Fundo do poço, caquistocracia e os recursos humanos do governo

Fundo do poço, caquistocracia e os recursos humanos do governo

REDAÇÃO

19 de março de 2021 | 12h16

Amon Barros, Doutor de Administração (UFMG), Professor de Administração da Graduação, Mestrado e Doutorado da FGV – EAESP

A profundidade da incompetência do governo Bolsonaro impressiona. Nada que seja erro, ignorância ou falta de planejamento parece fora do escopo da incompetência do atual governo brasileiro. Quando a Reuters revelou que pessoas no ministério da saúde, trocaram mensagens em que levavam à sério a cloroquina em substituição às vacinas, tudo ficou mais explícito. As pessoas decidindo sobre vacinas, realmente acreditavam que podiam substitui-la por cloroquina e afins. O Brasil vive o resultado dessas decisões.

Desde que ficou claro que o General Eduardo Pazuello seria defenestrado do Ministério da Saúde, algumas pessoas nutriram esperanças de que o novo nome viria para resolver o problema. Ledo engano. O processo de recrutamento e seleção de Bolsonaro me faz lembrar de contratações feitas pelo Cruzeiro no ano que antecedeu a queda. Aliás, o Cruzeiro serve para uma bela metáfora para o Brasil, todavia isso fica para outro texto.

Mas, por que esse governo consegue ser pior e contratar abaixo do que se espera, mesmo tendo dinheiro, prestígio e bons técnicos disponíveis? Porque ele filtra quem tem qualquer tipo de qualificação e joga fora. O filtro retém quem já se comprometeu moralmente com o projeto bolsonarista, quem não tem talento para uma posição fora do governo, ou quem acredita que há algo a se salvar nos escombros enquanto faz parte da equipe de demolição. Assim se estabelece a chamada caquistocracia, o governo dos mais despreparados, que no caso brasileiro vem com “numa mistura de mal com atraso”.

O líder convoca sua equipe pela crença que elas têm, pela sua devoção ou pela capacidade de aceitar calado o que está acontecendo. Essas pessoas se submetem, porque são crédulas, querem uma boquinha, ou para aplacar suas paixões. Qualquer bom-senso, permite perceber a espiral descendente que draga quem se aproxima do governo.

Além disso, o equilíbrio entre talento, bom senso e ética, dificilmente permite à pessoa aceitar ser agente do desastre que se desenrola no Brasil em todas as dimensões, mas que fica mais evidente na sua mais grave crise: um país com cerca de 3% da população do mundo e que vem registrando entre 25% e 30% dos mortos pelo coronavírus. Mas, logo mais pessoas com fome verão e o governo se regozijar que a culpa é do “fique em casa” e não dos esforços do Executivo em sabotar quarentenas e o seu parco interesse em estabelecer o auxílio emergencial como uma alternativa para reduzir o desastre.

Os funcionários competentes que sobram no governo federal, os que ainda tem alguma fibra moral ou bom senso, em geral são parte do quadro permanente da burocracia em seus vários órgãos, autarquias etc. Esses fazem o que podem para desviar do iceberg ou, mais realisticamente, estão de balde na mão tentando tirar a água do barco, para que outro “capitão” possa assumir uma nau com o mínimo de estrutura que a permita navegar. Essas pessoas veem seus esforços sabotados, são perseguidos e silenciados. Isso muitas vezes acontece sob pressão violenta, para que se tornem sujeitos passivos. Outros, pensando que estão lutando pelo Brasil, na verdade apenas dão sobrevida e combustível ao Bolsonarismo. Banalidade do mal, diriam alguns, senso de dever, afirma outros.

Cabe ainda lembrar que a corrida ao fundo do poço é nacional. Bolsonaristas nos vários poderes e entes federativos se posicionam como novos candidatos a se submeter às ordens do Messias e atender aos desejos daquele que não é coveiro, mas faz uma política de estímulos ao emprego nessa área. Nunca tantas pessoas foram enterradas. Inclusive entre os pobres coveiros, que são os últimos a lidar com as consequências nefastas do governo Bolsonaro.

Em administração, sempre se salienta o papel importante do líder em guiar a mudança organizacional. O papel do clima e da identidade das organizações para se conseguir recrutar, selecionar e reter talentos. Entretanto, o que a teoria não discute tanto são organizações que não buscam pelo melhor, do ponto de vista dos resultados, mas, apenas por aquilo que se adequa ao chefe. O governo atual é um caso de mudança de “sucesso” numa organização complexa, mas com efeitos perniciosos para o futuro da própria organização.

Resta torcer para que sob os escombros das instituições sobrevivam pessoas capazes de reconduzir o Estado brasileiro de volta à funcionalidade. E que a administração atual não consiga cortar todos os laços com a sociedade civil, que é fonte de demandas, ideias e controle para o bom funcionamento do governo. Claro, isso quando o governo não se preocupa em atender apenas um punhado de eleitores e sua própria perpetuidade.

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