Entre verdes, verdinhas e acordos bilaterais: a crise ambiental brasileira

Entre verdes, verdinhas e acordos bilaterais: a crise ambiental brasileira

REDAÇÃO

04 de novembro de 2021 | 13h18

Requião Filho, Deputado Estadual no Paraná (ALEP)

O meio ambiente hoje está em foco, seja pela crescente preocupação com a saúde da população, com a sustentabilidade do planeta ou pela COP26 que acontece em Glasgow na Escócia.

O tema no país, apesar de parecer recente por causa das trapalhadas do governo Bolsonaro, passa pela constituição federal e pelo Código Florestal de 2012 do governo Dilma, que anistiou o desmatamento ambiental anterior à 2008, além de paralisar tanto a demarcação de terras indígenas quanto da criação de unidades de conservação.

A partir de 2019, o desmonte. A área de demarcação é passada para a pasta de agricultura, o controle e combate na questão ambiental foram extintos.

O ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, era o principal inimigo, querendo passar a boiada (termo recorrente ao tratar de gado) em pautas ambientais no congresso, sendo colocado naquela posição justamente para cumprir os objetivos do capital e dos interesses especulativos. Só saiu após uma pressão que não lembro de ocorrer da mesma forma em outras demissões, o preferido do bolsonarismo foi segurado no cargo até o último instante. Após isso, como todo bom bolsonarista, assinou com a Jovem Pan.

Hoje, eles prometem ação e controle, não falam de orçamento brasileiro e sim de ajuda externa, cobram os outros que paguem a conta da própria irresponsabilidade. Não entendem o afastamento do mercado mundial, não compreendem que mudamos e as novas gerações dão cada vez mais valor ao ar que respiramos.

Os valores mudaram e a família de bem não deveria ter o conceito da década de 60. Essa família é aquela que respeita o mundo que vive e seus pares. Que olha com preocupação para frente e se importa com a felicidade alheia.

O Brasil aposta no ecoturismo para preservar o meio ambiente, além de cobrar investimento de outros países, tem a brilhante ideia de vender parques, matas, o país para a iniciativa privada. Talvez esse seja o melhor atestado de culpa do governo Bolsonaro, admite não saber fazer, terceiriza com medo da própria responsabilidade.

Podem notar na entrevista do atual ministro do meio ambiente, que ninguém nem lembra o nome, o seu foco. Produtor rural, agricultura, turismo, indústria.

O país aderiu ao compromisso de reduzir as emissões de metano em 50%, porém entidades como o Observatório do Clima já o acusam de “pedaladas ambientais”, criando dados, maquiando e inventando planos que não conseguiriam ser realizados apenas para entrar em acordos bilaterais nas altas cúpulas mundiais.

A prática? O Brasil cortou 93% da verba para pesquisa em mudanças climáticas.

É necessário debater gestão de crise e resiliência, tratar da educação de nossas crianças de forma eficiente, informar a população para que esta esteja preparada quando uma crise ou desastre aconteça. É preciso pesquisa acadêmica séria para prevenir e voltar ao “novo normal”, seja em crises energéticas ou em pandemias como essa que enfrentamos hoje.

Uma população preparada, consciente, que confie em sua ciência e produza conhecimento retorna mais rapidamente que as demais à situação pré-crise. Os próximos governos terão esse desafio de entender a importância do preparo, enquanto tratam as feridas deixadas pelo amadorismo.

Um desses caminhos pode ser a descentralização dos poderes, fortalecimento do local, do poder perto do povo, que entende mais suas diferenças e problemas cotidianos enquanto torna o sistema menos vulnerável frente as loucuras de governantes federais. Visualizamos o poder do município no enfrentamento ao COVID-19, adotando medidas diretas baseadas em indicadores locais, afrouxando e esticando a corda de medidas de controle para proteger a população.

Como culpar a Greta quando ela manda os líderes globais, vestidos de seus trajes pomposos e de discursos para a claque, enfiarem a crise climática onde lhes é vulnerável?

 

Foto de Requião Filho, Crédito: Dálie Felberg / ALEP

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