Homo caos

Homo caos

REDAÇÃO

08 de março de 2021 | 15h21

José Antonio G. de Pinho, Professor Titular Aposentado – Escola de Administração da UFBA. Pesquisador da FGV-EAESP.

Quando Jair Bolsonaro se lançou candidato à Presidência ao início de 2018 ficou claro que estávamos frente a um animal diferente da fauna política que postulava o cargo mais alto da estrutura de poder no Brasil. Vinha de uma longa passagem obscura na Câmara Federal frequentando o chamado baixo clero, direcionando seus projetos apenas para demandas corporativas das áreas militares e policiais. Em uma espécie de sabatina com jornalistas de uma emissora de TV (GloboNews) em 03/08/2018, o então candidato Bolsonaro inquirido sobre decisões que teria que tomar como presidente, respondeu candidamente que era apenas um capitão do Exército. Os entrevistadores reagiram prontamente afirmando que ele era candidato ao cargo. O que se nota nesse episódio é uma demonstração de alguém que não se encontrava preparado para o cargo e já antevia fugir das responsabilidades.

Depois disso seguiu-se a facada e o candidato não participou de nenhum debate com os demais, escudado no fato que se recuperava do atentado sofrido, uma posição surpreendente para quem sempre exalou tanta convicção em suas ideias e bravura. Assim, escapou de apresentar e debater suas credenciais como candidato.  Com aquela tempestade perfeita, se elege Presidente. No primeiro ano do mandato fez de tudo para ameaçar e minar as instituições democráticas, dando shows com voos rasantes em Brasília, montando cavalo em posição acintosa contra o Judiciário, em manifestações contra a democracia. Aliás, um dos filhos já havia dito que seria tremendamente fácil derrubar o STF, bastando um cabo e um soldado, atestando como a família recusa inequivocamente a vida democrática.

No segundo ano de seu mandato o Brasil e o mundo assistiram estarrecidos a devastação e queimadas na Amazônia e no Pantanal, com o Presidente, e seu chamado Ministro do Meio Ambiente tendo criado todas as condições para a destruição ambiental além de ter colocado em risco elevado os povos nativos e ainda se eximindo do que acontecia. Tal postura atrai críticas da opinião pública, da mídia e de entidades científicas no Brasil e no mundo, evidenciando ser o bioma do caos e da destruição o preferido do presidente e seus acólitos.

Surge, então, a pandemia e o presidente e sua trupe passam a negar sistematicamente os seus riscos, tratando a questão com total escárnio, minimizando sua dimensão e efeitos, tenta vender “gato por lebre”, ou seja, acenando com remédios salvacionistas (como ele próprio se vê). Além disso, demite o Ministro da Saúde, logo em seguida seu substituto, todos médicos, coloca um general no Ministério, alheio completamente aos assuntos da pasta. Em suma, cria um caos, dando todos os maus exemplos possíveis, o não uso da máscara em locais públicos o mais flagrante, causando perplexidade no País e no mundo. Os resultados saltam à vista com mais de 265 mil mortos, com os equipamentos e as equipes médicas atingindo a saturação, gerando um caos de proporções dantescas que ainda irá se agravar em algumas semanas. Apesar de tudo, o presidente mantém sua postura negacionista e continua solto participando de aglomerações e, rindo, sempre rindo, produzindo mais caos. É o próprio Homo caos, uma subespécie na trajetória involutiva humana.

Na estratégia de se segurar no cargo e tentar a reeleição, cerca-se de militares por todos os lados, principalmente em cargos chave. Nem no regime militar se viu uma mobilização de militares tão intensa e absurda como no presente mandato. E a outra estratégia reside em aprofundar os laços com a sua conhecida velha política, o Centrão, entregando-se a este “grupão” principalmente para se salvar e seu clã e aprovar no Congresso o que precisa a qualquer custo. Olhando para o futuro, Jair Bolsonaro já deve ter percebido que continuando a pandemia e a economia em frangalhos, não dá para apostar na recuperação econômica para dar um salto e conseguir o segundo mandato pelas vias eleitorais. O auxílio emergencial, ou como se chame, é um esparadrapo em um corpo com hemorragia ou um cimento em um prédio cheio de rachaduras.

Afinal de contas, estamos praticamente a um ano e meio das próximas eleições e o “posto Ipiranga” não faz milagres, ainda mais com os combustíveis em alta. Assim, só resta ao futuro candidato, apostar no caos, o que, aliás, é o seu caminho predileto desde o início, até agora frustrado pela resistência das instituições democráticas, da mídia e da opinião pública, que apesar dos pesares seguraram o ímpeto conspiratório de Bolsonaro, dos Bolsonaro.

Os caminhos possíveis parecem os seguintes:

1) um caos já em marcha derivado do aguçamento da pandemia. Neste caso, os esforços são sabotar o máximo possível a compra e aplicação de vacinas de modo a provocar um caos, adrede produzido, que justifique uma intervenção através da implantação do Estado de Defesa. Para isso, militares no aparelho do Executivo não faltam, precisa ver quais e quantos (e de qual patente) embarcariam nessa opção, tanto os da ativa como os da reserva. Evidentemente isto não deve ter aceitação direta e imediata, pois vai depender da resposta das instituições, principalmente o STF, da sociedade, da opinião pública, da maioria dos governadores, agora em posição contrária ao governo federal e das instituições militares vendo sua reputação ser corroída por um criador do caos.

No entanto, o protagonismo não está só com o Executivo, mas também com a sociedade civil e com o Parlamento, o que viria na forma de pedidos de impeachment do Presidente somando-se aos já existentes. Nesse quesito, o Centrão é o ator estratégico, pois cabe à Câmara e ao Senado o papel de tribunal. Em particular o presidente da Câmara, Artur Lira, e o PGR, Augusto Aras, funcionam como gatekeepers barrando as iniciativas de impedimento de progredirem.  Mas esta situação não é estática, o Centrão sabe bem a hora de entrar e mais ainda a hora de sair de um acordo e poderá deixar o capitão presidente em maus lençóis se não honrar o contrato estabelecido, consciente da enrascada que seria ficar fiel a um presidente que joga contra a Nação e o povo e com capital político em queda.  Neste caso, o Presidente certamente acionaria todas as forças a seu favor, ficando impossível imaginar o desfecho de um embate de proporções elevadas. Não só o Centrão reavaliaria sua posição, mas também as forças que ainda acreditam na conversa do presidente, como evangélicos, militares, empresariado avaliariam o desgaste de ficar ao lado do Presidente caos. Ficariam os fanáticos, devotos, seguidores cegos.

Ainda parece bastante difícil visualizar agora qualquer movimento mais consistente de pedido de impeachment. Um trunfo para Bolsonaro consiste na indicação de mais um ministro para o STF, se for um “terrivelmente evangélico” pode dar uma sobrevida a este apoio religioso.

2) um segundo caminho, certamente na pauta bolsonarista, se colocaria mais adiante para o ano que vem, o último do mandato. Se não vingar a alternativa da quebra da ordem democrática pelo caos instalado (pandemia em alta + economia em baixa, desemprego alto) bem como uma ação de impeachment, o Presidente pode se bater pela volta do voto em papel, causando outro caos, o que se mostra praticamente impossível de ser aceito, tal o retrocesso que carrega. De caos em caos, vive o Presidente. Um último lance, ainda neste corpus, residiria na contestação do resultado da eleição.  Considerando, na imagem de hoje, que Bolsonaro irá ao segundo turno, o primeiro jus sperneandi seria contestar o resultado de não ter sido eleito no primeiro turno. Inviabilizado este, o segundo seria ter um resultado adverso no segundo turno, onde o derrotado tentaria mobilizar forças para negar o resultado do TSE.

Todas essas conjecturas ainda estão bem distantes, mas nem tanto, ficando difícil imaginar seu desfecho. A certeza que se tem é que quem senta na cadeira de presidente é um Homo caos, um fabricante de caos, de espírito anti democrático, anti humanitário, anti científico, obscurantista.  O caos pode ter momentos agudos, mas é, acima de tudo, um processo, uma construção constante, como é o caso de sustentar posições sem provas ou embasamento, mas mesmo assim mantendo-as, por exemplo, a cloroquina e que as eleições de 2018 foram fraudadas. Fora do ambiente do caos, Bolsonaro não vive nem prospera. A única certeza que se tem é esperar mais caos ao longo do resto de seu mandato. Não é possível que alguém ainda se engane, a não ser quem comunga febrilmente dos ideais do presidente, o que move Jair Bolsonaro é a geração de caos, para manter-se no poder. Tudo isto nos remete a um sinal de constante alerta para o que vem por aí e enfrentar e eliminar o portador do caos pelos canais democráticos.

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