Escolhas Intertemporais, a COVID-19 e a Decisão de Santa Catarina.

Escolhas Intertemporais, a COVID-19 e a Decisão de Santa Catarina.

REDAÇÃO

27 de março de 2020 | 22h13

Eduardo B. Andrade, é professor da FGV EBAPE

Muitas de nossas escolhas apresentam um trade-off intertemporal. O que preferimos? (a) obter um benefício agora, mesmo sabendo da existência de um custo futuro ou (b) incorrer em um custo agora em prol de um benefício futuro. Há décadas de pesquisa sobre escolhas intertemporais, e um fenômeno claro emerge dos resultados. Descontamos eventos futuros de maneira significativa, mesmo cientes do perigo. É por isso que é tão difícil deixar de fumar, fazer dieta, ou economizar. O presente fala mais alto.

As políticas de isolamento social impostas pelos governos no combate ao novo coronavírus são um problema clássico de escolha intertemporal. Para que o isolamento dê resultados, melhor começar cedo e com rigor. Surgem, então, dois problemas. Primeiro, o custo para a população é brutal e imediato. Segundo, os benefícios estão no futuro e, nesse caso, são probabilísticos. Ninguém sabe ao certo quantas vidas serão salvas (e quantas sofrerão) com o isolamento social rigoroso. Santa Catarina vive esse dilema.

A capital e o estado chamaram a atenção do país pela política rigorosa de isolamento e distanciamento social. Começaram antes e com maior intensidade que a maioria das regiões. Mas não durou muito. A população logo sentiu o impacto. Aulas canceladas, avós enclausurados longe dos filhos e netos, aumento do desemprego, e queda da receita dos profissionais liberais, comerciantes, e autônomos. A gritaria foi geral. No dia 26 de março, o governo cedeu às pressões genuínas e decretou a volta gradual à normalidade a partir do dia 30 do mesmo mês. O palpável custo presente falou mais alto que o hipotético benefício futuro.

Mas se o viés cognitivo é inerente à psicologia humana, como resolver esse dilema? A ciência tem uma resposta: traga o futuro para o presente.

O gráfico abaixo demonstra a progressão do número de mortes pela covid-19 no Brasil entre os dias 24 (46 mortes) e 27 de março (92 mortes). O gráfico também demonstra três países onde o “futuro já chegou”. Vê-se um futuro “pessimista” (Espanha), um “realista” (EUA) e um “otimista” (Coreia do Sul). A primeira conclusão é que, muito provavelmente, o pior ainda está por vir, e virá com força. A similaridade entre o padrão de dados dos EUA e do Brasil chama a atenção. A curva “realista” faz jus ao nome. É possível que, em Santa Catarina, aconteça até mesmo o que foi vivenciado na Coreia do Sul. Mas o que ocorrerá no estado e no país dependerá em grande medida das ações governamentais. É aí que entra a segunda conclusão do gráfico: o governo do estado de Santa Catarina vai terminar a quarentena quando, muito provavelmente, estivermos iniciando uma fase crítica no combate à pandemia (Dia 7 do gráfico, 30 de março).

 

 

Nota. Dia 1 corresponde a, aproximadamente, 50º morte no país em questão.

 

Será também um período onde os números, aos poucos, deixarão de ser meras estatísticas. À medida que as mortes aumentam, os dados frios tornam-se rostos e estórias reais, cada vez mais próximas do meu, do seu, do nosso convívio. Já observamos isso no Rio de Janeiro. Um casal de idosos da redondeza contraiu o novo coronavírus. Dois dias após os primeiros sintomas, o senhor começou a ter crises respiratórias severas. Faleceu no dia seguinte. A esposa, agora viúva, ainda está internada. A filha, que já perdeu o pai, busca forças para rezar pela recuperação da mãe.

O isolamento social pelo governo deve continuar em Santa Catarina. Há evidências concretas de que ele funciona, sobretudo se iniciado com antecedência e rigor, como foi de fato o que ocorreu no estado. Mas por quanto tempo isolar? Aí entra uma outra política pública de vital importância: os testes em massa. Para que haja o relaxamento do isolamento social imposto, é preciso que as pessoas e o governo tenham informações sobre o caminhar do novo coronavírus nas suas cidades e possam tomar decisões informadas sobre se e quando sair de casa, e por onde circular. Aos poucos converte-se o isolamento e distanciamento forçados pelo governo (top-down) no isolamento e distanciamento praticados voluntariamente pelos cidadãos (bottom-up). Os testes em massa também permitirão ações pontuais no combate a focos do vírus que, sem dúvida, surgirão. As diversas esferas do governo estão cada vez mais convencidas da importância dos testes em massa e estão investindo. Mas para que os testes ocorram em grande escala e sem transtornos, levará ainda algumas semanas. Nesse meio tempo, cabe ao governo manter o isolamento e minimizar os estragos causados pela paralização da economia, protegendo sobretudo os menos favorecidos, seja através de subsídios às empresas para que estas não demitam seus funcionários, seja dando dinheiro diretamente a quem precisa, entre outras ações.

Ainda não é hora de relaxar a quarentena em Santa Catarina. Foi difícil e traumático implementá-la, mas a população catarinense aderiu e com louvor. Desistir do isolamento agora é como dar alta ao paciente antes do tempo. Convencê-lo a voltar ao hospital daqui a dez dias será muito mais difícil e doloroso. E o tratamento, menos eficaz.

Menos de 24 horas após a decisão do governador, o prefeito de Florianópolis foi a público informar que a quarentena permaneceria até 8 de abril na cidade, quando os testes estariam disponíveis para que um diagnóstico mais preciso dos níveis e focos de contaminação pudessem ser feitos. A decisão converge com os argumentos e dados desse artigo. O problema é que Florianópolis, embora muitos forasteiros pensem assim, não é somente uma ilha. Parte da cidade encontra-se no continente, e não há como isolá-la. O mesmo, em certa medida, se aplica aos estados. Estratégias comuns e ações coordenadas entre o governo federal, estados e municípios seriam de grande valia no combate ao novo coronavírus.

 

Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV

 

 

 

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