Eleições à vista

Eleições à vista

REDAÇÃO

16 Junho 2018 | 20h53

José Antonio G. de Pinho é professor Titular Aposentado da UFBA e realiza pós-doutoramento em Administração Publica na FGV-EAESP.

Estamos a pouco mais de 100 dias das eleições e estas ainda estão carregadas de incógnitas, dúvidas e incertezas. A maior delas reside no fato de se o PT vai ter candidato próprio ou não. Se tiver, quem será? Se não tiver, se vai participar em uma chapa como vice. Mas a eleição vindoura não possui apenas essa questão não respondida. Como já vamos para a 8.a eleição presidencial pós-redemocratização, parece oportuno olhar para as eleições passadas no sentido de tentar aprender alguma coisa com todo esse processo, conscientes, evidentemente, de serem tempos e contextos bem diferentes. Ao final, o foco volta-se para a eleição que se avizinha.

Assim, a eleição de 1989 contou com 22 candidatos o que poderíamos qualificar como uma situação resposta a um represamento de energias políticas. Após quase 30 anos voltava-se a ter uma eleição presidencial direta em um país bem diferente daquele de Jânio, Lott e Adhemar e depois de um longo inverno de subtração das liberdades democráticas. Como era de se esperar foi uma eleição muito disputada, onde o 1.o colocado no 1.o turno abocanhou apenas 30,47% dos votos válidos e ocorrendo uma acirrada disputa entre o 2.o, Lula (17,18%) e Brizola (16,51%). O pleito despertou interesse tanto que a soma de votos nulos, brancos e abstenção (NBA) atingiu apenas 18,37 % do eleitorado. Na eleição seguinte, 1994, 8 candidatos comparecem sendo que dois disputam efetivamente a refrega, FHC, vencedor no 1.o turno, e Lula, tendo o 3.o colocado, Enéas, tido uma votação expressiva, 7,38% para um neófito. Como se pode perceber, caiu expressivamente o número de candidatos. Por outro lado, aumentou o número de votos NBA chegando a 36,56 % do eleitorado. Na eleição de 1998, já com o instituto da reeleição, 12 candidatos se apresentaram, indicando uma subida, e dois candidatos disputam efetivamente, FHC, reeleito, e Lula, aparecendo um 3.o candidato, Ciro, com votação expressiva, 10,97%. O número de votos NBA foi extremamente elevado: 40,19%.

No pleito de 2002, cai drasticamente o número de candidatos, seis, o menor em todo esse período histórico examinado. Dois candidatos disputaram a vaga, tendo Lula alcançado um patamar, cerca de 46% muito superior ao 2.o colocado, Serra, com cerca de 23%, tendo os dois seguintes votações expressivas, Garotinho, cerca de 18% e Ciro, cerca de 12%. O número de votos NBA, 28,13%, tem uma queda em relação ao pleito anterior, sendo o mais abaixo desde 1989. No certame de 2006, com 7 postulantes, a disputa, renhida, se cinde a dois nomes, Lula (48,61%) e Alckmin (41,64%), não havendo espaço para votações expressivas para qualquer um dos demais. O número de votos NBA sofreu outra queda, 25,16%, mostrando o interesse do eleitorado.

A eleição de 2010, com nove concorrentes, assume um perfil bem parecido com a de 2002, onde a primeira colocada, Dilma obtém cerca de 47 % dos votos no 1.o turno enquanto o 2.o colocado, Serra, ficava com pouco mais de 32% abrindo espaço para uma votação expressiva para a 3.a colocada, Marina com cerca de 20%. Nesta disputa o número de votos NBA atingiu 26,76%.

Por sua vez, o último pleito realizado, 2014, com um número ascendente de concorrentes, 11, a 1.a colocada, Dilma, tem o menor número de votos no 1.o turno (41,59%), exceto a de 1989, ficando o 2.o colocado, Aécio, no entanto, bem atrás com pouco mais de 33%, o que, novamente, abriu espaço para uma dispersão com uma votação expressiva para a 3.a colocada, Marina, com um pouco mais de 21%. O número de votos NBA chegou à 29,03% do eleitorado.

E, agora, estamos chegando a 2018. O número de candidatos ao que tudo indica só perderá para aquela eleição de 1989, mas ficará muito próximo daquela, indicando que estaríamos novamente em uma situação de represamento de energias políticas. Se naquele caso esta situação podia ser atribuída à supressão da democracia, no caso presente outra explicação deve ser procurada. Até o momento tem-se colocado 17 pré-candidatos. Como em outras situações, muitos desses são apenas figurantes, se colocam mais pensando em marcar posição, em serem vistos para pleitos futuros de menor alcance. A disputa efetiva deve se dar entre um número mais restrito de postulantes, mas não tão pequeno assim. Possível que se tenha uma configuração parecida com a de 1989, mas de uma forma mais exacerbada ainda, onde dois brigaram intensamente pela 2.a posição para se gabaritar para um 2.o turno.

Como até o momento nenhum pré-candidato conseguiu empolgar o eleitorado, estando tudo muito cinza, é possível que a briga se dê na faixa dos 15 a 25% (se tanto) entre uns quatro candidatos, com um possível quinto como azarão (Álvaro Dias) gerando um embolamento. Como na eleição de 89 o 2.o classificado será obtido no photochart. Mas neste ano pode ser que os dois primeiros sejam definidos deste modo, na casa decimal. Ao que tudo indica, parece haver um lugar nesse bolo para Bolsonaro, mas nada parece estar garantido, vai depender do desempenho do candidato neófito em eleições majoritárias. Pelo retrospecto de eleições passadas, e pelos resultados de pesquisas atuais, Marina e Ciro parecem dispor de boas chances de abocanhar parcelas significativas do eleitorado, ainda mais se beneficiando de um PT sem candidato ou com um sem maior visibilidade nacional. O PT, em forte encolhimento desde a eleição municipal de 2016, sem seu líder, e sem figuras de abrangência nacional, tem suas possibilidades extremamente reduzidas. Precisa definir ainda se terá um candidato próprio ou se será um vagão de outra locomotiva.

Além da indefinição do PT, outra grande incógnita reside na candidatura Alckmin. Se não decolar, o PSDB parece correr um alto risco de mirrar seguindo o provável destino do PT. Também é possível que o NBA nesta eleição seja alto dado o desencantamento do eleitorado com a classe política e a crise generalizada. Como se está ainda um pouco longe da eleição e principalmente do horário eleitoral na TV onde podem aparecer surpresas, para o alto ou para baixo e onde essa especulação pode ser desmontada. A ver. Não faltarão emoções.