Eleições e covid no Rio de Janeiro: ano novo, velhos desafios*

Eleições e covid no Rio de Janeiro: ano novo, velhos desafios*

REDAÇÃO

12 de fevereiro de 2021 | 09h44

Priscila Riscado, Doutora em Ciência Política (UFF)

Clara Faulhaber, Mestra em Ciências Sociais (UERJ)

 

Desde 2020, tanto na cidade quanto no Estado do Rio de Janeiro, observa-se o crescimento dos casos de contágio e de letalidade por covid-19. Concomitantemente, este cenário tem como pano de fundo questões essencialmente políticas e institucionais, a saber: 1) a nível municipal, com uma política sob a orientação do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, de ações voltadas para o “novo normal” (planos de flexibilização do isolamento social); 2) a nível estadual, com o processo de impeachment do governador Wilson Witzel. O governador foi afastado do seu cargo e o vice-governador Cláudio Bonfim de Castro e Silva assumiu interinamente o poder executivo.

Além disso, não podemos ignorar as questões relativas ao avanço da pandemia e as desigualdades estruturais, espaciais e étnicas, características do Estado. A taxa de mortalidade por covid-19 no município do Rio aponta que as áreas mais pobres da capital são as mais afetadas pelo coronavirus. Estas áreas se caracterizam pela presença de moradias precarizadas, pouca oferta de serviços públicos e pela falta de políticas públicas de qualidade para a população.

Este cenário, que já vinha desde o final de 2020 com aumento do número de caso, foi agravado nos primeiros vinte dias do ano. Resultado das aglomerações e festas de final de ano – segundo especialistas, este cenário traz enormes desafios para o (não tão) novo prefeito recém-eleito Eduardo Paes.  

No dia 09 de janeiro de 2021, o grupo de trabalho Multidisciplinar para o Enfrentamento da Covid-19 da UFRJ publicou a estimativa do valor R para a semana Epidemiológica 53/2020[i], no qual o Covidímetro aponta que a taxa de contágio da doença (taxa R) é, no final do mês de dezembro e início do mês de janeiro de 2021, de 1,24 na cidade do Rio de Janeiro é de 1,27 no Estado. A capital e a região do médio Paraíba – com Volta Redonda e Barra do Piraí – apresentaram a maior taxa R – de 1,59. De acordo com os especialistas, o ideal é que fique abaixo de 1, para reduzir a possibilidade de novas infecções. Como política pública, a recomendação diante deste dado é que as autoridades voltem a analisar a possibilidade de novo lockdown no Estado – medida já descartada pelo governo do Estado e da capital.

Nesse contexto, a resposta dada pelo prefeito da capital foi um novo plano de combate ao covid-19 juntamente com o Estado e o governo federal. Dentre as medidas, estão a vacinação da população, a abertura de novos leitos de internação, a ampliação da testagem e a ativação do Centro de Operações de Emergências em Saúde – COE COVID-19 Rio, além do aplicativo para que as pessoas possam fazer a autonotificação de casos. No dia 12 de janeiro saiu uma resolução[ii] conjunta com novas regras de enfretamento da covid-19 no município.

O plano de vacinação contra covid-19 da capital fluminense foi apresentado no dia 18 de janeiro. Após a aprovação do uso emergencial de duas vacinas que estavam em desenvolvimento no país – a vacina de Oxford e a CoronaVac – o Estado do Rio recebeu 487.520 doses do imunizante. Destas, 231.840 doses foram destinadas a capital fluminense.  O plano foi dividido em fases, buscando contemplar os chamados “grupos prioritários”. A chamada Fase 1 contempla os trabalhadores de saúde que atendem diretamente pacientes com Covid-19 e aqueles que estarão envolvidos na campanha de vacinação. Também serão priorizados idosos e pessoas com deficiência que vivem em instituições de longa permanência, além dos trabalhadores desses estabelecimentos. As outras fases da vacinação, voltadas a outros grupos prioritários definidos pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, serão realizadas conforme novas remessas de vacina forem recebidas na cidade.

A vacinação do Estado teve início na capital, no dia 18 de janeiro de 2021. Todavia, a despeito do início da vacinação, foram relatados casos em que alguns idosos do grupo da fase 1 e profissionais de saúde se recusaram receber a aplicação das doses da vacina CoronaVac. Sendo assim, a prefeitura declarou a necessidade de iniciar uma forte campanha de vacinação, uma vez que, o governo federal ainda não se pronunciou a respeito. Mesmo com a chegada da vacina, o primeiro Boletim do Observatório Covid-19 Fiocruz de 2021[iii] aponta que o cenário ainda é preocupante. Da perspectiva do cenário nacional, as primeiras semanas epidemiológicas do ano apontam que nenhum Estado apresentou tendência de queda de incidência ou mortalidade de Covid-19.  O Rio de Janeiro, assim como outros Estados, apresentou tendência de aumento de mortalidade nas últimas semanas de janeiro. A taxa de letalidade permanece alta desde o final do ano de 2020 – sendo atualmente da capital de 4,7%. O Rio de janeiro passou a ocupar a liderança das mortes por Covid 19 no país[iv]. A cidade do Rio tem 6,7 milhões de habitantes – pouco mais da metade dos habitantes de São Paulo, município mais populosos do país. No entanto, a Capital fluminense chegou a 17.535 óbitos, contra 17.491 da capital paulista.

 

Por fim, a Fiocruz publicou um estudo[v] no periódico The Lancet Respiratory Medicine analisando os casos de covid-19 de pessoas hospitalizadas maiores de 20 anos no Brasil no período de 16 de fevereiro a 15 de agosto de 2020. Para além dos dados de internação, essa pesquisa mostra que as diferenças regionais de mortalidade intra-hospitalares são congruentes com as desigualdades regionais que já existiram anteriormente da pandemia no Brasil e que foram por ela aprofundados.

Os pesquisadores da Fiocruz apontam que a vacina é um marco na luta contra a pandemia, porém ainda tem um longo caminho a ser percorrido até alcançar uma cobertura vacinal significativa, além dos desafios para reduzir a transmissão, aumento do número de casos e óbitos. O Rio de Janeiro se encontra hoje com 549.114 casos confirmados de covid-19, 31.134 óbitos registrados em função da doença e a taxa de ocupação de 59,8% de leitos de UTI. Além dos desafios sanitários, o Estado do Rio precisará enfrentar ao longo de 2021 os desafios relacionados ao retorno da crise da água (ou crise da geosmina) e a crise fiscal, que se agravou ao longo de 2020 e não apresenta sinais de recrudescimento em 2021.

*O presente artigo é parte do projeto: SANTANA, Luciana (org). V Série especial ABCP: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia no Brasil. Site Associação Brasileira de Ciência Política: 08 a 12 de fevereiro de 2021.

 

[i] Disponível em:

Acesso em: 27 de jan de 2021.

[ii] Resolução Conjunta nº 01 de 12 de janeiro de 2021. Disponível em: http://estaticog1.globo.com/2021/01/13/resoluo.pdf?_ga=2.74703445.692185334.1610905164-6dc7d2fb-34a3-c792-d56f-d1f66342a531 Acesso em: 27 de jan de 2021.

[iii] Para saber mais, ver: Boletim Observatório Covid-19 Semanas Epidemiológicas 1 e 2 semana 3 a 16 de janeiro de 2021; Disponível em:

. Acesso em: 27 de jan de 2021.

[iv] Fonte: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/02/04/rio-passa-sao-paulo-e-e-a-cidade-com-mais-mortes-por-covid-19-do-pais.ghtml

[v] Para saber mais, ver: RANZANI, Otavio T. et al. Characterisation of the first 250 000 hospital admissions for COVID-19 in Brazil: a retrospective analysis of nationwide data. The Lancet Respiratory Medicine, 2021. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanres/article/PIIS2213-2600(20)30560-9/fulltext Acesso: 27 de jan de 2021.

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