Entre o passado e o futuro: lendo a pandemia a partir do Sul Global

Entre o passado e o futuro: lendo a pandemia a partir do Sul Global

REDAÇÃO

08 de maio de 2020 | 11h20

Brauner Cruz, graduado em Administração Pública pela FGV EAESP e Mestre em Políticas Públicas pela UFABC.

José Henrique Bortoluci, professor de Sociologia e Relações Internacionais nos cursos de Administração Pública e Administração de Empresas da FGV EAESP.

Leticia Daidone, graduada em Administração Pública pela FGV EAESP.

Marcela Corrêa, graduada em Administração Pública pela FGV EAESP e onde também é mestranda em Administração Pública e Governo.

Pedro Peria, graduado em Administração Pública pela FGV EAESP e onde também é mestranda em Administração Pública e Governo.

 

Afinal, pode a aflição ter algum potencial cognitivo?

Pode a dor inspirar? Pode a perplexidade aguçar a consciência?

                                                                                  Nicolau Sevcenko

 

A crise provocada pela pandemia do novo Coronavírus tem suscitado uma série de debates sobre seus efeitos imediatos, estratégias de enfrentamento e sobre que sociedade existirá uma vez chegado o seu fim. Em geral, as opiniões sobre os dilemas imediatos se dividem entre aqueles que defendem medidas mais restritivas e outros que demandam o retorno do comércio e do que se acostumou chamar de “vida normal”. Nessa tônica, instaura-se também uma falsa oposição entre zelo à economia ou preservação de vidas.

A crise de saúde pública desemboca em outras com as quais já convivíamos diariamente, mesmo que de maneira menos bombástica: a questão ambiental, o aumento global das desigualdades socioeconômicas e a regressão de formas democráticas de governo são exemplos disso. Ao fim, o que vem à tona é um mosaico de fraturas nas formas como produzimos, consumimos, fazemos política e nos relacionamos.

O tapete sob o qual se esconde a sujeira do capitalismo predatório – cuja face brasileira é tão notoriamente grotesca – foi levantado bruscamente, mas a visão da poeira parece ainda ofuscada. Nesse cenário, uma pergunta se impõe: diante da pandemia, o que tememos é que as coisas não voltem a ser o que eram, ou que elas voltem a ser exatamente como eram?

Os jornais têm veiculado uma série de artigos de importantes intelectuais sobre o tempo atual. Leituras críticas de autores como David Harvey, Byung-Chul Han, Giorgio Agamben, Paul Preciado e Judith Butler circularam nas últimas semanas e lançaram luz quanto às diferentes linhas de pensamento sobre os rumos pós-pandemia. Mais do que reflexões de estudiosos de renome, essas análises – escritas sob o calor do momento e repletas de pressupostos e conclusões ainda a serem testadas – podem nos ajudar a pensar sobre certas estratégias de ação, principalmente se passarmos a analisá-las pelas óticas do Sul Global e a partir da realidade latino americana.

Os argumentos mobilizados por esses autores críticos podem ser subdivididos em três frentes, que se comportam também como caminhos analíticos ligados aos esforços de mobilização de forças progressistas. O primeiro conjunto de argumentos se debruça em pensar quais as oportunidades e obstáculos para o fazer político: a pandemia abre ou fecha espaços de ação política? Os textos de Judith Butler e Slavoj Zizek apresentam um tom otimista quanto à possibilidade de repensarmos, em meio à crise, novas formas de associação, de elaboração de discursos críticos e de agir político.

Uma segunda frente de análise está ligada à tradição marxista nas Ciências Sociais que  mobilizou o conceito de “crise” para tentar compreender as dinâmicas das estruturas capitalistas nas sociedades modernas. Autores como David Harvey há anos focam seus estudos na análise da relação entre produção e reprodução no capitalismo, ambas profundamente afetadas pela pandemia. A história das epidemias mundiais, nesse sentido, não deixa de ser a história do modo de produção capitalista e as formas que encontra para constantemente se reinventar.

A terceira frente identificada diz respeito ao debate sobre a necro e biopolítica. Com base na teoria do filósofo francês Michel Foucault sobre a gestão dos corpos por parte das instituições de poder – mas, de forma muito menos explícita, ecoando as reflexões fundamentais do filósofo camaronês Achille Mbembe –  autores como Preciado, Agamben e Byung-Chul Han partem do pressuposto de que qualquer ação estatal estará inevitavelmente ligada a alguma modalidade de controle dos corpos. De fato, a doença e as formas de combate a ela se incrustam no corpo de cada indivíduo, assim como a sensação de medo e a constante vigilância. A pandemia abriria novas frentes de biopolítica na maneira como instaura novos mecanismos de vigilância e controle sobre e por meio de nossos corpos.

Entre essas três vertentes, temos um resumo do panorama dos principais temas que circulam entre intelectuais europeus e norte americanos de esquerda sobre os efeitos da crise. O que parece faltar – para além de um aprofundamento e atualização constantes desses diagnósticos – é uma posição que realoque o debate a partir de uma visão dos países do Sul Global, “lugar” em que o Brasil se encontra. Muito embora as contribuições dos autores mencionados sejam de extrema importância para o avanço do debate teórico e empírico sobre os rumos de nossas sociedades nos momentos de crise e pós-crise, elas são também eurocêntricas em muitos de seus enfoques, pressupostos e silenciamentos. Cabe a provocação: como pensar tudo isso em um contexto de desigualdade crônica, escassez de recursos e maior fragilidade institucional?

É urgente, portanto, conceber uma quarta frente crítica de análise. Uma que considere a estratificação social das sociedades capitalistas, as divergências entre os resquícios dos modelos de Estado de Bem-Estar Social, as disparidades regionais dentro dos países e as diferenças na forma como esse vírus impacta Manhattan e São Paulo. Ou, mais fundo: como impacta o Morumbi e a Brasilândia, o Leblon e a Baixada Fluminense. Ou seja, pensar a pandemia a partir da periferia do mundo – e, sobretudo, das periferias da periferia.

No Brasil, o que parece estar em destaque nos debates da esquerda é a pergunta: afinal, quem pode estar na rua e quem pode ficar em casa? Levada aos extremos, essa ideia é sobre quem tem o direito de viver e quem não. Com um presidente que constantemente nega a gravidade da situação, um discurso oficial que ignora a realidade das favelas brasileiras, o atraso na avaliação e liberação do pagamento do Auxílio Financeiro Emergencial e o colapso de alguns sistemas de saúde, estamos assistindo à acentuação da precarização, uma vulnerabilização dos vulneráveis. Este é só um dos elementos de um cenário macabro que também inclui um discurso oficial guiado pela desumanização e pela apologia à violência e, no limite, à morte.

O cenário é dos mais graves, mas uma das tarefas fundamentais do pensamento crítico é tentar também enxergar espaços onde nasce o novo. Ao nos questionarmos sobre as formas de vida que queremos construir no pós-pandemia, é preciso olhar também para o que já está sendo feito dentro do próprio tecido social. O que temos visto é a proliferação de iniciativas da sociedade civil para conter a pandemia; associações de bairro, movimentos sociais, ONGs, vizinhos e colegas têm tomado as rédeas da situação para traçar estratégias muitas vezes improvisadas, mas efetivas para mitigar os efeitos do vírus nas favelas, por exemplo. Novas formas de colaboração têm também emergido entre pesquisadores e profissionais da saúde, assim como entre burocratas em diferentes níveis da federação.

As centelhas de otimismo dadas por essas iniciativas, no entanto, não encerram a série de questionamentos trazida acima, também porque não são capazes de resolver com profundidade o cenário atualmente instaurado. A realidade brasileira pede soluções que não sejam atomizadas e que não dependam, apenas, da solidariedade. Longe de ignorar as respostas locais, precisaríamos de mecanismos institucionais que as potencializassem e, nesse aspecto, as capacidades estatais e a orientação do projeto político são fatores fundamentais.

Como sugere o debate crítico internacional, é preciso reconhecer que a pandemia atual pode abrir brechas para a ação política e para uma análise sobre o tipo de sociedade que vivemos. Mas também é preciso enxergar espaços de ação imediata e apostar que escolhas políticas – e de políticas públicas – podem produzir resultados efetivos no cotidiano da população, sobretudo em um contexto de Sul Global. É preciso afirmar, enfaticamente, que estar atento às realidades periféricas pode nos levar a reduzir o número de mortes diárias. Afinal, se queremos pensar novas formas do viver pós-pandemia – e nós acreditamos que devemos fazê-lo – precisamos eleger a proteção à vida como um primeiro passo. Esse gigantesco passo e os que a ele se seguirão poderão nos indicar, enquanto sociedade, que buscar um retorno à situação anterior à quarentena é algo insustentável: é preciso desenhar novas realidades a partir dela.

 

(Texto produzido no âmbito dos encontros mensais do Grupo de Estudos e Pesquisa Democracia, Cidades e Cultura que reúne quinzenalmente na FGV EAESP sob a coordenação de José Henrique Bortoluci)

 

 

 

 

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