Falta de salário e políticos oportunistas nas Polícias: uma combinação explosiva

Falta de salário e políticos oportunistas nas Polícias: uma combinação explosiva

REDAÇÃO

26 de agosto de 2021 | 11h09

Rafael Alcadipani, Professor Titular da FGV – EAESP e Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

A revelação de que um oficial da PM de São Paulo conclamava seus contados de mídia social para irem à manifestação a favor do Presidente levou a questionamentos a respeito de um possível apoio das polícias a uma aventura contra a democracia por parte de Bolsonaro. É inegável que até hoje Bolsonaro encanta mentes e corações de muitos policiais. Há uma identificação ideológica entre o Presidente e muitos dos membros das forças de segurança. Porém, uma coisa é um policial apreciar as ideias e posições do mandatário da nação outra é ele atuar ao arrepio de todos os seus regulamentos disciplinares e colocar a sua carreira e o sustendo de sua família em risco por conta de uma ideologia política extremista. Não há dúvidas de que existem indivíduos armados radicalizados pró presidente nas instituições policiais e que talvez algum desvairado decida fazer uma loucura. Mas, esta está longe de ser a regra.

Em São Paulo, o problema está na relação entre o governador e as instituições policiais. Durante a campanha eleitoral, o Governador do Estado prometeu inúmeras vezes que faria da polícia de São Paulo a mais bem paga do país. A promessa acabou não sendo cumprida. O problema é que os policiais paulistas estão há anos sem receber nem a reposição inflacionária em seus salários. Parte importante dos policiais tem dívidas e precisam fazer “bico” para se sustentar. A alta inflação do país reduz ainda mais o poder de compra dos policiais a cada dia. De uma forma muito simples, é como prometer um presente para o seu filho que você não pode dar. Não tem como querer que seu filho não fique frustrado.

Além disso, o governador que se apoiou em Bolsonaro para a sua eleição, logo mudou de lado. A promessa de salário não cumprida e a mudança de lado passam para os policiais a ideia de um mandatário cuja palavra não pode ser confiada. Confiança é um dos pilares da cultura policial. Além disso, o governador em inúmeras situações agiu de forma pouco polida com relação a oficiais e delegados, como no caso em que chamou a atenção em público de um Coronel da PM, dentro do prédio do Comando Geral da instituição ou então foi deselegante com delegados de polícia por conta da cor de um batente de uma porta em uma inauguração. A antipatia pelo governador é muito maior do que a simpatia pelo Presidente. Esta situação é potencializada em um ano pré-eleitoral onde sempre surgem pessoas usando o sofrimento dos policiais para conseguir votos e em um contexto em que o Presidente tenta usar a sua aproximação com as polícias como forma de chantagear a democracia.

A situação salarial pode ser sim um gatilho para uma tentativa de motim policial. Não faltarão lideranças bolsonaristas a usar o flagelo dos policiais em nome dos seus interesses eleitorais. Porém, quando o regimento disciplinar for usado com rigor, ninguém irá apoiar os que perderão sua carreira.  Já passou da hora de haver uma articulação para que os policiais vejam uma luz no final do túnel em relação as suas condições de trabalho. Quais ações do governo Federal melhoraram a vida dos policiais? Por outro lado, as instituições policiais precisam atuar para não deixar os radicais virarem a voz pública da polícia. A antipatia da população só irá aumentar contra quem usa a delegação do poder de polícia para chantagear a sociedade e dificilmente irá apoiar melhorias salariais em quem passa a impressão de golpista. A atual situação requer equilíbrio e cuidado para que nenhuma aventura aconteça, pois no final das contas quem irá pagar o preço de uma revolta serão as instituições policiais e seus membros, não os políticos agitadores de plantão.

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