Efemeridades e o impacto das redes sociais

Efemeridades e o impacto das redes sociais

REDAÇÃO

03 de maio de 2022 | 19h46

Nathália Araujo Vieira Bruni, graduada em Administração Pública (FGV – EAESP). Trainee Business na AMBEV

Outro dia, escutando um diálogo de duas senhoras em uma cafeteria qualquer ouvi uma delas dizer: “a realidade é efêmera.” Aquilo me tocou de tal forma, que bloqueei a tela do meu celular e, como se passasse um filme dos últimos minutos, parei para refletir sobre a quantidade de postagens, cenários e pessoas que eu tinha observado na última meia hora em que estive ali, apenas da tela do meu celular. E foi exatamente neste momento de epifania, como bem definido por Clarice Lispector, que o paralelo foi criado.

O paralelo entre efemeridade e conteúdos de redes sociais é latente e cada dia mais nos coloca como reféns de um terceiro componente deste tripé, aqui (e agora) criado: a velocidade. Isso porque, se uma publicação em uma rede social tem um ciclo de vida, percebemos o seu tempo de vida se tornando cada vez menor, na medida em que a internet abriu e abre portas para a fluidez. E que, de tão fluída, trouxe consigo ganhos (que são exponenciais para nós e para sociedade em que vivemos), especialmente no que tange a fatores como a globalização e a formação de comunidades, mas também perdas: da nossa própria noção de tempo e espaço, nos distanciando daquilo que está no ao vivo e a cores.

Não obstante, se considerarmos esse paradoxo de ganhos e perdas, quando pensamos na volatilidade das redes, talvez não tenhamos dimensão da quantidade de conteúdos que são produzidos e que poderiam nos agregar. Na verdade, acabamos agimos como se não precisássemos deles, de tão absorvidos que estamos pelas “mensagens rápidas” e “conteúdos vazios”, não dando aquilo que temos de mais valioso, o tempo, por acharmos que não irá nos agregar. Entretanto, não paramos para pensar nas inúmeras publicações que são construídas com cautela e tempo e, logo após publicadas, são dissolvidas de forma tão imediata e, até mesmo, cruel com aqueles que as criam, abrindo alas para conteúdos que exigem pouco conhecimento e, quiçá, sirvam apenas para alimentar mais a tal sociedade egocêntrica.

Ademais, apesar das trocas construídas nas redes sociais nos permitirem criar relacionamentos horizontais, diminuindo hierarquias, tratando de temas que buscam a inclusão, dando ênfase à criação de comunidades de pessoas que possuam valores e objetivos em comuns, esta também nos bombardeia com imagens e conteúdos que acarretam em uma carga emocional densa – e muitas vezes pesada, para muitos de nós.

Desse modo, tomar consciência disso traz como consequências diretas, dentro desse mundo onde todos queremos algo para o mesmo instante – graças ou por conta da tecnologia –, reflexos emocionais como o aumento da ansiedade. Fato esse que se tornou ainda mais latente durante a pandemia, dado que, apenas no primeiro ano da pandemia de COVID-19, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25%, de acordo com um resumo científico divulgado nesta quarta-feira (2) pela Organização Mundial da Saúde (OMS).[1]

Não à toa, transtornos como a chamada “nomofobia[2], caracterizada pelo medo excessivo de ficar sem celular/internet, qualquer tecnologia, ou, ainda, de se tornar incomunicável, tem tomado a cena na sociedade atual. O que distancia ainda mais as pessoas daquele contato físico e mais “pessoal”, que podíamos observar anteriormente. Não raro, observamos famílias, colegas e desconhecidos distantes, cada um dentro de seu mundo virtual.

Mesmo porque, tal como frisado pelo filósofo Mário Sergio Cortella, situações como essas servem de alerta para o impacto que o mundo digital impõe nas vidas das pessoas, na medida em que todo o encanto das novas tecnologias gera distração e nos distancia da conversa e do mundo real, resultando na já citada realidade efêmera.[3]

Outro dia, escutando um diálogo de duas senhoras em uma cafeteria qualquer, ouvi uma delas dizer: “essa realidade é tão efêmera que mesmo estando aqui e com a sensação de estar presente, já não consigo distinguir o que é real e o que não é. Inclusive, só um instantinho, meu celular está vibrando e se eu não estiver atenta nele, perco a interação que poderia ter com um alguém qualquer.

E não é o que postaram o que eu queria ver, mulher.”

Notas

[1] Redes sociais e ansiedade. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/2-3-2022-pandemia-covid-19-desencadeia-aumento-25-na-prevalencia-ansiedade-e-depressao-em#:~:text=2%20de%20mar%C3%A7o%20de%202022,Mundial%20da%20Sa%C3%BAde%20(OMS). > Acesso em 24 de abril de 2022.

[2] Nomofobia. Disponível em: https://blog.psicologiaviva.com.br/redes-sociais-e-a-ansiedade/ > Acesso em 24 de abril de 2022.

[3] Redes Sociais e alertas. Disponível em: https://itforum.com.br/noticias/quase-todos-malwares-detectados-nas-empresas-ja-sao-conhecidos-alerta-trend-micro/ > Acesso em 24 de abril de 2022.

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