Gênero foi um tema importante no Twitter das vereadoras eleitas nas capitais do Sul do Brasil?*

Gênero foi um tema importante no Twitter das vereadoras eleitas nas capitais do Sul do Brasil?*

REDAÇÃO

27 de julho de 2021 | 13h46

Rafaela Mazurechen Sinderski, Jornalista, Mestre em Comunicação e Doutoranda em Ciência Política (UFPR). Pesquisadora do grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP). E-mail: rafaelasinderski@gmail.com.

Para as mulheres, destacar-se em um meio predominantemente masculino como a política pode ser um desafio. Com elementos estruturais, institucionais e culturais contra si, candidatas a postos de poder precisam buscar formas de fazer suas vozes serem ouvidas. Algo difícil, considerando que a estrutura política liberal é essencialmente patriarcal, que os padrões culturais condenam a manifestação de ambições políticas em mulheres e que, para elas, há maior dificuldade de acesso a recursos importantes em uma corrida eleitoral, como tempo, dinheiro e visibilidade.

Todos esses obstáculos, identificados pelos pesquisadores Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli em um artigo sobre práticas de gênero e carreiras políticas, publicado em 2010, fazem com que as mulheres estejam, frequentemente, em posição de desvantagem perante seus concorrentes nas eleições. Diante de tantas disparidades, plataformas de redes sociais como o Twitter – que já têm assumido cada vez mais importância em processos eleitorais – podem ganhar um novo grau de relevância, tornando-se uma fonte de autonomia para as candidatas ao permitir que apresentem suas propostas e interajam com o eleitorado.

Sabendo disso tudo, passa a ser necessário observar como as candidatas se comportam em seus perfis nas redes sociais e o que escolhem discutir nesses ambientes, principalmente diante do contexto eleitoral de 2020, que, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apresentou um aumento no número de candidatas e eleitas em comparação aos pleitos municipais anteriores. Este é o objetivo aqui: identificar os assuntos mais tratados por mulheres parlamentares em suas contas no Twitter. O foco, contudo, está na temática de gênero. Será que esse assunto foi importante para as vereadoras eleitas nas três capitais do Sul do Brasil – Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre – durante a reta final de suas campanhas?

Para responder a essa questão, foi realizada uma análise de conteúdo automatizada, com auxílio do software Iramuteq para o ambiente de programação R, de 1.491 tuítes feitos entre 1 e 15 de novembro de 2020 – considerando que a votação do primeiro turno aconteceu no dia 15. As publicações foram mineradas diretamente das contas de 20 parlamentares sulistas eleitas – o número corresponde à quantidade de candidatas que, na época da eleição, tinham perfis ativos na plataforma. A relação de contas e candidatas estudadas está disposta neste quadro: 

Vereadoras eleitas nas capitais do Sul do país em 2020**

Entre as curitibanas, Carol Dartora (PT) despontou como aquela que mais postou em seu Twitter ao longo dos últimos dias de campanha eleitoral. Na capital paranaense, apenas o perfil de uma parlamentar, Flávia Francischini (PSL), não foi encontrado. Para as demais, o ranking de postagens seguiu, basicamente, a ordem de votação. A única candidata a quebrar a relação entre voto e número de postagens foi Indiara Barbosa (NOVO), vereadora mais votada de Curitiba, com 12.147 votos. Ela foi a concorrente menos ativa na rede social.

Número de tweets publicados pelas candidatas curitibanas

O padrão que começou a tomar forma em Curitiba, com certa associação entre volume de publicações e votação, não foi reproduzido nas outras duas capitais estudadas. Em Florianópolis, Carla Ayres (PT), segunda mulher mais votada, publicou cerca de oito vezes mais conteúdo do que o conjunto de todas as outras eleitas em sua cidade. É dela a maior soma de tuítes de toda a pesquisa, como mostra o gráfico abaixo.

Número de tweets publicados pelas candidatas florianopolitanas

Por fim, para Porto Alegre, cidade com o maior número de vereadoras eleitas – onze ao todo, dez delas com contas ativas no Twitter durante o período analisado –, Laura Sito (PT) foi a postulante com mais publicações, seguida de perto por Fernanda Barth (PRTB). Nas três cidades, candidatas do PT apresentaram a maior soma de tuítes publicados.

Número de tweets publicados pelas candidatas porto-alegrenses

Com os resultados da análise de conteúdo automatizada, foi possível compreender as temáticas que mais apareceram nas publicações das candidatas – e constatar que gênero não está entre elas. Na verdade, o tema mais significativo entre os tuítes mobilizou palavras como “econômico”, “pandemia”, “compromisso”, “cidadão” e “mandato”. Isso mostra que tratou, de maneira geral, dos cenários relacionados à pandemia de Covid-19, das consequências geradas por ela – como a crise econômica – e das propostas e posicionamentos sustentados pelas então candidatas diante do problema.

Temáticas mais abordadas pelas vereadoras, agrupadas a partir de termos estatisticamente relevantes e fortemente relacionados entre si

Em números, a segunda classe mais relevante foi a roxa, encontrada em 28,1% dos tuítes. Ela aglutinou textos relacionados à campanha eleitoral e à formação da imagem das postulantes, sendo dominada pelas publicações da candidata porto-alegrense Laura Sito (PT) – algo que pode ser atestado ao observar os termos relevantes do grupo, que são, entre outros, “Porto Alegre”, “manueladavila”, “laurasito” e “laura13300”.

Tuítes sobre a campanha de Carla Ayres (PT) também se destacaram. A presença dessa temática fica clara com a articulação de palavras como “carlaayres”, “Floripa” e “Florianópolis”. A candidata apoiou Professor Elson (PSOL) como concorrente à prefeitura da capital catarinense, da mesma forma que Sito apoiou a então postulante a prefeita de Porto Alegre, Manuela d’Ávila (PCdoB). Por isso, seus nomes surgem entre os termos em destaque na análise.

A última classe temática gerada pela pesquisa, de cor azul, cingiu 14,3% do conteúdo estudado e apresentou termos como “Biden”, “Bolsonaro”, “Trump”, “EUA” e “americano”. O contexto ligado a esse grupo tem clara conexão com as eleições estadunidenses, realizadas em 3 de novembro de 2020, que deram a vitória ao democrata Joe Biden.

Vê-se que a questão do gênero não chegou a aparecer entre os tópicos mais abordados pelas vereadoras, considerando a massa de suas postagens. Devido ao ano incomum, marcado pela pandemia de Covid-19 e pelas eleições em terras norte-americanas, outros assuntos – além daqueles típicos de campanha e formação da imagem – não emergiram como estatisticamente relevantes entre as publicações.

Contudo, o resultado apresentado deriva do conjunto de postagens feitas pelas parlamentares. Nuances acabam se perdendo em prol daquilo que é estatisticamente relevante para o todo. Por isso, uma nova análise léxica foi feita, dessa vez com nuvens de palavras e com uma segmentação dos tuítes por capital. O objetivo foi, mais uma vez, compreender se menções a gênero se destacaram nas postagens.

Nos 322 textos postados pelas representantes curitibanas, os termos que mais se destacaram foram aqueles ligados à campanha em si. “Apoio”, “obrigada”, “Curitiba”, “vote”, “confiança” e os nomes e números das candidatas indicam, como esperado, pedidos por e agradecimentos pelos votos conquistados, promessas de bons mandatos e interações típicas do período eleitoral. Mas, pela primeira vez, a análise aponta para discursos sobre gênero e raça, com o emprego de palavras como “mulher”, “mulheres” e “negra”.

 Nuvem de palavras para os tuítes das vereadoras curitibanas

Ainda assim, o uso dos termos encontrados ficou relegado a uma pequena parte do material. Entre os tuítes das vereadoras de Curitiba, 6,2% falam sobre “mulher” ou “mulheres” e 3,1% mencionam “negra”.

Para as vereadoras de Florianópolis, “mulher” e “mulheres” também apareceram como palavras de destaque. Os termos surgiram em 3,1% dos 662 tuítes – uma proporção ainda menor do que a encontrada para Curitiba. Além disso, diferentemente das postulantes curitibanas, nem todas as candidatas florianopolitanas fizeram uso das expressões em seus textos. Apenas Carla Ayres (PT) e Coletiva Bem Viver (PSOL) publicaram conteúdos com “mulher” ou “mulheres”.

Nuvem de palavras para os tuítes das vereadoras florianopolitanas

Por fim, Porto Alegre teve “mulher” ou “mulheres” surgindo em 5,3% de suas 507 publicações. Além disso, “estupro” surgiu como expressão significativa nos textos – presente em 1,7% do material analisado –, sendo outra expressão relacionada às discussões sobre gênero. Importante lembrar que, em novembro de 2020, o caso da jovem Mariana Ferrer ganhou as redes sociais e os meios de comunicação depois da divulgação de imagens que revelavam o tratamento degradante sofrido pela jovem durante a audiência de seu processo de estupro contra o empresário André de Camargo Aranha. O episódio foi comentado por muitas das vereadoras e, por isso, o termo aparece em destaque.

Nuvem de palavras para os tuítes das vereadoras porto-alegrenses

Os dados apresentados nos permitem chegar à conclusão de que, de maneira geral, as parlamentares eleitas nas capitais do Sul do Brasil não deram centralidade a temas ligados ao gênero durante as últimas semanas de suas campanhas eleitorais – ao menos não em suas contas no Twitter. Mas o que isso significa? Ter mulheres representantes políticas que não falam sobre gênero pode dificultar a passagem daquilo que a politóloga Hanna Fenichel Pitkin (1967) chama de representação simbólica e descritiva para uma representação que é substantiva. Em síntese, isso significa que, apesar de representantes e representadas compartilharem características e, muitas vezes, experiências, as eleitas podem não propor políticas efetivas que beneficiem as mulheres enquanto grupo.

Como já dito, não é uma novidade ou um exagero afirmar que o campo político é um terreno tomado pelos homens. As regras e estruturas da arena política impediram que, ao longo dos séculos, mulheres e membros de outros grupos minoritários ocupassem espaços de poder e subvertessem um cenário que ficou marcado pela sub-representação. Essa incontestável disparidade entre gêneros é evidenciada por dados: segundo o mapa Women in Politics, elaborado pela União Interparlamentar em colaboração com a Organização das Nações Unidas (ONU), dentre os 193 países avaliados, apenas 6,2% apresentavam uma mulher como chefe de governo em 2020.

A conjuntura é desanimadora, mas ainda é melhor do que aquela encontrada em tempos passados. Há cerca de quinze anos, também de acordo com a parceria entre ONU e União Interparlamentar, a taxa de mulheres ocupando o topo da liderança governamental era de 4,2% em 191 territórios observados. Dados do Banco Mundial mostram que, desde 1997, a presença feminina em parlamentos pelo mundo aumentou cerca de 13,6 pontos percentuais, passando de 11,6% para 25,2%. A luta por igualdade impulsionou algumas mudanças institucionais, como a implementação de cotas para gênero, e permitiu certos avanços envolvendo a participação política das mulheres – mesmo que esses avanços sejam dados a passos muito lentos. Como pregou a célebre congressista estadunidense Shirley Chisholm: “se não lhe derem um lugar à mesa, traga uma cadeira dobrável”. As mulheres têm, aos poucos, conquistado seus assentos nas salas onde a política é feita e debatida.

Contudo, a presença, por si só, não representa a contestação de disparidades na distribuição de poder. A fim de que a busca por igualdade se fortaleça e que cada vez mais direitos sejam conquistados por minorias políticas, é preciso debater temas que importam a tais grupos. Como bem lembram Miguel e Biroli, a confrontação de padrões de concentração de poder é necessária, ou há o risco de que a representatividade não leve a novos avanços que podem – e devem – culminar em cada vez mais inclusão.

Em suma, gênero deve ser debatido dentro e fora dos parlamentos e essa discussão precisa ser encabeçada pelas mulheres que, contra todas as barreiras impostas pelo sistema, conseguiram seu merecido espaço no campo político.

Notas

* Esse estudo foi originalmente apresentado no I Colóquio do Observatório de Elites: Políticos Profissionais em Análise, promovido pelo Observatório das Elites Políticas e Sociais do Brasil (Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná). Essa e outras pesquisas serão publicadas em um livro digital em breve. Acesso ao evento: http://www.cienciapolitica.ufpr.br/coloquioelites/

** Informações coletadas em janeiro de 2021. É possível que, depois disso, contas tenham sido criadas ou alteradas.

Referências:

BANCO MUNDIAL. Proportion of seats held by women in national parliaments (%). 2020. Disponível em: https://data.worldbank.org/indicator/SG.GEN.PARL.ZS. Acesso em: 14 jan. 2021.

CERVI, E. U. Análise de Conteúdo aplicada a Redes Sociais Online. In: CERVI, E. U. Manual de Métodos Quantitativos para iniciantes em Ciência Política. v. 2. Curitiba: CPOP, 2019. p. 101-128.

MIGUEL, L. F. BIROLI, F. Práticas de gênero e carreiras políticas: vertentes explicativas. Revista Estudos Feministas, v. 18, n.3, p.653-679, 2010.

NORRIS, P.; INGLEHART, R. Cultural obstacles to equal representation. Journal of Democracy, v. 12, n. 3, p. 126-140, 2001.

PANKE, L. Campanhas eleitorais para mulheres, desafios e tendências. Curitiba: Editora UFPR, 2016.

PITKIN, H. F. The Concept of Representation. Berkeley: University of California Press, 1967.

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