Governo Bolsonaro: a quem é que se destina?

Governo Bolsonaro: a quem é que se destina?

REDAÇÃO

05 de dezembro de 2019 | 17h19

José Antonio Gomes de Pinho, Professor Titular aposentado da Escola de Administração UFBA. Pesquisador da FGV – EAESP.

Faltando menos de um mês para completar um ano de mandato, e, portanto, chegar a um quarto deste, o governo de Jair Bolsonaro ainda é um enigma. Talvez não devesse causar tanta surpresa, pois o então candidato deixou bem claro em sua campanha o seu portfólio político e suas intenções. Para muitos, ainda que com sinais inequívocos antidemocráticos, seriam apenas bravatas de campanha que teriam que se acomodar aos ritos democráticos, uma vez empossado. Embora isso tenha acontecido em parte, os acenos de pendores nada democráticos são frequentes, o que nos leva a perguntar: aonde quer chegar Bolsonaro?

Mesmo tendo sido analisado ad nauseaum o pedigree do político cabe trazer ou rememorar alguns aspectos de sua trajetória, para saber de onde ele vem. Saído do Exército, em condições deveras polêmicas, elege-se vereador no Rio de Janeiro, em 1988, falando para os militares de baixa patente, os quais dizia defender seus interesses. O capitão da reserva elege-se com 3046 votos (18.o mais votado no conjunto de 42 vereadores). Pode-se dizer ser este contingente os bolsonatos. Não cumpre todo o mandato de vereador, dando um salto apreciável ao se candidatar para deputado federal (1989), sendo eleito com 67.041 votos amealhados na Vila Militar e em zonas eleitorais do município de Resende (CPDOC-FGV), sede da Academia Militar de Agulhas Negras. O acréscimo expressivo de votos se dá pela mudança do colégio eleitoral do município do Rio para o Estado do Rio.

Também esse contingente pode ser caracterizado como bolsonatos, sendo um segmento formado pelos escalões mais baixos do Exército, para quem o candidato vocalizava suas propostas. Ao todo, Jair Bolsonaro cumpriu sete mandatos na Câmara Federal, tendo como habitat o grupo dos chamados baixo clero. Apenas na última eleição (2014) é que consegue uma votação expressiva, sendo o mais votado do Estado do Rio, já fruto de posições polêmicas e agressivas, com ralo compromisso com ideais democráticos, culminando com a declaração elogiosa a um notório torturador do regime militar, por ocasião da votação do impeachment da presidente Dilma. Certamente neste momento já tinha em mente uma futura candidatura à Presidência.

Na campanha ao cargo máximo do país, assumindo uma postura antipetista, o candidato granjeia apoios de parte do eleitorado desencantado com o PT, onde pontifica o desastroso segundo mandato de Dilma. Mas, também, se beneficia do esgotamento das fórmulas de partidos de centro e centro-direita, a destacar o PSDB, que viu minguar o seu eleitorado, que correu para o capitão reformado. Além disso, a candidatura Bolsonaro, com propostas autoritárias e antidemocráticas, desperta um eleitorado conservador que saiu das tocas, revelando um país que não se conhecia desde o fim do período militar.

Trazendo no alforje os nomes de dois futuros ministros, Paulo Guedes e Sérgio Moro, que dariam credibilidade ao candidato compensando sua escassa densidade intelectual, Bolsonaro formata uma candidatura que adquiria foros de viabilidade eleitoral. A facada produziu a vitimização e seu afastamento estratégico dos debates o que causou um desconhecimento maior de suas propostas e argumentos e sua predisposição ao diálogo com outros candidatos. Mas, isso não importava, estavam presentes as condições para sua vitória. Trazia também em sua proposta uma vaga ideia de uma “nova política”, embora nos sucessivos mandatos não a tenha praticado, muito pelo contrário seu comportamento pauta-se pela mais velha possível.

Então, para quem, para que grupos, Bolsonaro direcionava seu discurso e que comprou o ticket para sua eleição? O capital, em seus diversos setores, o agronegócio em particular, grupos evangélicos, caminhoneiros (que, inclusive, postulavam atitudes mais radicais), setores militares, e um difuso segmento fundamentalmente de classe média, que clamava por um forte combate à corrupção, associada inequivocamente ao PT. E ainda uma pauta de mudança radical nos costumes e na visão de nação que o candidato propunha em sua pregação bem como no entendimento da questão ambiental e indígena. No entanto, é difícil pensar em uma aderência irrestrita de todos esses grupos e segmentos à causa bolsonarista.

Uma vez no poder o que se tem assistido desde o início é um movimento errático, a implantação de um projeto neoliberal na economia e ultra conservador na política e nos costumes bem como ataques aos cânones civilizatórios estabelecidos tanto nos países mais avançados como no Brasil. Surpreendeu a todos o Presidente declarar que não tinha aptidão para o exercício do cargo, mas com poucos meses de governo , sem ter entregue nada do que havia prometido, declarar que seria candidato à reeleição, mostrando um apetite pelo poder, lembrando que tinha se posicionado contra a reeleição. Outro traço nunca antes detectado em nossa história é um governo assentado no Presidente e seus filhos. Em tempos de redes sociais, foi produzida uma enxurrada de mensagens antidemocráticas, agressivas vindas dessa esfera familiar, atuando praticamente como ministros sem pasta.

E agora, chegando quase a um quarto do mandato, como estão os grupos que compraram o ticket para eleger o capitão reformado? Os institutos de pesquisa indicam crescente rejeição ao governo. Assim, para quem está governando Bolsonaro? Os setores produtivos parecem aguardar a concretização das reformas e privatizações. Assim, ainda estão apoiando. Para o capital financeiro sempre está bom. O desemprego cede lentamente e não parecendo causar perda de sono aos donos do poder que aportam políticas públicas de pouco alcance para o enfrentamento do grave problema, estampado nos cerca de 12 milhões de desempregados. No atendimento aos setores militares, o governo foi bem seletivo abandonando os grupos que viabilizaram o início da carreira política de Bolsonaro, os bolsonatos, que desembarcaram de forma ruidosa da nau bozonáutica. Por outro lado, aportam benefícios às altas patentes, com significado ainda indecifrável. Os acenos aos grupos evangélicos se consubstanciam na ocupação de cargos.

Se na campanha, brada contra o aparelhamento ideológico da estrutura do Estado, agora pratica aparelhamento com a outra ponta ideológica. O que tem predominado é o atendimento à pauta de costumes de caráter anti-iluminista, através de um processo de desconstrução da sociedade civil através de fechamento de conselhos, o descaso com as pautas ambientais e uma redefinição retrógrada de Cultura e Educação. Ocorre um processo de destruir as instituições com viés autoritário explicito. O presidente tem mantido sua postura belicosa, ferindo, por vezes, o decoro que o cargo exige. Emerge um projeto de poder, claro com a criação do “seu” partido, e de sua família, conformando um personalismo.

Comecei com Caetano, com Veloso termino. O governo de Bolsonaro mostra-se turvo, diferente da cajuína, cristalina, sendo um enigma ainda a ser decifrado. Aonde quer chegar? Motivos de apreensão não faltam.

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