Guerra Russo-Ucraniana: uma tragédia anunciada?

Guerra Russo-Ucraniana: uma tragédia anunciada?

REDAÇÃO

27 de fevereiro de 2022 | 19h22

Fernando H. Casalunga, Doutorando em Ciência Política (UFRGS), Bacharel e Mestre em Ciência Política (UFPE) e Bacharel e Licenciado em História  (UNESP). Atualmente, é pesquisador membro da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED), Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e do grupo de pesquisa do CNPq “Brasil e as Américas”. E-mail: fernandocasalunga@gmail.com

O dia 24 de fevereiro de 2022 entrará para a história como a data na qual se desencadeou a maior crise militar na Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial, na medida em que as nações assistem perplexas a eclosão da guerra russo-ucraniana o debate entre as narrativas pró-ocidentais e pró-rússia sobre as razões que conduzem o processo atingiu níveis comparáveis somente aos vistos durante a Guerra Fria.

Se por um lado o ocidente (leia-se países que compõem a Organização do Tratado do Atlântico Norte capitaneado pelos Estados Unidos) se esforça para construir a imagem de uma Rússia agressora e impiedosa capaz de avançar militarmente sobre um território soberano que procura exercer sua independência para fomentar processos decisórios que envolvem a construção de alianças comerciais e de defesa com os países ocidentais. Por outro, a Federação Russa sustenta um discurso antagônico, reavivando a memória histórica da luta outrora travada entre a antiga união soviética e a Alemanha nazista que Vladmir Putin sustenta ainda ecoar por solo ucraniano, fator que coloca em risco a população russa que reside no país vizinho.

A guerra de informação, juntamente com outras esferas de ação como a econômica, diplomática e cibernética, faz parte integral da guerra híbrida que as potências contemporâneas têm buscado implementar para consecução de objetivos estratégicos, trata-se da ‘plena integração dos meios militares e não-militares com o poder do Estado para alcançar objetivos políticos, nos quais o uso da força desempenha um papel central. Estados com habilidades altamente centralizadas para coordenar e sincronizar seus instrumentos de poder (governo, economia, mídia, etc.) podem criar efeitos multiplicadores de força sinérgica (Kjennerud e Cullen, 2016).

Entretanto, sabemos que a guerra em seu viés convencional, o chamado ‘boots on the ground, é, sem dúvida, a pior faceta das disputas interestatais, e, por óbvio, aquela que impõe maiores custos aos envolvidos, sejam pelas vidas de combatentes e civis que serão perdidas; os efeitos multiplicadores que devem afetar as relações comerciais e as economias, não apenas dos países diretamente envolvidos no conflito, mas de todo o globo; ou mesmo o comprometimento do equilíbrio das relações diplomáticas.

Por conta disso, acredito que para termos a devida noção da proporção dos acontecimentos recentes, precisamos tentar responder a duas perguntas relevantes: Como chegamos até este ponto? O conflito armado poderia ter sido evitado?

Ao se debruçar sobre aspectos da realpolitik que fogem ao alcance do senso comum, a comunidade acadêmica dedicada aos estudos de Política Internacional e Defesa deve analisar com parcimônia situações críticas partindo do pressuposto de que essas dificilmente ocorrem no vácuo. Por essa lógica, se levarmos em consideração os interesses estratégicos manifestos em documentos oficiais de Defesa da Federação Russa podemos registrar evidências que contribuam para responder aos questionamentos levantados.

Senão vejamos, promulgada pelo então presidente eleito Dmitry Medvedev em 13 de maio de 2009, a Estratégia de Segurança Nacional da Federação Russa (2009) estabeleceu as ações estratégicas que deveriam ser adotadas para garantir a segurança nacional e o desenvolvimento sustentável do Estado, apresentando a percepção da Rússia acerca dos desafios que o século vinte e um impunha aos Estados em âmbito interno e externo.

O documento aponta para o crescimento de conflitos globais envolvendo o espaço de informação como fator chave na desestabilização de territórios nacionais mediante a promoção de ‘sentimentos nacionalistas, xenofobia, separatismo e extremismo violento, inclusive sob os slogans do radicalismo religioso’ (Rússia, 2009).

Em específico, no que se refere aos conflitos regionais, expressa que a decisão dos Estados Unidos de instalar um sistema de defesa antimísseis nas regiões fronteiriças da Rússia é percebida como fator de instabilidade, razão pela qual, em resposta a esse movimento, as Forças Armadas russas poderão ser empregadas com intuito de restabelecer o equilíbrio de poder nessas áreas (Rússia, 2009).

A diretriz institucional reforça a percepção russa de que o avanço da infraestrutura militar da OTAN nas regiões fronteiriças da Federação, desconsiderando os interesses legítimos da Rússia nesses territórios, é fator preponderante para a redução da segurança na região euro-atlântica (Rússia, 2009)

Em paralelo, a Doutrina Militar da Federação Russa, reformulada durante o primeiro governo de Vladmir Putin (2000-2008) e promulgada pelo então presidente eleito Dmitry Medvedev em 5 de Fevereiro de 2010, apontava uma preocupação com o aumento de conflitos regionais em territórios que fazem fronteira com o território russo, sinalizando que as instituições e mecanismos legais internacionais não apresentavam a mesma eficiência, em termos de segurança, para todos os Estados, fator que representava uma ameaça real de eclosão de novos conflitos em larga escala com possibilidade de envolver o emprego de armas convencionais e nucleares (Rússia, 2010).

O documento salienta que o avanço da infraestrutura militar dos países membros da OTAN sobre as fronteiras da Federação Russa representava uma ameaça externa que contribuía, sobremaneira, para a desestabilização de territórios e redução da estabilidade estratégica regional ‘A criação e implementação de sistemas estratégicos de defesa antimísseis violam o equilíbrio de forças existentes promovendo a estabilidade global, militarização do espaço sideral, implantação de sistemas estratégicos não nucleares de armas de alta precisão’ (Rússia, 2010).

No entanto, ao ignorarem o aspecto formal disposto em documentos basilares para a organização estratégica do Estado russo, as instituições ocidentais para cooperação em comércio e Defesa mantiveram o movimento de expansão por sobre as antigas repúblicas soviéticas que já havia absorvido as repúblicas da Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia no início da primeira década deste século.

Para compreender como chegamos à guerra russo-ucraniana em 2022, é preciso mergulhar no processo histórico recente que se constitui mediante o alargamento da OTAN, fator diretamente relacionado ao conflito, e, que pode ser abordado sob o prisma da política de contenção da antiga URSS iniciado durante a Guerra Fria, movimento que levou a um aumento do sentimento antiocidental na população de origem russa.

Os russos se sentiram prejudicados pelos novos arranjos institucionais propostos pelos liberais ocidentais que obviamente afrontavam os interesses da Federação, fator chave para se entender a ‘legitimidade de iniciativas antagônicas aos interesses ocidentais por parte de seu governo’ (Mielniczuk, 2014).

A trajetória que conduz à guerra de hoje tem início, portanto, em 2004, com o apoio ao movimento pró-democrático que se iniciou na Ucrânia denominado Revolução Laranja, um dos elementos críticos que despertaram a atenção da Rússia para a tentativa de ingerência ocidental no entorno estratégico regional russo, ‘Desde meados da década de 1990, os líderes russos se opuseram firmemente ao alargamento da OTAN e, nos últimos anos, deixaram claro que não permaneceriam sentados enquanto seu vizinho estrategicamente importante se transformasse em um bastião ocidental’ (Mearsheimer, 2015).

As tensões provocadas pela Revolução Laranja não foram suficientes para garantir a adesão da Ucrânia às instituições cooperativas ocidentais, no entanto, só arrefeceram em 2010, quando os ucranianos elegeram Viktor Yanukovych para ocupar o cargo de presidente do país. Um líder que procurava demonstrar interesse em estreitar os laços econômicos com a UE, embora negasse a plena integração do país à OTAN. As declarações iniciais de política externa da Yanukovych expressavam a intenção de tornar a Ucrânia um estado neutro, capaz de cooperar em questões de Defesa com a OTAN e a Rússia.

Entretanto, o presidente que mantinha laços estreitos com o Kremlin teve o mandato permeado por um conflito de interesses entre seus correligionários pró-rússia e os empresários ucranianos pró-ocidente. Diante deste cenário, os esforços para construção de medidas de cooperação malograram frente à pressão econômica e diplomática exercida pelo Kremlin que minou os interesses do grupo pró-ocidente.

Em novembro de 2013, Yanukovych rejeitou um grande acordo econômico que estava negociando com a UE e decidiu aceitar uma contra oferta russa de 15 bilhões de dólares, o resultado foi uma guinada da política externa ucraniana no sentido de um maior aprofundamento das relações com a Rússia em detrimento do acordo com a UE.

A decisão foi recebida com protestos da oposição ao governo e manifestações pró-ocidente na Praça da Independência de Kiev que ficaram conhecidas como ‘novo movimento pró-ocidental Euromaidan’ (Mearsheimer, 2015). O movimento, que teve início em 21 de novembro de 2013 de forma pacífica, acabou se prolongando por três meses e chegou a reunir mais de 250.000 manifestantes na praça central, além de prédios do governo regional e o Ministério da Justiça (USAOC, 2015).

Em fevereiro de 2014 a violência eclodiu, resultando em pelo menos oitenta e oito mortes entre os dias 18 e 20 na capital Kiev, outras centenas de manifestantes foram feridos pelo avanço das tropas governo (BBC, 2015). Um dia depois, as tentativas de governo e oposição de costurar um acordo às pressas para manter a legitimidade do presidente até a realização de novas eleições foram, veementemente, refutadas pelo parlamento, culminando na fuga de Yanukovych da capital.

Em 22 daquele mês, o parlamento decidiu dissolver a Berkut, unidade de elite da polícia culpada pela morte dos manifestantes na praça central, proibir o russo como segunda língua oficial do país e remover de Yanukovych do cargo, em seu lugar assumia como presidente interino Oleksandr Turchynov (USAOC, 2015).

O parlamento marcou novas eleições presidenciais para 25 de maio de 2014 quando os eleitores pró-ocidentais elegeram o oligarca Petro Poroshenko como o novo presidente da Ucrânia. Em 27 de junho de 2014 Poroshenko rapidamente assinou o Acordo de Associação com a UE que havia sido rejeitado por seu antecessor, concluindo, assim, o estreitamento dos laços da política externa ucraniana com o mundo ocidental. Neste mesmo mês os ministros das Relações Exteriores dos países membros da OTAN decidiram que a aliança permaneceria aberta a novos membros, ‘Nenhum país terceiro veta o alargamento da OTAN’ (Mearshmeier, 2015).

No entanto a resolução do caso não foi um tão simples, as tentativas de formalizar o acordo de integração com a UE conduziram a Ucrânia a um impasse diplomático com a Rússia, cuja resolução do processo de tomada de decisão mediante a queda de Yanukovych, que havia sido democraticamente eleito, deu início a um dos mais intrigantes conflitos contemporâneos desencadeados deste século, a guerra russo-ucraniana que presenciamos atualmente é o desdobramento deste processo.

Em 2014, após a eclosão do movimento Euromaidan que forçou o então presidente Viktor Yanukovych deixar o cargo e seguir para a Rússia, o conflito civil se espalhou por toda a Ucrânia deixando claro que o país estava se dividindo em duas metades, separadas pelo rio Dnieper, o lado pró-ocidental a oeste e o lado pró-russia a leste, “a crise mostra da realpolitik permanece relevante e os estados que a ignoram o fazem por sua própria conta e risco” (Mearshmeier, 2015).

Para Vladmir Putin, a queda de Yanukovych na condição de presidente eleito  pró-russia forneceu a narrativa perfeita para o que ele chamou de “golpe”. Imediatamente, veículos da imprensa russa passaram a disseminar informações sobre um golpe de Estado orquestrado pela UE e os Estados Unidos que ameaçava os interesses regionais da Federação e colocava os russos que viviam na Ucrânia em perigo. Destarte, a Rússia respondeu às ações do parlamento ucraniano anexando a península da Crimeia e trabalhando para desestabilizar a Ucrânia até que abandonasse seus esforços para se juntar ao Ocidente, os Estados Unidos e a UE reagiram aplicando sanções econômicas à Rússia que não foram capazes de conter o processo.

Em 7 de abril de 2014, grupos pró-rússia classificaram o governo de Kiev como fascista, e organizaram um movimento para desvincular a região de Donbass, onde estão localizadas as cidades de Donetsk, Luhansk e Kharkiv, da Ucrânia (BBC, 2015). Esses grupos tomaram prédios públicos e exigiram a realização de referendos regionais semelhantes ao da Crimeia, mediante a recusa do governo central em reconhecer a legitimidade dos separatistas, os referendos foram organizados de modo informal e, em 11 de maio de 2014 foi declarada independência da República Popular de Donetsk e a autonomia dos territórios de Luhansk e Kharkiv do governo central (USAOC, 2015).

Em 22 de maio, com apoio militar operacional e tático da Rússia, os separatistas do leste declararam o estabelecimento da Nova Rússia, uma área que incluía os territórios a sul a leste do rio Dnieper. Em resposta o presidente Poroshenko anunciou um plano de paz de 15 pontos que declarava um cessar-fogo momentâneo, quinze dias depois, as tropas do governo central de Kiev iniciavam uma contraofensiva que resultou na retomada de algumas cidades ocupadas pelos separatistas.

Em meados daquele mês os combates se intensificaram com as forças do governo avançando e acuando ainda mais os separatistas, em 17 de julho, um míssil foi disparado contra o voo MH17 da Malaysian Airlines, causando a morte de 283 passageiros e 15 tripulantes civis. O ataque aos civis resultou em novas sanções econômicas à Rússia por parte dos Estados Unidos e da União Europeia que atingiram atores transnacionais ligados ao governo russo e a alguns bancos, como diretores de empresas de energia e de defesa (Mearshmeier, 2015).

Em agosto, apoiado por tropas ocidentais o governo já havia recuperado cerca de dois terços do território ucraniano dominado pelos separatistas. As ações para retomada do leste pelo governo central resultaram em fortes baixas para os separatistas em termos de recursos humanos e território, abrindo espaço para a negociação de outro cessar-fogo que foi estabelecido em setembro 5 de 2014 com o apoio da Rússia e da UE.

A Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) coordenou as negociações de paz na cidade de Minsk, na Bielorússia, nesta ocasião o então presidente ucraniano Poroshenko conseguiu a aprovação plena por ambos os lados dos quinze pontos do plano de paz que havia sido proposto em junho. Dentre os pontos do plano constavam itens como a garantia do governo central de conceder maior autonomia para a região de Donbass e o compromisso em proteger os falantes do idioma russo que habitam os territórios do leste, como contrapartida, equipamentos pesados ​​de combate deveriam ser removidos das áreas de conflito e os prisioneiros de ambos os lados trocados (USAOC, 2015).

No entanto, a trégua durou apenas dois meses. Em 2 de novembro os líderes separatistas do leste realizam novas eleições não reconhecidas pelo governo central, no dia 12 daquele mês as hostilidades foram retomadas e os territórios controlados pelo governo central a leste novamente declarados como autônomos pelos separatistas com apoio das tropas russas, uma clara demonstração de que o conflito continuaria.

Em 12 de Fevereiro um novo cessar-fogo é acordado em Minsk, entre Rússia, Ucrânia, Alemanha e França prevendo a retirada de armas, a troca de prisioneiros e a redução de armamento pesado entre as forças de artilharia envolvidas no conflito. Embora o acordo tenha sido assinado pelos separatistas, os conflitos não cessaram, o movimento continuou a avançar sobre Donbass com intuito de unir as regiões de Donetsk e Luhansk, ato consumado nos meses seguintes.

Frente ao contencioso, teóricos da vertente realista de análise de Política Internacional e Defesa sustentam que a crise desencadeada na Ucrânia em 2014, teve como principais responsáveis os Estados Unidos e seus aliados europeus, em grande parte, devido ao programa de alargamento da OTAN que conduziu a um inevitável impasse estratégico com a Federação Russa a partir do momento em que se procurou integrar a Ucrânia, considerada um estado tampão, à órbita ocidental.

Em resposta aos acontecimentos que desencadearam o conflito russo-ucraniano (2013-2014), ainda em 2014, a Federação Russa promulgou uma nova Doutrina Militar (2014) assinada em 30 de dezembro de 2014 pelo presidente Vladmir Putin. O documento destacava o avanço militar da OTAN sobre os países fronteiriços que se encontravam dentro do entorno estratégico regional russo como fator que impunha a necessidade de que a Federação Russa continuasse vigilante para garantir a Defesa e a Segurança do país.

O documento reforçou o compromisso das Forças Armadas com a proteção militar dos interesses estratégicos da Rússia em caso de esgotamento das “possibilidades de usar instrumentos políticos, diplomáticos, legais, econômicos, informacionais e outros instrumentos não violentos” (Rússia, 2014).

A doutrina (2014) ressaltava a instabilidade dos processos de desenvolvimento político e econômico global e regional que ocorrem em paralelo ao aumento da tensão das relações internacionais entre os Estados contemporâneos, e, descrevia a preocupação das forças com a eclosão de conflitos regionais em zonas fronteiriças  que permaneciam sem solução devido à insuficiência do sistema de segurança internacional em prover proteção equitativa aos Estados (Rússia, 2014).

Dentre outros apontamentos, o documento acrescentou a necessidade da Federação em investir em tecnologia militar para conter a ameaça à paz e a segurança global e regional representada pelo avanço da OTAN sobre países fronteiriços a fim de: i) neutralizar tentativas de estados individuais (grupos de estados) de alcançar superioridade militar, implantando sistemas estratégicos de defesa antimísseis, armas no espaço sideral e sistemas não nucleares estratégicos de armas de alta precisão; ii) reduzir o risco do uso de tecnologias da informação e comunicação para fins militares e políticos para a implementação de ações dirigidas contra a soberania, independência política, integridade territorial dos Estados (RÚSSIA, 2014, art. 21, itens l,s, p. 9-10, tradução nossa).

No ano seguinte, em 31 de dezembro de 2015, Putin promulgava uma nova Estratégia de Segurança Nacional apontando os resultados das medidas adotadas pela Rússia desde a publicação de seu documento antecessor e redefinindo alguns dos interesses nacionais e prioridades estratégicas estabelecidos no intuito de fortalecer a Defesa, a Segurança e garantir o desenvolvimento do país (Rússia, 2015).

O alerta presente na estratégia (2009) sobre o agravamento dos conflitos regionais próximos às fronteiras da Federação Russa causado pela instalação do sistema de defesa antimíssil norte americano nesses territórios foi alterado. A estratégia (2015) oferecia uma resposta clara ao confronto de interesses posto entre o país e os Estados Unidos e seus aliados no que se refere a questões globais na medida em que reforçou a intenção da Federação em atuar de modo independente nas esferas da política externa e doméstica como contrapartida à pressão política, econômica, militar e de informações imposta por seus adversários.

A preocupação russa com o avanço da infraestrutura militar da OTAN sobre as regiões fronteiriças ignorando os interesses legítimos da Rússia nesses territórios foi contraposta de modo objetivo na nova estratégia. De acordo com o documento, as tentativas do ocidente de conter o processo de integração da Ucrânia à Federação Russa, orquestrada por um ‘golpe inconstitucional’ apoiado pela UE e os Estados Unidos produziu o caos na sociedade ucraniana na medida em que contrariou diretamente os interesses nacionais russos na região da Eurásia (Rússia, 2015).

Diante deste cenário, frisou que o “fortalecimento da ideologia nacionalista de extrema direita e a formação intencional da imagem da Rússia como inimiga da população ucraniana” (Rússia, 2015) transformara a Ucrânia em um vetor de instabilidade na Europa, dando início às operações de uso da força por parte dos envolvidos.

Destarte, o interesse na construção de acordos estratégicos com os EUA para controle da proliferação de armas de destruição em massa e contenção de conflitos regionais, mediante adoção do pragmatismo na política externa orientado para o controle das ameaças à segurança nacional, bem como a intenção de construir mecanismos de interação entre os órgãos públicos e a sociedade civil para o desenvolvimento da Federação Russa presentes na estratégia (2009) cedeu lugar na estratégia (2015) à preocupação com as capacidades manifestadas pelos Estados contemporâneos para desestabilizar regimes políticos legítimos a partir do fomento ao “ódio étnico, ódio religioso e outras manifestações de extremismo” (Rússia, 2015).

A partir da promulgação dos novos documentos oficiais que versavam sobre a Política Internacional e Defesa da Federação Russa, restava claro aos atores institucionais envolvidos no conflito que os russos não seriam coniventes com a possibilidade de união comercial e militar da Ucrânia com as alianças ocidentais. No entanto, chama a atenção que o processo de alargamento da OTAN não tenha sofrido quaisquer alterações, mesmo diante de evidências irrefutáveis do ímpeto russo para manutenção da Ucrânia em sob sua esfera de influência regional.

Embora a manutenção de um novo status quo na região tenha constituído um tênue equilíbrio, sustentado por quase cinco anos, nas relações comerciais e diplomáticas entre o ocidente e os russos, mediante a manutenção dos territórios separatistas pró-rússia e o controle da Crimea por parte da Federação, e a possibilidade de autoafirmação dos governos de Kiev sem a interferência direta de seu vizinho, a trajetória histórica seguia seu curso, e, em 2019 a eleição do atual presidente Volodymyr Zelensky reacendeu as tensões do conflito.

As primeiras medidas do governo Zelensky premeditavam o que estaria por vir, ao tomar posse, o presidente decide dissolver o Parlamento ucraniano e exigir que as negociações diplomáticas com a Rússia fossem vinculadas à necessária devolução da península ocupada, além disso, afirmava que retomaria as regiões de Donbass em defesa da soberania e independência da Ucrânia. Por óbvio, a aposta em um movimento radical não passaria incólume por sobre os interesses russos na região.

A subida ao poder de Zelensky apostava no rápido processo de adesão da Ucrânia à UE e a OTAN, como um xeque mate nas aspirações russas de controle do país, contudo, suas decisões acabaram aumentando, sobremaneira, a tensão nas relações diplomáticas entre a Rússia e Ucrânia que, em meados de 2021, chegaram a seu ponto fulcral, dando inicio a uma escalada no conflito que levou a Rússia a reconhecer os territórios de Donbass como Estados independentes, causando o frisson na Política Internacional que nos trouxe até aqui, face à declaração de guerra por parte do Kremlin frente a recusa do governo ucraniano em frear o processo de adesão às instituições ocidentais.

Novamente, em uma tentativa de conter as ações do Kremlin, o ocidente respondeu aplicando sanções internacionais aos oligarcas russos, até então as mais severas já vistas desde a Guerra Fria. No entanto em se tratando de ajuda militar o ocidente pouco é capaz de fazer para ajudar o governo ucraniano a se sustentar no poder resistindo à investida russa, uma vez que a potência euro-asiática conta com o segundo maior arsenal nuclear do globo. Frente a esse cenário, a dissuasão do envolvimento das forças ocidentais para auxiliar um país que não faz parte da OTAN é imperativa para evitar um conflito mundial, e, disso as lideranças envolvidas estão mais que cientes.

A decisão de invadir a Ucrânia tomada por Putin reforçou o que as diretrizes oficiais da Federação Russa estabeleceram e que de longo prazo as instituições ocidentais já tinham ciência, a saber, a proteção dos interesses estratégicos da Rússia mediante a contenção do avanço os organismos de cooperação comercial e militar do ocidente.

Frente à realidade objetiva, a declaração de Zelensky em pronunciamento oficial dada um dia após o início da guerra é simbólica ‘Fomos deixados sozinhos para defender nosso estado. Quem está pronto para lutar ao nosso lado? Eu não vejo ninguém. Quem está disposto a dar à Ucrânia uma garantia de adesão à Otan? Todo mundo tem medo’

Portanto, se atualmente, em 26 de fevereiro de 2022, as tropas russas encontram-se ao redor da capital ucraniana, prestes a tomá-la de assalto, seria delicado supor que os movimentos do Kremlin não poderiam ser contidos caso o ocidente estivesse disposto a conter o processo de alargamento da OTAN, mediante a absorção da Ucrânia, a tragédia estava anunciada.

Referências

BBC. Ukraine crisis in maps. BBC NEWS, 18, p. 1-17, fevereiro. 2015. Disponível em .

KJENNERUD Erik, CULLEN Patrick. What is Hybrid Warfare? Norwegian Institute of International Affaris, n. 1, p. 1-4, 2016

MEARSHEIMER, John. Why the Ukraine Crisis is the West Fault. Foreign Affairs. Set. 2014. p. 1-15.

MIELNICZUK, Fabiano. A crise ucraniana e suas implicações para as Relações Internacionais. Conjuntura Austral. v. 5, n. 23, 2014. p. 1-16.

RÚSSIA. Doutrina Militar da Federação Russa. Presidência da República. 5, fev, 2010.

RÙSSIA. Doutrina Militar da Federação Russa. Jornal Russo. Ed. Federal. 30, dez, 2014. 

RÚSSIA. Estratégia de Segurança Nacional da Federação Russa até 2020. Presidência da República. 13, mai, 2009.

RÚSSIA. Estratégia de Segurança Nacional da Federação Russa. Decreto do Presidente da Federação Russa.  Jornal Russo.31. dez. 2015.

The United States Army Special Operations Command. “Little Green Men” a prime on Modern Russian Unconventional Warfare Ukraine 2013-2014. Johns Hopkins University Apllied Physics laboratory. Laurel, Maryland. 2015. p. 1-65.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.