Estado e a sociedade contra o COVID-19 na Espanha

Estado e a sociedade contra o COVID-19 na Espanha

REDAÇÃO

16 de março de 2020 | 11h36

Marcos Fernandes Gonçalves da Silva, é professor adjunto nos cursos de Administração Pública e Administração de Empresas da FGV/EAESP. Nesse semestre 1.2020 está em período pós-doutoral em Madrid na Espanha.

Terça-feira (10/03), como de hábito, abri o celular 6:30 para pegar as notícias e mensagens. A Universidade de Salamanca informa-me que a conferência que daria em abril está suspensa. Sabia antes dela me avisar. Acordei na noite anterior com uma sensação ruim, de que algo grave estaria por vir. Aprendi com Sidarta Ribeiro que nossos sonhos “preveem” o futuro. Na verdade, a evolução transformou nosso cérebro numa máquina que estabelece correlações simples e que evita o desconforto do raciocínio mais complexo.
Por que falo isso? No domingo anterior vi que a razão da progressão de casos passava dos 0,33. Acendeu-se sinal amarelo lá no meu inconsciente. Claramente, nos próximos dias algo iria acontecer.

Entre quinta-feira e sexta, universidades, escolas e creches suspenderam as atividades. Paulatinamente, os munícipes aqui em Madrid deixavam, mesmo sem força da lei, de ir aos bares e às academias. Quando cheguei quinta-feira na academia, um prédio de 5 andares, e vi menos de 10 pessoas treinando percebi, de forma definitiva – e agora mais consciente – que acabou. Casa já.

O governo central declarou na quinta-feira que o país passava por uma situação de emergência sanitária e econômica e, formalmente, no sábado, decretou Estado de Alarma. De acordo com a Constituição, é possível declarar “um estado de alarme, em todo ou em parte do território nacional, quando ocorrem crises sanitárias que supõem sérias alterações à normalidade”.

Faço um breve relato, com fatos objetivos e evidências anedóticas, para mostrar a vocês como tudo se deteriora muito rápido numa crise como esta e, por causa disso, como é importante a ação imediata do Estado e porque devemos evitar dissonância cognitiva.
Qual foi a estratégia adotada pelo Estado? Em primeiro lugar, comunicação transparente e persuasiva, baseada em ciência. Imaginem aquele famoso discurso de Churchill, do sangue, suor e lágrimas, mas feito homeopaticamente, ao longo de 5 dias. Neste período, cotidianamente o primeiro ministro Pedro Sánchez (PSOE), ministro da saúde e autoridades fizeram declarações oficiais, apresentando dados e preparando psicologicamente a população. Ao se apresentar com falas curtas, objetivas e firmes, Sánchez foi ganhando a confiança das pessoas. Quem conhece a Espanha sabe como as comunidades autônomas da Catalunha e País Basco são arredias com relação ao poder central. Pois bem, o decreto baixado sábado tira a autoridade dos poderes executivos locais: no domingo todos declararam apoio à medida.

O que é o estado de alarme? Vamos lá: (i) ele afeta todo o território nacional, por um período de 15 dias (segunda-feira, dia 16/03, o ministro dos transportes já insinuava prorrogação do prazo), (ii) autoridade competente é Madrid, com mando sobre todas as forças de segurança, (iii) cidadãos só poderão circular para ir ao trabalho, comprar comida, remédio e combustível (as pessoas somente podem andar sozinhas na rua), (iv) todo comércio, exceto a distribuição de alimentos e necessidades básicas, fechados, com cultos e cerimônias limitados, (v) o Estado pode confiscar temporariamente propriedade privada, menos residências. Aliás, a partir de 16/03, todos os hospitais privados estão à disposição da saúde pública e (vi) o Exército garante a distribuição de alimentos, combustíveis e serviços essenciais.

Pode-se ver que são medidas extremas. Um amigo costumava usar uma tautologia que encerra certa sabedoria: guerra é guerra. Antes de mais nada, é importante entender o contexto da Espanha na pandemia. A Itália procrastinou e teve que adotar medidas mais duras ainda, que demoraram a surtir efeitos. Logo, a Espanha contou com a experiência (ruim) da Itália para mobilizar o Estado, as políticas públicas e a sociedade civil.

E para o Brasil? Quais seriam as lições que poderíamos tirar do caso espanhol?
Primeiramente, agir já na comunicação transparente, clara e permanente. Em segundo lugar, implementar as medidas de restrição e o afastamento social (cinemas, lojas, shoppings, tudo fechado). Simulações reveladas por servidores do BC brasileiro indicam progressão catastrófica do vírus. Sabemos que o problema não é a letalidade, mas o sufocamento do sistema de saúde diante de um descompasso entre entrada e saída de pessoas do sistema (por aqui já há sinais de esgotamento da infraestrutura física e humana). Em terceiro lugar, mobilizar as autoridades competentes. Pedro Sánchez não é um estadista, líder carismático, longe de um Felipe Gonzáles do Pacto de Moncloa, mas atua de forma firme, transparente e eficaz, liderando. Governadores, Ministros (os adultos), lideranças no Congresso, STF e prefeitos, principalmente das grandes cidades, deveriam se reunir e combinar o discurso e as políticas. Sem isso não há a comunicação persuasiva, para a implementação das medidas duríssimas de confinamento das pessoas.

E a sociedade civil? Bem, teremos um teste e tanto. No Brasil, parte da população e de suas elites desrespeita a lei cotidianamente, criando uma anomia durkheimiana, inclusive quando protestam a favor da moral e do civismo e não praticam nem um, nem outro…no protesto (ou falando ao celular dirigindo, com vidros escuros fora da lei…a lista é grande e não cabe aqui). Contudo, nós, que estamos do outro lado, precisamos, com o uso da ciência, informação e empatia, tentar tirar dessa crise um avanço civilizatório, na busca de um bem comum real, palpável na prática.

Aqui sinto e vejo liderança, ação e, mesmo assim, está difícil e vai piorar. Graças ao Sidarta, mais uma vez, aprendi a ver o ‘futuro do presente” e a evitar dissonância cognitiva. No Brasil, o Presidente beira a irresponsabilidade e delinquência e a economia caminha para a recessão. Portanto, precisamos agir anteontem.

Uma última lição e um apelo: tanto no dia 13, depois da fala duríssima de Pedro Sánchez, como no domingo subsequente de noite, pessoas em Madrid e outras cidades saíram nas suas janelas e terraços e aplaudiram por mais de três minutos as servidoras e servidores da saúde. Todos confinados, acederam suas luzes e saudaram o SUS espanhol. Vamos combinar o mesmo quando a coisa apertar (e vai, acreditem)? Tudo foi feito por rede social. E isso dá um conforto “que não tem preço”, se me permitem um tanto de sarcasmo.

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