Dória gestor – ou da inadequação dos critérios da empresa privada para a vida pública

Dória gestor – ou da inadequação dos critérios da empresa privada para a vida pública

REDAÇÃO

20 de outubro de 2017 | 17h17

Daniel Andrade, Doutor em Sociologia pela USP e professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EAESP FGV).

As atuações recentes de João Dória Júnior têm levantado polêmicas. Não foram poucos a acusá-lo de utilizar a prefeitura como plataforma de marketing para alçar vôos mais altos rumo à presidência da república. Segundo essa visão, Dória seria antes de tudo um político, e não um gestor, como havia se apresentado na campanha de 2016. Justamente por ser um político, seus planos ambiciosos estariam o levando a negligenciar seus deveres à frente da maior cidade do país.

Parto exatamente do ponto de vista contrário a essa tese. Os problemas gerados por Dória à frente da prefeitura são devidos justamente ao fato dele trazer seu ethos de gestor para a atividade pública.

Nas últimas décadas, muito se idealizou a respeito das virtudes das empresas privadas em termos de eficiência. Valorizou-se a tal ponto seu modelo de gestão que ele foi introduzido em âmbitos da sociedade cujas lógicas eram até então bastante heterogêneas ao seu funcionamento. Hospitais, escolas, universidades, centros de pesquisa, instituições públicas e a administração do Estado foram progressivamente adotando critérios de organização interna inspirados nos dispositivos do management. A concepção era simples: diante da abertura dos mercados globais, seria preciso buscar a eficiência típica da empresa privada para sobreviver à concorrência generalizada. Em outros termos, diante de um mundo construído como um grande mercado, somente empresas competitivas sobreviveriam. Os gestores seriam assim a salvação.

Essa idealização esconde, no entanto, que o critério de eficiência da empresa privada é o da lucratividade, e que nem todas as instituições, particularmente as públicas, devem se guiar segundo essa lógica contábil, tendo em vista que sua função social é outra. Além disso, com a constituição dos mercados financeiros globais, a preocupação central da gestão privada tornou-se a valorização das ações na bolsa de valores, ainda mais porque seus altos executivos passaram a ter sua remuneração atrelada a isso. Como as empresas precisam publicar seus balanços trimestralmente, o preço das ações pode sofrer com a fuga de investidores diante de maus resultados. O curto prazo tornou-se, por essa razão, a regra da tomada de decisão entre gestores. Eles precisam responder rapidamente às variações do mercado e buscar alternativas que compensem aumentos de custos. Muitas dessas medidas de curto prazo, diante de sua urgência, são impulsivas, mal planejadas e capazes de produzir disfuncionalidades no longo prazo. Qualquer funcionário de empresa média ou grande sabe que diante da pressão do fechamento dos balanços, gestores tomam medidas as mais irracionais e precipitadas.

Dória traz justamente esse princípio para o seu governo. Convicto de que o gestor deve “dar respostas rápidas”, ser “proativo” e “assumir riscos”, como rezam os manuais de administração, ele introduziu esse estilo na prefeitura. Ignorou e segue ignorando todo o conhecimento acumulado em políticas públicas, do mesmo modo que muitos executivos deixam de lado experiências anteriores da empresa que estão gerindo. Contribui para esse esquecimento do histórico administrativo a cultura de reestruturações permanentes que os executivos empregam como forma de valorizar as ações na bolsa de valores. A alta rotatividade dos gestores também favorece o negligenciamento da experiência acumulada, além de incentivar a falta de responsabilidade pelos resultados, já que muitas vezes serão outros gerentes a lidar com os efeitos produzidos. Dória age nesse registro. Não se preocupa com os resultados no longo prazo, pois não espera ter que lidar com eles. Essa forma de proceder explica em larga medida as suas ações desastradas, como nos casos do apagamento dos grafites, da Cracolândia e mais recentemente do complemento alimentar.

Do mesmo modo, é a sua cultura de gestor de empresa privada que o leva a buscar agressivamente galgar postos mais altos. No caso político, a presidência da república. No ambiente ultracompetitivo das grandes corporações, os executivos não podem vacilar e a prática de puxar o tapete de adversários e antigos aliados está longe de ser a exceção. O governador Geraldo Alckmin deve saber do que estou falando.

O marketing pessoal também é parte desse jogo corporativo, pois é o meio necessário de ganhar visibilidade e se destacar na disputa. Dória mobiliza a lógica do marketing pessoal persistentemente como gestor no âmbito político, fazendo de suas ações públicas mais uma forma de chamar a atenção para si do que de lidar com problemas complexos. Oferece assim insistentemente soluções simples, equivocadas e espalhafatosas para lidar com problemas de difícil solução.

O hábito de gestor acompanha Dória na própria forma como vê e lida com a cidade. Na sua concepção, o papel do prefeito, da mesma maneira que o de um CEO, é vender mercadorias e valorizar financeiramente as ações. Dória quer vender a cidade e atrair investidores para seus planos de privatização. Não entra em consideração o bem-estar da população e a ideia de que a cidade é parte do mundo público lhe é completamente estranha. A prefeitura, concebida como uma empresa, deve promover negócios, deve fazer “parcerias estratégicas”, em uma lógica “ganha-ganha”, como se diz na linguagem do mercado. Não é à toa que Dória promove doações de empresas privadas para a prefeitura, que logo em seguida são retribuídas com o beneficiamento em contratos públicos, em uma parceria eticamente duvidosa.

O problema com Dória, portanto, não é o fato dele ser um político fantasiado de gestor, o problema com Dória é que ele é um gestor introduzindo a lógica da empresa privada na política. Para Dória não existe a dimensão pública ou social, o que existe é somente o mercado e a concorrência. A cidade, assim como a vida, é um grande business.

Seus erros notórios à frente da prefeitura de São Paulo devem nos servir de alerta nas próximas eleições. Alerta contra a panaceia dos gestores privados na política. Alerta contra a concepção de que o modelo da empresa deve ser introduzido indiscriminadamente por toda parte. Alerta contra a visão de que a sociedade se reduz ao mercado e de que a vida é um grande negócio.

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