Fake news e a pandemia: para além das medidas legislativas

Fake news e a pandemia: para além das medidas legislativas

REDAÇÃO

08 de junho de 2020 | 15h25

Morgana G. Martins Krieger, Doutora em Administração Pública e Governo pela FGV-EAESP e integrante do NEB (Núcleo de Estudos da Burocracia).

Gabriela Lotta – Professora de Administração Pública da FGV-EAESP e coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB FGV-EAESP).

Ana Carolina Nunes, doutoranda em Administração Pública e Governo pela FGV-EAESP e integrante do NEB (Núcleo de Estudos da Burocracia).

Gabriela Beserra Solano, enfermeira, especialista em auditoria, mestre em saúde da família, trabalha na Vigilância em Saúde do Município de Guamaré-RN e atua como enfermeira assistencial no Hospital Universitário Ana Bezerra na Ala COVID.

Heloisa Maria de Morais Giannichi, pedagoga, mestra em educação pela UNIFESP. É diretora de escola e atualmente atua na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, na divisão de ensino fundamental e médio.

Roberta Ricardes Pires, enfermeira com pós-graduação em Gestão Pública. Atua na Secretaria de Estado da Saúde na Área de Saúde da Criança do estado de São Paulo.

Sabine Righetti, Doutora em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Coordena a Agência Bori, projeto de divulgação científica.

 

Já não é novidade que as fake news atacam e colocam em risco a nossa frágil democracia. Neste período pandêmico, elas mostraram ser um risco também à saúde pública. Por exemplo, o repositório de notícias falsas do Ministério da Saúde [1] traz notícias que variam desde a não existência do vírus, passando por supostos métodos preventivos (como tomar café ou chás, ou beber água de 15 em 15 minutos), chegando até à falsa notícia de que máscaras distribuídas pelo próprio Ministério já viriam infectadas pelo vírus. Voltando ao assunto da democracia, a experiência da pandemia nos demonstra como as fake news se materializam no cotidiano da relação entre cidadão e agente estatal. Afinal, elas têm efeitos diretos na entrega e nos resultados das políticas públicas.

 

Dentro do campo de políticas públicas entende-se que o discurso tem poder performático. Isto é, para além do que alguém diz ou escreve em um texto encaminhado por redes sociais, é possível que o receptor daquele texto siga as instruções, colocando em prática aquilo que antes era “só” discurso. Um exemplo prático foram as mortes no Irã de pessoas que ingeriram metanol, acreditando na notícia falsa de que o álcool mataria o vírus. Por isso, em um momento pandêmico no qual as instruções do que fazer ou de como se prevenir são imprescindíveis, informações improcedentes podem agravar ainda mais o cenário, inclusive gerando questionamentos e dificultando a atuação daqueles que estão na ponta dos serviços lidando com os efeitos do Covid-19.

 

Este foi o tema do 10o encontro do Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB – FGV/EAESP), que contou com a participação de profissionais da linha de frente dos serviços. “Elas (as fake news) afetam diretamente nosso trabalho, porque já é difícil por si só estar passando por uma pandemia, e mais difícil ainda é a gente ter que continuar dizendo que aquilo que está sendo veiculado não é real”, diz Gabriela Beserra Solano, atuante na Vigilância de Saúde e enfermeira na Ala Covid do Hospital Universitário Ana Bezerra, do município de Guamaré-RN.

 

O conflito entre fake news e políticas públicas não tem nada de novo. Como aponta Roberta Ricardes Pires, enfermeira que integra a Secretaria de Estado da Saúde na Área de Saúde da Criança em São Paulo, há anos a área da saúde vem lutando contra as notícias falsas que colocam em xeque a efetividade e a real intenção das vacinas. Ela também menciona fake news que envolvem aleitamento materno, levando mães a exigirem dos médicos a prescrição de fórmulas, pois o leite – segundo as notícias falsas – “não seria forte o suficiente”. Heloisa Giannich, pedagoga, Diretora de Escola, atualmente está como integrante da Divisão de Ensino Fundamental e Médio da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, aponta para um cenário mais complexo que correlaciona as fake news com a desqualificação do serviço público. Para ela, “como tudo que é público é considerado ruim, quando uma notícia falsa corrobora com isto, é muito mais fácil de acreditar”. Segundo Heloisa, a disseminação destas notícias torna o trabalho no setor público ainda mais difícil, pois recursos e tempos são necessários para se preparar para as informações falsas, que inevitavelmente surgirão.

 

Mas por que as pessoas acreditam em fake news? O que torna essas notícias tão “atraentes? Sabine Righetti, coordenadora da Agência Bori [2], aponta para dois fatores essenciais. O primeiro deles é que as notícias falsas despertam uma emoção, deixam o receptor extasiado, alimentam raiva, paixão ou euforia. Esses sentimentos servem de gatilho tanto para que as instruções da notícia falsa sejam seguidas, quanto para que a notícia seja compartilhada. O segundo elemento é que as notícias falsas costumam estar alinhadas com o que o receptor pensa: “como a notícia pode ser falsa se ela corrobora justamente com aquilo que eu acredito?”. A junção desses fatores muitas vezes faz com que o receptor compartilhe a notícia, mesmo sabendo que ela é falsa!

 

Mesmo que haja em certos casos uma disseminação consciente de notícias falsas, é arriscado responsabilizar cidadãs e cidadãos por não conseguirem reconhecê-las. No momento da pandemia, quando existem diversas fake news referentes à área de biologia/epidemiologia, o baixo conhecimento científico da maioria generalizada dos cidadãos brasileiros dificulta este discernimento, aponta Sabine. A última pesquisa de percepção pública da ciência feita pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) [3] mostra que 90% da população brasileira não sabe mencionar o nome de um cientista ou de instituição que faça pesquisa no país. Não entender como funcionam pesquisas científicas e a ciência é característica comum à maior parte das pessoas – mesmo aquelas consideradas escolarizadas.

 

Outro aspecto que dificulta o discernimento das fake news é a pouca tradição de leitura e de leitura de notícias pela população brasileira. Assim, faltam elementos para esta diferenciação entre o que é falso e verdadeiro. No programa nacional de educação midiática do Governo da Inglaterra, que envolve estudantes do ensino médio, o primeiro passo é a busca da notícia na internet. Enquanto isso, no Brasil, a maior parte da população acessa a internet pelo celular – com planos de dados que, muitas vezes, limitam-se às redes sociais; 20% dos domicílios permanecem sem acesso à internet; e a leitura de notícias não aparece entre as finalidades mais comuns de utilização da internet [4]. Isso só potencializa a disseminação de mensagens de conteúdo pouco confiável.

 

O terceiro aspecto que dificulta o discernimento da população a respeito das fake news é que as próprias autoridades do país têm propagado informações falsas. No final de abril, por exemplo, uma fake news divulgada em rede nacional por uma deputada federal levou familiares de pessoas que faleceram por Covid-19 a abrirem os caixões durante o enterro, para verificar se eles não estariam vazios. Não apenas descobriram que a morte era verdadeira, como parte da família foi contaminada. Mas como não acreditar na notícia falsa, se a própria autoridade – em quem deveríamos confiar – está compartilhando esta notícia?

 

Assim, culpabilizar o cidadão receptor das fake news não parece o caminho mais assertivo para combater sua propagação. Há outras formas de agir, para além das medidas legislativas que estão sendo discutidas (está tramitando agora no Senado o projeto de lei n. 2630 [5] e, em 2018 já havia 14 projetos de lei relativos a esta temática no Congresso).

 

O município de Guamaré, no Rio Grande do Norte, por exemplo, tem adotado medidas para informar o cidadão das notícias verdadeiras. Segundo Gabriela Solano, é importante responder às fake news logo que elas surgem, para combater os efeitos causados pela notícia falsa. Por exemplo, quando houve a primeira morte suspeita por Covid-19 na cidade começaram a disparar as notícias falsas de que não havia morte alguma, e que a prefeitura havia classificado como óbito por Covid-19 pois o Governo Federal repassaria verba a cada morte causada pelo vírus. Para isso, foi importante estabelecer canais de informação com a população. Para além do carro de som alertando a população, a prefeitura começou a realizar lives semanais com profissionais da área da saúde, para compartilhar suas realidades com a população: “quando a pessoa vê a enfermeira, que atendeu, fez pré-natal deles, gera maior ligação com a comunidade”. Ainda, os grupos de whatsapp criados com todos os grupos profissionais da área de saúde e com o Comitê Intersetorial de Enfrentamento à Pandemia com representantes dos diversos setores educação e assistência social, por exemplo, e reuniões semanais são canais utilizados para uniformizar as ações e disseminar as informações verdadeiras, para que sejam repassadas para todos os setores e a comunidade.

 

Em municípios maiores ou governos estaduais, pela grande quantidade de profissionais, a comunicação direta com profissional da ponta não é tão fácil. No município de São Paulo, a Secretaria de Educação está desenvolvendo, semanalmente, processos formativos e informativos com as 13 regionais de ensino. Já as regionais de ensino têm encontros quinzenais com as diretorias de escola e mensais com todos os professores. E tudo isso online em tempos de pandemia. Eles também estão investindo em lives, contam com presença ativa nas redes sociais, e criaram um portal específico da Secretaria Municipal de Educação para apresentar informações sobre a pandemia. No entanto, de acordo com Heloisa, a grande dificuldade é ainda fazer com que a informação chegue de forma coerente para as famílias, que agora não podem ir fisicamente à escola. Na Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, também são usados grupos de whatsapp para diferentes frentes de trabalho, para repasse de informações verdadeiras. A figura do articulador regional, pessoas ligadas à secretaria mas que trabalham levando informações para as regiões, e o desenvolvimento de notas técnicas sobre cuidados infantis e cuidados de gestantes durante a pandemia são elementos importantes para fazer prevalecer a informação verdadeira.

 

Analisando de forma mais abrangente as possíveis estratégias, Sabine aponta que elas devem ser criadas pelo poder público e pelos diferentes setores científicos, para que a informação chegue ao cidadão de forma mais humanizada. Para isto, o papel da comunicação e de comunicadores assume total relevância. É necessário que os cientistas sejam incentivados a conversar com a imprensa e compreendam a importante ponte que a mídia estabelece entre a produção científica e a sociedade. Isso inclui aprender a falar para além das salas de aula ou laboratórios. A divulgação científica nunca se fez tão importante (inclusive para combater o negacionismo científico que permeia a difusão das fake news), mas ela precisa chegar à sociedade de maneira simples e direta.

 

Essas mudanças processuais, de comportamento e de proximidade com o cidadão (seja da ciência, seja de órgãos estatais) se demonstram cada vez mais necessárias para que informações verdadeiras circulem e consigam barrar os efeitos das informações falsas. Um arcabouço jurídico que coíba a produção industrial de fake news e que investigue quem está lucrando com estes compartilhamentos é fundamental. No entanto, para que esta mudança seja perene e para que a população consiga identificar a falsidade de uma notícia ou de um rumor, não existe uma fórmula mágica para além da educação midiática e científica e da humanização da informação acadêmica. Finalmente, as informações verídicas precisam estar disponíveis por fontes confiáveis. Por isso, os profissionais que atuam diretamente com a população têm papel fundamental na disseminação de informações verdadeiras, pois são pessoas com a confiança das comunidades onde atuam.

 

[1] https://www.saude.gov.br/component/tags/tag/novo-coronavirus-fake-news

[2] https://abori.com.br

[3] https://www.cgee.org.br/web/percepcao

[4] https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2101705

[5] https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/141944

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