o incentivo pedágio depende de uma memória sensorial daquilo que se quer e será privado, o que explica neste o uso de álcool e maconha.

Por conta do pragmatismo econômico e da longa experiência da psicologia aplicada ao marketing nos EUA, não foi espantoso a adoção dessa solução na linha cenoura por lá, com elementos que dialogam mais com as ideias de Nudge. Certamente, desse laboratório que se possibilitou com a trágica crise da Covid-19, além das inovações tecnológicas, muitas análises relacionadas ao uso da economia comportamental nas políticas públicas emergirão, não só pela questão da vacina, mas também de outras iniciativas, como a testagem e a restrição de circulação.

No senso comum, para além da pilhéria do uso de maconha como incentivo, a discussão vai orbitar em questões de que para alguns o método do pedágio possa ser mais agressivo e o da cenoura mais leve, e de que o segundo terá mais sucesso pois o homem busca o melhor pelo diálogo, ou coisas similares. O objetivo desse texto é mostrar que a escolha da forma de melhor implementar uma política pública, neste caso de vacinação de prevenção da Covid-19, o desenho e a implementação podem ser feitos de diversas formas, sendo os insights trazidos pela economia comportamental, em especial a utilização de nudge, potenciais aliados para ajudar nas valorações de incentivos de adesão do público-alvo.

Entretanto, para saciar a curiosidade dos leitores de qual alternativa se mostrou mais eficaz para o atingimento dos objetivos da política pública, seria necessário acompanhar eventuais avaliações de impacto que sejam realizadas por esses países num futuro próximo, pois a boa ciência em assuntos complexos se faz não por opiniões apenas,  mas com o lastro em evidências e processos robustos de análises do fenômeno. Mas, aí, é outro artigo.

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