Escombros de um 8 de março

Escombros de um 8 de março

REDAÇÃO

08 de março de 2022 | 17h51

Ananda Marques, Mestra em Ciência Política pela UFPI
Juliana Meato, Bacharel e Licenciada em História pela UFF

Se há dez anos era possível falar de sonhos e projetos concretos, acesso às universidades e algum grau de mobilidade social, se ocupávamos as ruas exigindo mais direitos do que os existentes, o que nos resta hoje, neste 8 de março de 2022, são escombros. O bolsonarismo sequestrou o futuro das mulheres brasileiras e atualizou em diversas frentes o projeto colonial que tem o racismo e o sexismo como base. Todos aqueles que historicamente têm sido marginalizados e oprimidos sofreram ao longo desses quatro anos sucessivas violências.

O sexismo como diretriz de políticas públicas é a manifestação do patriarcado no poder, cada vez mais feminicídios; aumento dos aluguéis e custo de vida; desemprego batendo recorde (de mulheres e mulheres negras, mais ainda); massacre dos povos tradicionais em nome da exploração econômica; genocídio da população negra nas periferias do país pelas mãos do Estado policial; a fome e a pobreza aumentando de forma galopante; uma pandemia que já matou mais de 650 mil pessoas por descaso do governo; trinta por cento dos brasileiros apoiando esse mesmo governo; homens ressentidos obcecados com a figura do presidente e sua representação de masculinidade assassina. Tudo isso ocorrendo ao mesmo tempo, como se fosse uma orquestração de guerra. Alguém ousaria dizer que não é?

Quarto ano de um presidente de extrema-direita, terceiro ano pandêmico, as mulheres brasileiras resistem aos múltiplos ataques vindos do alto. Os olhares curiosos e indignados com a guerra no estrangeiro ignoram o verdadeiro blitzkrieg ao qual estamos submetidas em território nacional. Diante desta conjuntura em escombros, temos ainda inúmeros motivos para silenciar ou ficar em repouso, tentando suportar o adoecimento coletivo e o sofrimento social que paira, mas esses ilustram bem.

O Brasil de dez anos atrás acabou. O país que discutia a regulamentação dos direitos trabalhistas de domésticas é natimorto. Como um enredo onírico, testemunhamos a festa se tornar velório. O que existe é esse cansaço descomunal, irreconhecível. E a única resposta possível é que sofremos de Brasil. Todos esses intermináveis dias nos quais fomos golpeadas por notícias cada vez piores, discursos indecorosos e ações deliberadamente criminosas que ameaçavam ou aniquilavam a vida, a democracia, a natureza e o futuro, tudo isso cria uma sensação de alerta constante. Estamos vigilantes, tal como numa guerra e, por isso, exaustas.

Porque eles estão em todos os lugares. No supermercado, será que aquela senhorinha simpática na fila votou 17 na última eleição para salvar o Brasil do comunismo? E aquele pai carregando uma filha ali no caixa eletrônico, participou de motociata ou pregou um adesivo com o rosto de Bolsonaro na porta ou no carro? Pessoas sem máscara parecem logo que são antivacina. Todos os estranhos causam a pergunta “será esse um bolsonarista?”. O médico, o patrão, o vizinho – nenhum desses passam incólumes ao teste automático de vigilância e autodefesa que tivemos de criar. Aquele tipo de paranoia que nos contavam escritores e poetas durante a Alemanha e Itália fascistas. Muitas pessoas próximas se tornaram estranhas, foram abduzidas e falam uma outra língua na qual não é possível se comunicar. Perguntamos “será esse um bolsonarista?” em vez de perguntarmos “será esta uma democracia?”.

Compreendemos que nossos corpos não são os primeiros alvejados pela política de morte governante, ainda há a sobrevivência material garantida e diversos privilégios. Porém, parece que perdemos algo de nós mesmas, além da saúde. Perdemos, neste país usurpado, a certeza de que havia lugar. Sonho algum se sustenta numa terra envenenada pelo ódio e pelo autoritarismo. Existiu, de fato, a casa-país da infância? Talvez, apenas para algumas pessoas, pois o Brasil no qual vivemos hoje é o mesmo há bastante tempo para muitos outros corpos, considerados descartáveis, como aponta a cientista política Françoise Vergès em “Um feminismo decolonial”. Talvez, esse sofrimento é novo apenas para quem teve acesso a direitos básicos e pôde, apesar das dificuldades, buscar o que desejava. O que torna tudo ainda pior.

Sentimos raiva todos os dias e não temos vergonha disso, não achamos que devemos domesticar a raiva e transformá-la em um sentimento socialmente aceitável. Audre Lorde, poeta norte-americana, já abriu caminhos para que mulheres aprendam que a raiva pode ser sustento perante a injustiça. O que nos mantém de pé diante de tantas violências vividas e testemunhadas desde a infância é justamente essa indignação, altivez, coragem e intransigência. “Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”.

E sendo gente, somos capazes de falar nossas próprias palavras, desenhar novas possibilidades. Essa crença no direito de ser gente é inegociável, o desejo de existir sem medo não é passível de cooptação, ainda que o capitalismo tente sequestrar nossas pautas, sobretudo num dia como hoje. Mas, em 2022 a raiva está acompanhada do cansaço, da exaustão que criou uma casa de silêncio, um peso que nos leva a inércia. Por isso, nos demos as mãos e escrevemos. Em recusa ao que foi herdado e imposto, escrevemos com nossos corpos políticos e convocamos o afeto, que é da ordem do concreto.

O feminismo nos mostra que a vida como mulher é atravessada pela vida de todas as mulheres, que não é possível uma liberdade individual medida em parâmetros meritocráticos. Não basta ser “empoderada” quando as estruturas sociais colocam sua existência e de outras mulheres em risco. Como as mulheres e os mais vulneráveis são tratados numa sociedade, que direitos temos ou não, as oportunidades disponíveis e as condições de vida a depender de que lugar social ocupamos, tudo isso é um indicativo de que futuro é possível.

O 8 de março de 2022 acontece em meio aos escombros dos anos que o antecederam. O silêncio que paira e a exaustão que paralisa os corpos como mortos decorrem das violências. Hoje o presidente disse que “as mulheres estão praticamente incluídas na sociedade”. Mas não queremos ser incluídas na sociedade do bolsonarismo. Escrevemos para quebrar o silêncio e nomear o que nos aconteceu, é através da força da palavra que sairemos dos escombros, juntas, para criar o novo. Não temos nada a perder e um futuro a conquistar.

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