É hora de derrubar Bolsonaro, não estátuas

É hora de derrubar Bolsonaro, não estátuas

REDAÇÃO

26 de julho de 2021 | 17h29

Estratégia para aumentar as mobilizações de rua deve estar no centro do debate político

Antonio Neto, Presidente do Diretório Municipal do PDT de São Paulo e da CSB (Central dos Sindicatos Brasileiros)

Após a ampla repercussão da tentativa de destruição da estátua de Borba Gato, em São Paulo – e sem entrar no mérito das discussões nada profundas e repletas de paixão e pouca informação acerca de sua história –, gostaria de falar como alguém que já tem alguns cabelos brancos em relação a isso, de estratégia política. Primeiro, quero perguntar aos que defendem e aos que são contra: como esse tipo de ação direta colabora para a construção da luta coletiva? A destruição da estátua e o simbolismo colocado nesse ato nos ajudam contra Bolsonaro? Se sim, como?

Importante falar sobre isso num momento em que, dada a dinâmica da urgência das redes sociais, infelizmente cada vez menos vemos reflexões sobre o impacto real, os objetivos táticos e a estratégia para alcançar determinados fins – algo que sempre esteve no coração da tradição da esquerda como um todo, seja ela reformista ou revolucionária.

Mesmo a ação dos revolucionários, já diriam os mais antigos, se guia historicamente por uma ação racional que orienta ao recrudescimento da luta. Quando determinada ação é tomada sem que sejam estudados os seus impactos para o movimento como um todo, os resultados nem sempre podem ser os que esperamos.

Para dar um exemplo bem factível, falemos da presença das ruas, que todos compreendem como um resultado prático incontestável em qualquer estratégia de mobilização. Fomos menores no último sábado, isso é um fato. Se o que queremos é o impeachment, o centro das discussões deveria se dar em torno daquilo que nos é central dentro das tarefas da luta: a necessidade de ampliar a adesão aos atos para outros setores além da esquerda organizada.

Contudo, o ataque à estátua do bandeirante e à sua simbologia parece que foi o assunto principal dos dias subsequentes aos atos contra Bolsonaro. Pouquíssimo se falou nas redes sociais sobre as manifestações, muito menos sobre a quem interessa a desmobilização e por quê.

Falar sobre estratégia e tática é uma discussão antiga e muito rica, sobre a qual recomendo a todos darem uma boa lida para sairmos da superficialidade da lacração por likes e avançarmos em direção a posicionamentos que de fato nos tragam resultados concretos com avanços.

Avançar na luta não é algo simples. A ação direta pela ação direta pode fazer sentido para algumas pessoas, mas é antidemocrática por natureza. Isso precisa ser muito bem compreendido. Se lutamos pela democracia e usando a democracia como nossa principal bandeira, ações autoritárias, ainda que isoladas, e que não são tomadas em conjunto, quando afetam todo o conjunto devem ser sim motivo de debate de todo o conjunto. Tal como fizemos em relação à postura agressiva do PCO contra manifestantes do PSDB, Rede, PSB e PDT nos atos de 3 de julho.

Manifestações isoladas e autoritárias trazem em si uma série de contradições que podem nos fazer dar passos atrás na conjuntura. Toda ação tática deve ser orientada por uma razão estratégica. Essa razão se dá a partir da leitura em tempo real das intempéries da conjuntura, o que, como todos sabem, pode tornar frutífera ou não uma ação tática. A flexibilidade tática é e sempre será a melhor ferramenta que temos na luta. A análise crítica, como diriam os mais experientes, não pode deixar de ser a nossa razão.

Por isso que os partidos políticos são e serão por um bom tempo os principais atores da conjuntura. A ação partidária reflete a maturidade do militante, que passa a se organizar não a partir de suas ações como indivíduo apenas, mas como parte de um todo. Há uma diferença evidente entre os partidos políticos e os praticantes da ação direta, que negam por natureza a democracia representativa e os partidos políticos quando atropelam os atos com suas idiossincrasias.

A ação destes, por conta dessa falta de flexibilidade tática que é comum aos partidos políticos, não segue outra orientação que não a sua própria dinâmica, isso é, a dinâmica do desenrolar imediato da ação e reação presente. A depender da conjuntura, esse tipo de ação tática, que para o praticante da ação direta é estratégica, pode ou não fazer a luta coletiva (que não é só dessas pessoas) recrudescer. Exemplos na história não faltam. E antes que falem dos franceses, não, não somos franceses.

A radicalização e a falta de compreensão tática dos revolucionários na Alemanha de Weimar, por exemplo, levou sociais-democratas e comunistas a serem inimigos ainda maiores do que os próprios fascistas. O resultado foi a exposição e o enfraquecimento das esquerdas em detrimento do crescimento de uma direita populista. O que ocorreu depois, todos nós sabemos…

Ah, mas e o Chile? O Chile avançou muito não a partir da ação direta pela ação direta, mas por uma abertura à esquerda na janela da conjuntura por conta do fracasso completo da Constituição neoliberal de Pinochet. Ainda que sem a direção dos partidos tradicionais, essa conjuntura possibilitou uma compreensão quase que unânime de onde estava o problema (na Constituição da ditadura).

Com um inimigo em comum bem traçado, esquerda, direita e até mesmo os não tão politizados assim puderam sair às ruas em harmonia com um objetivo central. Esse tipo de abertura na janela da conjuntura não é comum. São momentos raros e que somente partidos muito bem organizados, que levem a sério a análise crítica da correlação de forças e, principalmente, qual é seu papel dentro das mobilizações, podem dirigir.

Todos lembramos do que ocorreu em 2013. A partir desse tipo de ação direta sem qualquer direção acabamos com um trágico impeachment que nos levou aonde estamos hoje: um governo de extrema-direita genocida, corrupto e incompetente. Será que seria pedir muito olharmos pelo retrovisor e perceber o quão errado foi isso?

Falo tudo isso – o que pode ser impopular no momento em que parece existir um apelo para a opinião apressada sobre qualquer tema – justamente para fazer um contraponto àquilo que parece bom para muitos do nosso campo. Não concordo com o que ocorreu com a estátua. Tenho certeza de que não foi uma ação que nos ajudou e que não vai nos ajudar a furar a bolha para trazermos mais gente para as ruas.

Para os revolucionários de plantão, gostaria de lembrar que “nem tudo que reluz é ouro”. Usemos a cabeça para refletir e construir uma mobilização maior do que a última. O mais importante de tudo, no momento, é derrotar Bolsonaro. Esse deve ser o fim a orientar cada ação do campo progressista agora. Com ele no poder, todas as outras lutas civilizatórias estão cada vez mais ameaçadas. O momento é muito grave. Não há tempo para errar.

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