Entre casos e vacinas: a pandemia da COVID-19 em Mato Grosso do Sul no ano de 2021*

Entre casos e vacinas: a pandemia da COVID-19 em Mato Grosso do Sul no ano de 2021*

REDAÇÃO

08 de março de 2021 | 09h58

Déborah Monte, Doutora em Relações Internacionais (PUC-MG) e Professora da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

Marcos Prudencio, Mestre e Doutorando em Geografia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Elaine Regina Prudencio Hipólito da Silva, Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Mato Grosso do Sul inicia o mês de março de 2021 com 187.6151 casos confirmados de COVID-19. Destes, 3.444 chegaram a óbito, totalizando uma letalidade de 1,8% (dados de 07/03). No mês de janeiro de 2021, foram 27.260 casos confirmados, maior que todos os meses de 2020, exceto dezembro, atual pico da pandemia no Estado com 34.700 casos.

A maior incidência de contaminação se encontra na faixa etária de 20 a 59 anos, a população economicamente ativa (PEA), sendo que 76,3% do total de casos pertence a esta estrutura da população. De certa forma, tais resultados se alinham à situação do país, que não possui restrições severas de distanciamento social e que tem a maior parte de sua população na PEA.

A análise do ano de 2020 expõe o seguinte cenário: Campo Grande ao final do último ano possuía 45% (61.945) dos casos confirmados em relação ao total do Estado, seguida por Dourados com 11% (14.614), Corumbá com 5% (6.744) e Três Lagoas fechando o ranking com 4% (4.536).

As principais cidades em termos de Produto Interno Bruto (PIB) de Mato Grosso do Sul são também as líderes em número de infecções por COVID-19. Podemos inferir, assim, uma relação causal em que uma maior PEA implica em maior circulação de pessoas e resulta em maior contaminação. Não é vista uma regressão do contágio, pelo contrário, a segunda onda de disseminação do vírus é maior do que previsto.

Quando realizada uma análise comparativa dos números de casos confirmados nos anos de 2020 e 2021, os municípios de Campo Grande, Dourados, Corumbá e Três Lagoas, em apenas um mês do presente ano, essas três localidades já possuem, respectivamente, 24%, 46, 50% e 50% dos casos em relação ao ano de 2020.

Figura 1: Gráfico 1 – Relação de nº de contaminações entre 2020 e 2021.

Fonte: Secretaria de Estado de Saúde (SES, 2021).

Contudo, conforme demonstrado na Figura 1, é possível observar situações mais críticas uma vez que, pequenos municípios, como Paranhos, Novo Horizonte do Sul, Japorã, Laguna Carapã e Eldorado, já passaram do número de casos que tiveram em 2020 em apenas um trimestre (ainda não encerrado) de 2021. A maioria destes municípios se encontra localizada na mesorregião (e na macrorregião de saúde) de Dourados.

Um problema extremamente preocupante, considerando a possibilidade de agravamento do quadro clínico das pessoas infectadas, que gera a necessidade de internação hospitalar e por vezes em unidades de terapia intensiva (UTI). Sendo a assistência à saúde em alta complexidade concentrada em municípios maiores, é provável a transferência de pessoas para estes locais, o que poderá ocasionar na sobrecarga do sistema de saúde.

Tendo em vista, a taxa de ocupação global (casos confirmados e suspeitos COVID-19 e não COVID-19) dos leitos de UTI na macrorregião de Dourados e Campo Grande até 07 de março era de 96%, Mato Grosso do Sul apresenta um risco iminente de colapso do sistema de saúde, trazendo sérias consequências à sua população, ferindo gravemente o direito fundamental garantido a todos cidadãos brasileiros pela Carta Magna em seu art. 196 – A saúde é um direito de todos e dever do Estado.

Todavia, se faz mais que necessário que esforços sejam engendrados por parte do poder público, bem como por parte de toda população, o cumprimento de ações efetivas que possam verdadeiramente mitigar a disseminação do vírus em nosso meio, desafogando o sistema de saúde para que seja ofertado a quem dele necessite, uma assistência à saúde integral, digna e equânime.

Os (des)caminhos da vacinação

A vacinação em Mato Grosso do Sul foi iniciada em 18/01, um dia após a aprovação pela ANVISA do uso emergencial de doses das vacinas produzidas do CoronaVac/Butantan e da Fiocruz/AstraZeneca. O governo do Estado tem seguido o Plano Nacional de Imunização, sendo que na primeira fase foram incluídos os trabalhadores da saúde, a população indígena aldeada e os idosos e deficientes institucionalizados. Em 29/01, os maiores de 80 anos foram adicionados ao grupo prioritário da primeira etapa de imunização e em 02/03 autorizou-se a vacinação de idosos acima de 70 anos, apesar da escassez de doses que caracterizam o cenário atual do Brasil.

Na primeira fase a população estimada para ser vacinada é de 230.750 indivíduos e a meta corresponde a 90% deste número (207.675). Até 07/03, 4,6% da meta recebeu a primeira dose do imunizante e 2,3% da população do Estado foi imunizada para o novo coronavírus, ou seja, recebeu a segunda dose. O gráfico 1 mostra a distribuição das primeiras doses da vacina entre os grupos prioritários no período de 18/01 a 07/03 de 2021.

Gráfico 2. Distribuição das doses por grupo, de 18/01 a 07/03.

Fonte: Vacinômetro. Secretaria de Estado de Saúde (SES, 2021).

Dentro do grupo prioritário, apenas os indígenas aldeados estão recebendo o imunizante, o que exclui a população em retomadas ou residente nas cidades.  Destacamos que 70,73% desta população recebeu a primeira e 42,83% a segunda dose das vacinas, de acordo com os dados de 07/03. Apesar das limitações causadas pela descoordenação nacional na gestão da pandemia, como o escasso número de doses atualmente disponíveis, Mato Grosso do Sul foi, em 04/03, o Estado que mais aplicou  as duas doses do imunizante proporcionalmente na população.

Reforçamos a necessidade de medidas de controle e prevenção, que são as únicas saídas neste contexto de escassez de imunizantes e descoordenação do Plano Nacional de Imunização. Os dados sobre o isolamento social no Estado são alarmantes sendo que este índice correspondeu a 33,5%, o pior do país em 06/03[1].

*Este texto faz parte do do projeto em parceria com a ABCP coordenado pela professora Luciana Santana (UFAL) intitulado: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia de covid19 no Brasil. Essa é uma versão elaborada a partir do seguinte texto publicado no site da ABCP: SANTANA, Luciana (org). V Série especial ABCP: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia no Brasil. Site Associação Brasileira de Ciência Política: 08 a 12 de fevereiro de 2021.

[1] Disponível em https://mapabrasileirodacovid.inloco.com.br/pt/

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