Existem momentos em que você precisa usar a razão e em outros o coração

Existem momentos em que você precisa usar a razão e em outros o coração

REDAÇÃO

23 de junho de 2021 | 14h05

Gustavo Correa Mirapalheta, Engenheiro Elétrico (UFRGS) e Doutor em Administração de Empresas (FGV – EAESP). Professor de Tecnologia e Ciência de Dados da FGV – EAESP. Consultor em aplicações de Inteligência Artificial em Negócios. Foi diretor e gerente de vendas de software na Sun Microsystems e IBM Brasil. Seus interesses de pesquisa estão nas áreas de Deep Learning e Quantum Computing

Para impedir que uma pessoa sofra linchamento é preciso coragem, sim, mas antes de tudo é preciso usar a razão. É a razão que nos dirá que não importa o que a pessoa tenha feito, um linchamento é algo fundamentalmente errado. É neste momento que devemos pensar: é necessário usar de tanta violência assim para resolver este problema? Não haveria outras formas de resolvê-lo?

Para se doar a nossos filhos, nossos pais, nossos cônjuges, nossa carreira, nossa vida, também é preciso coragem. Mas, neste caso, é preciso usar nosso coração. Será ele o nosso melhor guia, nas noites sem sono, seja no trabalho, seja na nossa família. Será naquela hora em que apesar do cansaço, continuaremos em frente, pois gostamos do que fazemos, por quem fazemos.

Entre estes dois extremos, seja no primeiro, quando temos de controlar nosso coração que nos dirá para seguir “com o rebanho” e usar fundamentalmente a razão, seja no segundo, quando temos de ignorar a nossa razão que nos aconselha a parar e usar nosso coração para simplesmente seguir em frente, existe todo um universo de possíveis situações que irá nos testar.

Na maioria das vezes, teremos de usar as duas coisas, razão e coração. Temos alguma fórmula mágica para discernir sempre o quanto de cada um usar? Não. Mas, sempre é bom lembrar que a razão é uma melhor companheira para te dizer o que você não deve fazer e o coração justamente para o que você deve fazer. Sempre que um deles estiver em profundo desacordo com o outro, pare e pense um pouco mais.

Esta longa introdução é para dizer que sem a capacidade de discernir duas situações, sem a capacidade de “discriminar” entre elas, nunca saberemos como agir. Ou nos tornaremos frios robôs sem sentimento, ou voluntariosos revolucionários, prontos a destruir algo que entendemos ser “o inimigo”.

A discriminação (capacidade de separar) é uma atividade básica do ser humano. Sem ela nossa vida se tornaria impossível. Mas, para discriminar entre duas situações precisamos entendê-las, conhecê-las, é necessário enfim que tenhamos informações, dados sobre as mesmas. Mas o que fazer se os dados que temos não são suficientes para que tomemos uma decisão perfeitamente racional? Temos que lançar mão de ideias anteriores ao momento em que vivemos, temos de lançar mão das ideias pré-concebidas. Em outras palavras temos de lançar mão de um “preconceito”.

Veja que o uso de um preconceito é neste caso “autorizado” apenas quando a nossa razão falhar. Não no sentido de estar certa ou errada, mas no sentido de não ser capaz de nos proporcionar uma decisão segura. Por outro lado, se mesmo contra todos os argumentos da razão, continuamos a tomar uma decisão baseada em preconceito, seu uso será errado. Seremos, além de teimosos, preconceituosos no pior sentido da palavra.

A sociedade como um todo flutua entre extremos. Temos a pretensão de conhecer as regras absolutas de tudo, sempre. A verdade é que as situações do dia a dia são muito mais complexas do que um único sistema de “verdades” (ops, regras) pode nos proporcionar. No momento atual, as palavras discriminação e preconceito são tidas como exemplos do mal em sua perfeição, devendo ser eliminadas a todo custo. No entanto eliminar as duas das nossas vidas apenas acabará tornando impossível o viver como indivíduos.

Em resumo: se te provarem que nem sempre sua ideia está certa, tente pelo menos não agir quando te provarem que ela está errada. Em outras palavras, discrimine o errado do todo com a sua razão. E o certo do restante com o seu coração.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.