Implicações para a política brasileira de uma eventual vitória de Biden.

Implicações para a política brasileira de uma eventual vitória de Biden.

REDAÇÃO

30 de outubro de 2020 | 14h00

Antonio Gelis Filho, é professor do Departamento de Gestão Pública da FGV-EAESP.

Mateus Getlinger Santomauro, é aluno do 6o semestre do curso de Administração Pública da FGV-EAESP)

 

A perspectiva de vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais dos EUA, que ocorrerão na próxima terça (03), tem provocado especulações sobre sua repercussão na política brasileira. Um cenário aventado com frequência gira em torno da ideia de que Jair Bolsonaro sairia enfraquecido pela derrota de Donald Trump.

As razões para tal enfraquecimento estariam relacionadas à preocupação de Biden com a preservação da Amazônia, ponto importante da campanha do candidato, mencionado nos  debates entre os candidatos à presidência; à atenção devotada por Biden à América Latina durante seu período como Vice-Presidente de Barack Obama; à admiração pessoal e à identificação pessoal de Bolsonaro por e com Trump; e à sinalização de uma suposta reversão da onda “populista” global que teria início com a vitória de Biden. Alguns intérpretes chegam a enxergar um enfraquecimento da candidatura Bolsonaro à reeleição em 2022.

A despeito da grande margem apontada pelas pesquisas, a surpresa das últimas eleições na derrota de Hillary Clinton para Trump em 2016 nos coloca numa posição de incerteza frente ao resultado eleitoral. E ainda que a vitória de Biden se confirme, é preciso cautela nessa vinculação direta entre o resultado das eleições norte-americanas e a posição de Bolsonaro. São várias as razões:

 

  1. Pesquisas lançadas recentemente, como a da University of Southern California – Dornsife, indicam que essa margem entre os candidatos pode não ser tão grande assim. Portanto, caso Biden não vença seu oponente por uma diferença considerável, Trump ameaça concretizar sua narrativa de fraude eleitoral que tem sido construída ao longo dos últimos meses, mesmo sem base factual para apoiá-la. Diversos membros do Partido Republicano já tem movimentado ações em cortes e órgãos legislativos estaduais. Biden poderá enfrentar uma contestação eleitoral logo no início de seu mandato que poderá provar ser um imbróglio jurídico que irá minar sua administração.

 

  1. Biden foi e é muito criticado pela ala mais progressista de membros e eleitores do Partido Democrata. Apenas sua condição de candidato “anti-Trump” tem abafado as profundas criticas a ele dirigidas por tal grupo. Aliás, não há uma ala “Bidenista”, propriamente dita, na política norte-americana, ou seja, ninguém sairá às ruas apenas por Biden. Desnecessário dizer que os Trumpistas — esses sim um grupo articulado — farão oposição ruidosa a um eventual presidente democrata, não se afastando a possibilidade de intensificação de conflitos e violência nas ruas. Junte-se a isso as enormes expectativas de reforma profunda no país, pouco factíveis politicamente, e o cenário para um mandato internamente tumultuado estará montado. A atenção de Biden para a política externa, portanto, será dividida com uma esfera interna que muito dele demandará. Isso sem se levar em consideração a real possibilidade de que os republicanos, ainda que derrotados na eleição presidencial, mantenham o controle do senado, que também está sujeito ao processo eleitoral de 2020, algo que tornaria a vida política de Biden muito mais difícil.

 

  1. Além da questão doméstica, Biden terá outras prioridades para a política externa como presidente, algo que pode reduzir a força do vetor diplomático que apontou em direção à América Latina durante seu mandato como Vice-Presidente. Negociações com China, envolvendo a “guerra comercial”, a situação de Taiwan, do Mar do Sul da China, e das Ilhas Senkaku; a tensão geopolítica com a Rússia, envolvendo Ucrânia, Belarus, conflito em Nagorno-Karabakh, Síria e acusações de espionagem; relação dos EUA com o Reino Unido e com a Europa pós-Brexit; recrudescimento de tensões com o mundo muçulmano, aí incluída a Turquia; tensões com Venezuela e Cuba, e outros focos de preocupação geopolítica, como a pandemia, tudo isso promete limitar a atenção que Biden poderá devotar ao Brasil.

 

  1. Bolsonaro é o presidente brasileiro mais abertamente pró-americano em muito tempo, e talvez em todos os tempos. Estaria Biden realmente interessado em antagonizar tal político, e correr o risco de abrir caminho para um novo presidente em 2022, alguém provavelmente menos inclinado a aliar o país tão incondicionalmente à agenda geopolítica norte-americana?

 

  1. É pouco provável que Trump deixe a política. Bolsonaro poderia aí perceber a possibilidade de abrir palanque a um Trump com muito menos opções políticas internacionais, algo que agradaria a seu “núcleo duro” de eleitores, em geral simpatizantes do atual presidente norte-americano.

 

  1. A campanha para as eleições presidenciais de 2022 no Brasil coincidirá com a campanha para a renovação completa da House of Representatives, a câmara baixa do Congresso norte-americano, que se renova a cada dois anos. É comum que o presidente recém-eleito sofra reveses nessa primeira eleição por não entregar os resultados prometidos em campanha. Isso ocorreu mesmo com Barack Obama, um presidente muito popular. Com um mínimo de percepção estratégica, Bolsonaro entenderá que se manter vinculado ao Trumpismo poderá render benefícios eleitorais em 2022, a despeito de uma eventual vitória de Biden agora, especialmente se este estiver encontrando dificuldades em manter sua popularidade. Possível mobilização pública dos setores progressistas norte-americanos contra Biden — algo bastante possível — poderia até mesmo servir para renovar o discurso da “ameaça esquerdista” que Bolsonaro emprega com tanta desenvoltura.

 

O destino político de Bolsonaro e do Brasil certamente será influenciado pelo resultado das eleições norte-americanas. Mas a influência de tal resultado, provavelmente, será menor do que se espera hoje. E o Trumpismo, que talvez seja a mais clara base ideológica da política externa de Bolsonaro, dificilmente morrerá com uma eventual derrota de seu criador na próxima terça-feira. Os desenvolvimentos internos, econômicos e sociais, prometem ser muito mais relevantes. Como sempre.

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