Esticando a corda: Covid-19 e a tripla crise brasileira

Esticando a corda: Covid-19 e a tripla crise brasileira

REDAÇÃO

01 de novembro de 2021 | 22h17

Antonio Silvio K. L. Freitas, Mestrando em Ciência Política (PPGCP/UFPI). Especialização em Literatura e Estudos Culturais (UESPI). Pesquisa na linha “Democracia, comportamento político e cidadania”. Contato: silviofreitas@ufpi.edu.br

Isadora Leal Carvalho, Mestranda em Ciência Política (PPGCP/UFPI). Especialista em Direito Público e em Direito Privado (UFPI) em convênio com a Escola Superior da Magistratura do Estado do Piauí (ESMEPI). E-mail: isadoralealcarv@hotmail.com.

Passado mais de um ano de pandemia, os efeitos colaterais da crise sanitária são sentidos a nível global. No caso do Brasil, a situação tem se revelado muito grave. Além do desemprego e a fome, evidencia-se ainda um terceiro problema: a crise política.

A pandemia no mundo já custou a vida de 4.886.917 milhões de pessoas. O Brasil já ultrapassa a marca de 600 mil mortes, tendo sido 405 mil apenas em 2021, o que o torna o segundo país do mundo em número de mortes total, de acordo com os dados da Universidade Johns Hopkins[i].

O ano de 2020 foi assustador para as economias mundiais. Mas 2021 ainda continua provocar apreensão, apesar do otimismo com o avanço da vacinação e reabertura quase total da maioria das atividades econômicas e sociais. Para OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), no seu relatório de setembro de 2021, reduz as expectativas de crescimento, destacando as “desigualdades” de crescimento em volta do mundo diante da crise da covid-19. As projeções para o Brasil, segundo a OCDE, estão abaixo da média de crescimento mundial.

No Brasil, o cenário econômico atual é altamente desafiador. O desemprego atinge ainda cerca de 13,7% da população, ou seja, isso significa cerca de 14,1 milhões de pessoas a procura de trabalho. Além disso, o velho medo da inflação vem assombrando a maioria dos brasileiros, que segue descontrolada e já atingindo o acumulado de alta de 7,02% e no acumulado de 12 meses, alcançando 10,05%, superando a marca de dois dígitos[ii]. Os altos e baixos da economia atingem de forma desigual não apenas o centro, mas de forma mais acentuada as economias periféricas.

No entanto, temos um outro problema que boa parte do mundo não tem: a crise política. Isso nos leva a outro patamar, não é uma crise dupla, mas tripla[iii]. Se os efeitos negativos da economia são resultado colateral da primeira crise, imaginem um terceiro problema atacando a nossa baixa imunidade.

Não é apenas um problema de gestão pública ou coordenação e planejamento no enfrentamento da crise sanitária e dos impactos econômicos[iv]. Mas um projeto de poder, que em presunções fora da realidade, levou a uma crise institucional e uma busca desesperada para esticar a corda da ruptura democrática.

Vai muito além de um negacionismo radical da extrema-direita e estimulado pelo próprio governo de forma quase oficial, mas um enfrentamento sem “discurso racional” sobre as próprias instituições e os demais poderes que compõem a república brasileira. Das milícias digitais, passando pelo ataque planejado ao STF, um gasto de energia (que agora faz falta) desnecessário sobre a legitimidade das urnas e o próprio TSE, até o que considero como ponto auge dessa crise que foi a tentativa de ruptura democrática estimulada pela a base de apoio do governo, de radicais a moderados, com financiamento material e simbólico do presidente da república.

Todavia, sentido a “firmeza trêmula”[v] das instituições, o não consentimento de uma parte considerável das elites políticas, econômicas e militares do país, além de um forte recado do mercado, quem não lembra da queda de 3% da Ibovespa após os ataques do chefe de estado ao próprio sistema democrático em Brasília e na avenida Paulista, em São Paulo.

Uma trégua foi arranjada pelo próprio governo após recuar depois dos atos, chamados de golpistas por uns e de atos pela liberdade por outros, numa tentativa de apaziguar o próprio “contragolpe” ou “última tentativa dentro das quatro linhas” para governar.

Portanto, sabemos que o mundo também está em crise, mas enfrentamos muito mais do que isso, temos uma tripla crise no Brasil. Talvez, o restante do mundo sairá mais rápido disso, enquanto o brasileiro caminha para anos bastante difíceis.

Como diria o pensador William Ward, “na tempestade, o pessimista reclama do vento. O otimista espera que ele mude. O realista ajusta as velas”. Assim, não tem como superar a tempestade apenas esperando que ela mude de uma hora para outra. Temos que ser realistas, ter coragem para enfrentar e ajustar às velas, caso necessário. Enfrentar o mar sem bússola é um grande perigo.

Notas

[i] MAPA GLOBAL. COVID-19 Dashboard by the Center for Systems Science and Engineering (CSSE) at Johns Hopkins Universit. Coranavirus Resourse Center – Johns Hopkins University & Medicine. Disponível em: https://coronavirus.jhu.edu/map.html. Acesso em: 15/10/2021.

[ii] IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – Painel de Indicadores. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/indicadores#desemprego. Acesso em: 19/10/2021.

[iii] Diferentemente, como aborda o texto de Thomas V. Conti “Crise Tripla do Covid-19: um olhar econômico sobre políticas públicas à pandemia”, que faz uma análise do contexto e os possíveis impactos da crise tripla da Covid-19, entendendo como comportamental, sanitária e econômica. Todavia, o enfoque aqui diante do contexto brasileiro, especificamente, é dado à crise política e seus impactos não apenas nas relações institucionais, mas seus dobramentos na política econômica e social do país. Sugiro a leitura Thomas V. Conti. Crise Tripla do Covid-19: um olhar econômico sobre políticas públicas de combate à pandemia. Versão 1.1 – 6 de abril de 2020. Disponível em: http://thomasvconti.com.br/pubs/coronavirus/.  Acesso em 19/10/2021.

[iv] Para uma compreensão mais ampla e consistente do tema sugerimos o artigo sobre como as lideranças enfrentam a pandemia em cinco países da América Latina e que no caso especifico do Brasil é abordado pela as pesquisadoras Magna Inácio, da Universidade Federal de Minas Gerais; Marta Mendes,  da Universidade  Federal  de  Juiz de Fora; e Luciana Santana, doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Logo de ínicio as autoras já enfatizam “La inacción  deliberada  del  poder  ejecutivo  federal  y  la  descoor-dinación  federal  colocaron  al  país  entre  aquellos  con  el  peor  desempeño  frente  a  la pandemia” (INACIO et al., 2021, p. 230). Inácio, M. M., Chasquetti, D., Welp, Y., Campos, M., López García, A. I., Schenoni, L. L., Santana, L., Mendes Da Rocha, M., & Tumelero, A. (2021). ¿Tiempos de prueba o poniendo a prueba a los presidentes? COVID-19 desafiando liderazgos en América Latina. IBEROAMERICANA. América Latina – España – Portugal, 21(76), 203–239. https://doi.org/10.18441/ibam.21.2021.76.203-239. Disponível em: https://journals.iai.spk-berlin.de/index.php/iberoamericana/article/view/2826. Acesso em: 22/10/2021.

[v] A ideia de “firmeza trêmula” pode parecer paradoxal, mas o sentido empregado aqui se refere que apesar da crise as instituições em si estão funcionando diante de sua “concepção formal”, numa perspectiva baseada na análise de Rubens R.R. Casara. Entretanto, os atores políticos estão de alguma forma se omitindo e/ou recuando no que tange no “conteúdo e substância” em defesa das instituições democráticas, o que acaba no que considero como uma “firmeza tremula”. Sugiro a leitura de: CASARA, Rubens R.R. Estado pós-democrático: neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

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