Economia Circular – estamos prontos?

REDAÇÃO

01 de novembro de 2019 | 14h59

Patricia C. Berardi a, b
a Professora do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto – FEUP, Portugal.
b Membro do CELOG Centro de Excelência e Logística e Supply Chain da EAESP – FGV, São Paulo, Brasil.
pberardi@fe.up.pt

Luciana Stocco Betiol a, b
a Professora na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas – FGV EAESP.
b Coordenadora Executiva do GVEthics – Centro de Estudos em Ética, Transparência, Ingridade e Compliance e Membro do CELOG Centro de Excelência e Logística e Supply Chain ambos da EAESP – FGV, São Paulo, Brasil.

Priscila Laczynski de Souza Miguel a, b
a Professora na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas – FGV EAESP.
b Coordenadora do CELOG Centro de Excelência e Logística e Supply Chain ambos da EAESP – FGV, São Paulo, Brasil.

 

A Economia Circular (EC) está na moda, sobretudo depois que a União Europeia definiu um pacote estratégico com horizonte para 2050, onde o modelo econômico circular é a base. A EC, centrada em restauração e regeneração dos ecossistemas, tem sido apontada como um sistema passível de promover o desenvolvimento dos negócios e de responder às demandas não completa ou suficientemente endereçadas pelas práticas de sustentabilidade e pelo modelo de produção atual.

Este modelo linear baseia-se no processo de extração de recursos, transformação desses em produtos/bens que após consumidos são descartados. Este sistema foi importante e responsável pelo crescimento e desenvolvimento socioeconômico, mas precisa ser repensado. O aumento da população mundial, pautada por um modelo econômico e social voltado para o hiper consumo, demanda um constante aumento no uso de recursos naturais processados, inviabilizando que a conta feche. Há limites impostos pelo meio ambiente! Agrega-se a isso que, para manter esse modelo aquecido, passou-se a privilegiar a rápida substituição de produtos, a chamada obsolescência programada. Ainda que seja possível identificar a integração de atributos de sustentabilidade nesse modelo econômico, ele tem se mostrado diuturnamente insuficiente para responder aos desafios atuais. O relatório do World Economic Fórum permite identificar o tamanho da ineficiência deste modelo: apenas 9% das 92,8 bilhões de toneladas dos recursos extraídos e processados na economia global são reutilizados anualmente.

O Brasil começa também a surfar nessa onda. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou recentemente pesquisa realizada com empresas no Brasil sobre o tema. A sinalização está clara! A EC está na agenda das grandes corporações nacionais e também na pauta de reuniões setoriais. O foco: como aplicar a EC nos respectivos negócios. No mesmo sentido, caminham as instituições de ensino e pesquisa, que passaram a fomentar a pesquisa e o debate entre professores e líderes de mercado, visando identificar práticas e solidificar este conceito. No entanto, a EC no Brasil ainda não é uma realidade no ambiente regulatório. O que temos é uma legislação de 2010, que trabalha a gestão dos resíduos sólidos numa lógica linear, o que pode reduzir o apetite das organizações em aderir a um modelo circular de produção.

Há necessidade de cautela para que a EC não seja apenas só mais um “modismo”. Se, por um lado, há o aspecto positivo em difundir o tema e chamar a atenção para pontos que até o momento não estavam sendo discutidos, por outro há um grande risco de minimização do que precisa ser efetivamente endereçado. E pior, por vezes, há uma certa banalização do termo. Numa tentativa de simplificar conceitos, ou mesmo como forma de parecer ser uma entidade em linha com as tendências mundiais, organizações, consultores e profissionais têm afirmado que quem pratica a reciclagem já adota a economia circular, quando na verdade, esta ação é a menos desejada dentre os fluxos circulares.

O princípio da EC é reduzir a extração de recursos na origem, ao mesmo tempo que minimiza a quantidade de resíduos que não podem ser reaproveitados. A ideia é que, uma vez extraído um recurso, esse deve ser utilizado ao máximo, pelo maior tempo possível. Sempre que permitido, um resíduo deve ser usado como recurso novamente, evitando assim novas extrações e desperdícios.

Mais do que enfatizar fluxos de materiais, a EC promove todo o repensar de uso do bem e dos processos produtivos, não de forma isolada, mas sim em cadeia, tendo como premissa a regeneração de produtos com origem biológica, ou a restauração, para os produtos processados no chamado ciclo técnico. Desta forma, estende-se a vida útil dos materiais e dos produtos para múltiplos usos, possibilitando a geração de receitas daquilo que antes era visto como rejeito, ficando preservados todos os demais recursos empregados nos processos dos produtos (água, energia, tempo, materiais).
O produto precisa ser usado em sua plenitude, não de forma parcial. Um automóvel foi projetado e construído para rodar, não para ficar estacionado em uma garagem. No modelo circular, o produto não precisa ser usado somente por um usuário, mas deve ser compartilhado.

Adotar a EC significa olhar para o design, a artéria central de toda a sua estrutura. O design deve considerar o recurso mais indicado para conceber produtos e serviços: otimizando o uso de matérias-primas renováveis, não tóxicas e que incorporem materiais recuperados. Deve pensar itens duráveis, permitindo um maior ciclo de vida e recuperáveis, tanto do ponto de vista de reparação como recuperação para remanufatura. Adicionalmente, o design tem que readaptar processos, rever relacionamentos com fornecedores e distribuidores, pensar em reduzir distâncias e compartilhar infraestruturas, materiais, energias. A chave da EC reside exatamente no design bem planejado do produto ou serviço. O ideal é manter um ciclo fechado, onde recursos utilizados no processo sejam passíveis de circular infinitamente, no mesmo fluxo, sem ser necessário recorrer a novas extrações.

Em caso de necessidade de manutenção, o próprio consumidor deve poder recuperá-lo, evitando-se assim o custo adicional com uso de novos recursos, como transporte, energia, tempo. Somente quando isto não for possível, ele deve acionar um prestador de serviço para assistência. Quando o produto não for mais de interesse, o consumidor pode retornar o item ao fabricante, mediante logística reversa. Este, então, procederá à sua remanufatura e posterior reintrodução do produto no mercado, possibilitando mais um ciclo de uso do produto.

Por fim, só depois de atendidas todas as possibilidades dos fluxos anteriores, quando não há mais alternativas para reutilização total ou parcial desse produto, este deve seguir para a reciclagem, baseados em materiais preferencialmente de origem natural (biomateriais). A reciclagem tem um caráter diferente da praticada no modelo linear. A adoção da reciclagem no sistema linear é a tentativa de dar uma solução ao final do processo, ao passo que nos fluxos circulares, a mesma foi programada desde a concepção do projeto, depois de trabalhados e esgotados os fluxos de materiais em níveis anteriores.

A temática da circularidade tem despertado interesse de múltiplos agentes como estudiosos, governantes, gestores em diferentes níveis hierárquicos e sociais. É essencial conscientizar o consumidor sobre a nova proposta para um modelo econômico circular, bem como ter um ambiente regulatório e financeiro propícios para acolher esse novo cenário de desenvolvimento, que demandará investimento em capacitação da mão de obra, resgate e valorização de práticas de reparação que se perderam com a introdução da obsolescência programada. A necessidade e oportunidade para investir num novo modelo de desenvolvimento está dada. Resta saber como será aplicada.

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