Governo Bolsonaro – palavras chave para seu entendimento

Governo Bolsonaro – palavras chave para seu entendimento

REDAÇÃO

12 de abril de 2019 | 14h13

José Antonio Gomes de Pinho, professor Titular aposentado da Escola de Administração da UFBA e Pesquisador da FGV-EAESP.

Completados cem dias do governo Bolsonaro cabe fazer uma avaliação preliminar. O número 100 é mais simbólico, pois pouco pode ser avaliado, mas pode-se olhar para o que o governo sinaliza no sentido de projetar não só o futuro imediato como o do período governamental de quatro anos. Bolsonaro assumiu o governo pelo mandato popular que lhe foi conferido em um contexto de muita polarização. Se poucos meses antes das eleições não se apostava nele, com o passar da campanha foi arrebanhando votos e com o atentado sofrido criaram-se condições para reforço nas suas intenções de voto. Bolsonaro surgiu numa peculiar condição de se mostrar como um político contra a política, como alguém de fora, mas sendo de dentro, já que acumulava mandatos parlamentares como vereador no Rio de Janeiro e sete mandatos como deputado federal pelo RJ. Seria um outsider de dentro, situação ambígua, ambíguo, aliás, termo bem adequado para caracterizá-lo.  Nesta nada curta carreira política nunca obteve destaque. Na verdade, capitalizou uma insatisfação com o partido então hegemônico no cenário nacional, o PT, e uma mais ampla insatisfação difusa com a política (corrupção em particular), na forma como tem sido feita no país. Outra característica o marcava, assumia o papel de um político da direita radical, de viés antidemocrático, defendendo posições extremas no tocante a questões de comportamento, defesa feita normalmente de forma agressiva. Esse conjunto de atributos obteve receptividade em parcela considerável da população e Bolsonaro venceu a eleição.

Os analistas políticos estiveram nesse período todo, campanha e agora exercício do poder frente ao que podemos caracterizar como um enigma, ainda não decifrado, embora, paradoxalmente, a figura em tela não faça nada para esconder suas posições. No sentido de tentar entender o personagem em foco fizemos um levantamento de palavras que foram usadas para caracterizá-lo, segundo analistas críticos de suas posições.  Recorremos aos dois maiores jornais de São Paulo (Folha e Estado). Longe de fazermos um levantamento exaustivo, recolhemos algumas palavras que mostram o estado de ânimo de analistas, como o enxergam. Baseamo-nos em editoriais, colunistas, jornalistas, analistas, políticos, acadêmicos, de variados matizes ideológicos com visão crítica do agora presidente. Não recorremos a blogs ou similares e nem contemplamos colunas humorísticas. Dividimos a coleta em duas fases: presidente eleito não empossado e presidente em exercício. Dentro desta última, dividimos o tempo em três períodos: os dois primeiros meses, o período a partir da postagem pelo presidente de um vídeo obsceno no Carnaval que causou muita polêmica, e o período recente que se marca pelo trâmite da reforma da Previdência, como fato balizador. Como dissemos, não houve intenção em ser exaustivo e nem identificar termos de maior frequência de uso e não vamos colocar aspas nas palavras para não cansar a leitura. Assim, temos:

Bolsonaro eleito, não empossado (novembro e dezembro 2018): brutamontes; estupidez boçal; rancor; autoritário; homofóbico;  obscurantista; anacrônico; excêntrico; perigoso; irracionalidade; escracho; mal maior; despreparado, retrocesso;

Bolsonaro eleito (dois primeiros meses: janeiro e fevereiro): descoordenação; primarismo intelectual; sarcasmo; arrogância; birrento; incapaz; inconsequente; desequilibrado; escatológico ; direitopata; primitivo; menos letrado; encarnação do atraso; lunático, ilusionistas; despreparado; reino da fantasia; despreparo chocante; teses fanáticas; fanatismo.

Período pós postagem do vídeo no Carnaval (início de março): instabilidade; metamorfose; pé na jaca; mete os pés pelas mãos; articulação política capenga e confusa; vídeo obsceno; barafunda; erros primários; déficit de legitimidade; incerteza; indecoroso; tenentinho desordeiro; grosseiro; grotesco; destrambelhado; bravatas ginasianas; molecagens; cafajestadas; falta de decoro e de educação; desacertos; recuos; gafes; sem noção de compostura; nacionalista rudimentar; maior desgoverno da paróquia; tropeços; inconveniências; despreparo; confusão; governo alucinado; brucutu digital;

Período a partir do trâmite da reforma da Previdência (meados de março): barafunda; falta de articulação política; falta de governo; incapacidade de diálogo; dilma de calças; despreparo; falta de liderança; uma trapalhada atrás da outra; indigência de ideias; atores minúsculos; devastação da confiança; baderna; desgoverno; modo desordenado e amador; ódios; divisões; asnices oficiais; tumulto; lentidão; turbulências, abacaxi; antidiplomático; hesitações; tropeços; desencontros; peraltices; trapalhadas, bajulação, subserviência; deserto de ideias; mediocridades técnicas;  desprezo pelas liberdades;  errático; suave fracasso; autoritarismo atávico; tragédia; pessoa tacanha; assustador, inabilidade; desconforto; não há governo; governo omisso; inoperância política; erros crassos; desprezo por valores humanistas; vassalagem vergonha; imbecil; mundo paralelo; briga com a realidade; desarticulação política; desinteresse, diatribes no twitter; pensa pequeno; incapaz;  arrogância sem limites; presidente desinteressado; pendores autoritários;  ideólogos amadores; insanidade; impasse e caos político; governo no ponto morto; pandemônio; cabeças de bagre; impasse político precoce; governo volátil; deterioração política; escasso conhecimento; fraca articulação, atitudes estúpidas; desatinos; canastrices tacanhas; desapontamento; mentalidade defensiva; perspectiva ingênua; desconforto no cargo; 100 dias de barulho.

Como se vê o cardápio é imenso e variado. Os termos são duros, mas, em geral, sem carga de ofensa olaviana, e expressam a perplexidade com o presidente, eleito e depois empossado, e seu ministério. Os termos mudam, pois se como candidato pesavam mais desconfianças quanto ao seu vínculo com a democracia e o respeito aos cânones democráticos, já na fase de presidente em exercício somam-se a estas preocupações com as qualificações do condutor e do seu ministério. Fica uma sensação de inapetência pelo ato de governar, expresso, aliás, pelo próprio mandatário.  Resta a sensação também que parece que o eleito ainda não tirou a camisa de candidato e vestiu a de presidente.  Novamente, deparamo-nos com um enigma e com uma situação nunca vivida na cena política brasileira (e de difícil enquadramento teórico), qual seja, a chegada ao poder de uma combinação de forças muito diferenciadas e heterogêneas:  evangélicos, liberais, conservadores em geral, militares e um núcleo familiar a quem o 00 (zero zero) dá ouvidos e muito peso. O enigma agora é não só entender o que ele é, mas o que ele quer, aonde quer chegar e como.   Passados cem dias, ainda estamos perplexos com o que acontece e com o que não acontece e que rumo tomará o presente governo. Quais serão as palavras-chave dos próximos 100 dias? Elas poderão nos dizer algo sobre o rumo que o governo tomará.

 

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