É possível competir com a indústria asiática? Gestores da cadeia da ferramentaria apontam caminhos para o Rota 2030

É possível competir com a indústria asiática? Gestores da cadeia da ferramentaria apontam caminhos para o Rota 2030

REDAÇÃO

09 de junho de 2022 | 18h57

Luiz Carlos Di Serio, Doutor em Engenharia da Produção na Escola de Engenharia de São Carlos da USP e Professor da FGV – EAESP

Kenyth Alves de Freitas, Doutor em Administração de Empresas pela FGV – EAESP

Emília Villani, Doutora em Engenharia pela USP e Professora no ITA 

André Cherubini Alves, Doutor em Administração pela UFRGS e Professor da FGV – EAESP

Alfredo Rocha de Faria, Doutor em Aerospace Science & Engineering pela University of Toronto e Professor no ITA

Alexandre Pignanelli, Doutor em Administração e Professor da FGV – EAESP

Alexandre de Vicente Bittar, Doutor em Administração de Empresas pela FGV – EAESP

Nos últimos 30 anos, diversas empresas migraram para países asiáticos em busca de custos baixos de produção. No entanto, este processo de desenvolvimento industrial vem sendo questionado em função do aumento da incerteza e potencial ruptura das cadeias de suprimento globais. Existe uma forte tendência entre as empresas multinacionais em manter uma base de fornecedores locais/nacionais nos países que operam, visando reduzir eventuais riscos de interrupção na produção em função de guerras, desastres ambientais, pandemias, entre outras ameaças. Portanto, uma cadeia local/nacional mais forte pode tornar as empresas brasileiras mais resilientes e “blindar” o mercado brasileiro contra as futuras crises do mercado internacional.

As ferramentarias brasileiras são consideradas estratégicas por diversas cadeias de suprimentos, entre elas a de equipamentos agrícolas, máquinas e equipamentos em geral, eletrodomésticos da linha branca, e veículos automotores. O setor é composto por 3500 ferramentarias que geram 175 mil postos de trabalho e faturam USD$ 400 milhões por ano. Apenas no setor automotivo, 26 montadoras e 473 fábricas de autopeças se beneficiariam diretamente de um parque industrial de ferramentarias mais forte (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, 2021). No entanto, existe um movimento de concentração da indústria global de ferramentas pesadas na Ásia, em especial, na China.

As ferramentarias nacionais perdem muitos projetos para os concorrentes asiáticos em função dos diferentes modelos competitivos. As ferramentarias asiáticas competem com base em alta capacidade instalada e em ciclos de tempo curto, propiciando menores prazos de projeto e de confecção de ferramentas. Os grandes volumes produtivos permitem que essas empresas consigam atuar nas diversas etapas produtivas de projeto e construção de uma ferramenta, ocupando toda a sua capacidade e reduzindo o custo final da ferramenta.

Essa competição baseada em tempo permite redução de prazos mantendo bons níveis de qualidade das ferramentas, o que vem motivando as montadoras no Brasil ao longo dos últimos anos a decidir pela importação. A maioria das ferramentas utilizadas no desenvolvimento de um novo veículo são importadas de ferramentarias asiáticas.

Tal panorama ilustra que o modelo de competitividade das ferramentarias nacionais não está conseguindo manter volumes de projeto e construção de ferramentas localmente, apesar do bom nível de qualidade. A baixa capacidade instalada e a tentativa de fazer internamente todas as etapas construtivas de uma ferramenta levam a prazos de projeto e confecção das ferramentas significativamente maiores que dos concorrentes asiáticos.

Este fator gera uma espiral negativa: a baixa capacidade e prazos mais longos faz com que os projetos de desenvolvimento de ferramentas sejam transferidos para a Ásia, reduzindo ainda mais o número de projetos, inibindo os investimentos necessários para ampliação da capacidade nacional. Fenômenos similares ocorreram em outros países, que veem sua indústria desaparecer ou precisam buscar novos modelos de negócios.

A linha IV do Programa Rota 2030 – Mobilidade e Logística, intitulada Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas, coordenada pela Fundação de Apoio da UFMG (Fundep), tem por objetivo fortalecer o setor ferramental que atende a indústria automotiva. De acordo com Ana Eliza Braga, coordenadora de programas da Fundep, a linha IV busca identificar e solucionar desafios diversos das empresas do setor ferramental a partir da convergência de ações com foco em ampliar a produtividade, potencializar a incorporação de novas tecnologias e oferecer oportunidades de capacitação profissional. Além disso, o programa gera espaços colaborativos para que os gestores da cadeia da ferramentaria possam discutir os desafios e pensar em caminhos para melhorar a competitividade das empresas nacionais, destaca.

A partir dos resultados dos estudos realizados por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, apresentados no 2º Workshop – “Demonstradores para a Indústria Brasileira de Ferramentais – Diagnóstico da Competitividade das Ferramentarias”, cerca de quarenta gestores e demais stakeholders da cadeia de ferramentarias puderam discutir como as empresas nacionais podem atingir a competitividade das empresas asiáticas em um período de dez anos. Os resultados dessa discussão podem ser agrupados em três eixos centrais: disponibilidade de máquinas e equipamentos, padronização tecnológica e apoio fiscal do governo.

A baixa disponibilidade de máquinas e equipamentos e a tentativa de fazer todas as etapas produtivas internamente resulta em redução da capacidade produtiva das empresas do setor, implicando em custos mais altos do que os concorrentes asiáticos. Um caminho apresentado para o setor é a criação de um parque coletivo em que possam se compartilhar equipamentos entre as empresas do setor. Este novo modelo de negócio propiciaria maior especialização das empresas em diferentes etapas do processo produtivo, o que inclui a padronização tecnológica e de práticas especificas. O resultado seria um aumento da qualidade e uma redução de custos das ferramentas. Por fim, as empresas precisariam de um apoio governamental, visto que os concorrentes asiáticos possuem diversos subsídios na compra de máquinas e equipamentos. Isso reforçaria as competências industriais da cadeia de ferramentarias no Brasil.

É importante reforçar que muitas competências tecnológicas são geradas e mantidas pelo setor industrial. O enfraquecimento da cadeia de ferramentarias poderá impactar futuros investimentos em diversos setores da economia brasileira, bem como a própria viabilidade de uma indústria nacional competitiva.

Para mais informações sobre o Diagnóstico da Competitividade das Ferramentarias, acesse:

https://eaesp.fgv.br/resultado-rota-2030-fase-2

Para mais informações sobre o Programa Rota 2030, acesse:

https://rota2030.fundep.ufmg.br/2o-workshop-demonstradores-para-a-industria-brasileira-de-ferramentais/

Agradecimentos: Esta pesquisa foi financiada pelo programa prioritário do capítulo III do Rota 2030, das Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas, coordenado pela Fundep. 

Referências

Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores [ANFAVEA]. (2021). Retrieved May 20, 2021 from

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