E agora josé? A luz acabou, a água secou e o lixo está ali…

E agora josé? A luz acabou, a água secou e o lixo está ali…

REDAÇÃO

25 de novembro de 2021 | 15h56

Ingrid Graziele Reis do Nascimento, Doutora em Engenharia do Território pela Instituto Superior Técnico de Lisboa

O trocadilho com o poema José de Carlos Drummond de Andrade, publicado, originalmente, em 1942, na coletânea Poesias, é legitimado pela realidade que permeia nas periferias das cidades de países do global sul. Pois, afinal, falar só de Brasil seria injusto quando temos na América latina, África Subsaariana ou mesmo em países asiáticos realidades similares sob a perspectiva de qualidade de vida.

Os estereótipos da pobreza sanitária são comuns, muitas vezes precedidos de soluções globais com ausência de impactos locais. A Organização das Nações Unidas (ONU) (2018) descreve a crise sanitária que se vive atualmente no mundo do seguinte modo: a) cerca de 60% da população mundial, ou 4,5 bilhões de pessoas, não têm instalações sanitárias em casa ou o sistema não gere o desperdício com segurança; b) 862 milhões de pessoas em todo o mundo ainda defecam a céu aberto; c) perto de 1,8 bilhão de pessoas usam uma fonte sem proteção contra a contaminação das fezes;  d) um terço das escolas em todo o mundo não tem instalações sanitárias, um problema particular para as meninas durante a menstruação;  e) 900 milhões de crianças em todo o mundo não têm instalações para lavar as mãos, essenciais para evitar a disseminação de doenças fatais;  f) em todo o mundo, 80% das águas residuais geradas pelo homem são devolvidas ao meio ambiente sem serem tratadas ou reutilizadas.

Davis (2006) aponta que esta crise sanitária global é crescente e abrangente, remetendo a sua origem, como no caso de tantos outros problemas urbanos, principalmente, para o terceiro mundo, cuja herança vem do contexto da era colonial. Ainda segundo Davis, os colonizadores recusaram-se sempre a oferecer a infraestrutura moderna de água e rede de coleta de águas residuais aos bairros nativos. A preferência era estabelecer um zoneamento racial servindo cordões sanitários para isolar as guarnições e os bairros brancos das doenças epidémicas.

De fato, essas heranças foram construídas com bases tão “consistentes” que a situação de calamidade ultrapassa já séculos. Cabe ressaltar que apesar das cidades latinas americanas, apresentarem problemas sanitários graves, em nada alcança a magnitude do que se pode encontrar África ou no sul da Ásia (Davis, 2006).

No círculo vicioso, a pobreza e a doença são, simultaneamente, causa e efeito desses problemas, entre outros. Aqueles que não têm acesso a um fornecimento de água em quantidade e qualidade suficiente são sempre os mais pobres (Bau, 2005). Segundo dados da UNICEF e WHO, cerca de 159 milhões de pessoas bebem água diretamente da superfície e dessas 58% vivem na África Subsariana. Ainda de acordo com as referidas entidades na África Subsariana, 3 em cada 5 pessoas não possuem instalações básicas para lavar as mãos (aproximadamente, 89 milhões de pessoas) (WHO e UNICEF, 2017).

No cenário atual do contexto brasileiro, 50% dos municípios ainda descartam seu lixo de forma ambientalmente inadequada, conforme dados do Índice de Sustentabilidade Urbana (2021).  O avanço tem sido em “marcha lenta” no que toca a descarte e tratamento de resíduos. Entre os anos de 2016 – 2021, só houve uma evolução de 5% nos índices de recolha de 50 para 55%.

O interessante do paralelismo entre o poema de Drumond e o cenário de descaso das políticas sanitárias é que o poeta quer demonstrar o sentimento de solidão e abandono do indivíduo na cidade além falta de esperança. O acréscimo aqui é que a nostalgia retratada no poema não é uma característica da maioria da população que vive nessas condições, apesar das razões para tal.

A alegria e a esperança é a mola propulsora da população. Exemplos retratados no documentário de Tales by Light ou como testemunhados por mim, em uma comunidade de quilombola no interior da cidade de Goiás, na qual ao visitar uma das famílias solicitei ir ao banheiro e eles apontaram para mata, afirmando que era ali onde faziam suas necessidades. Porém, mesmo diante de uma falta estrutura essencial o que presenciei foi um lar cheio de amor, alegria e esperança cujo pai de 10 filhos tinha orgulho de todos serem formados e bem encaminhados na vida. Enfim, apesar da luz apagar, a água secar e o lixo ali permanecer, a esperança resiste em que dias melhores que virão.

Referências

Bau, J. (2005), “O Mercado da Operação dos Sistemas de Abastecimento de Água e de Saneamento de Águas Residuais em Portugal”, in Documentação de apoio à disciplina de “Novos Mercados e Negócios e Ambientais”, Curso de Especialização em “Ciências e Tecnologias do Ambiente”, FCUL/ICAT, Lisboa.

Davis, M. (2006). Planeta Favela. São Paulo, Boitempo.

Andrade, C. D. (2012). José. São Paulo: Companhia das Letras.

ONU. (2018). Sustainable Development Goal 6: Synthesis Report 2018 on WaterandSanitation. Nueva York, Naciones Unidas. Acesso em [25/11/2021]. Disponível em www.unwater. org/app/uploads/2018/07/SDG6_SR2018_web_v5.pdf

WHO e UNICEF. (2017). Progress on Drinking Water, SanitationandHygiene UpdateandSDG Baselines 2017. Disponível em: file:///C:/Users/Ingrid/Downloads/JMP-2017-report-final.pdf. Acesso em: 25/11/2021

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