Do ensaio à cegueira ou sobre Bolsonaro cordial

Do ensaio à cegueira ou sobre Bolsonaro cordial

REDAÇÃO

26 de junho de 2020 | 16h22

Rafael Viegas, Mestre em Ciência Política pela UFPR. Doutorando em Administração Pública e Governo pela FGV-EAESP.

 

Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão,

Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos,

penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.

(Saramago, O Ensaio Sobre a Cegueira)

 

José Saramago (1922 – 2010) é considerado por muitos críticos literários um dos maiores escritores de língua portuguesa. O célebre autor, galardoado com o Nobel de Literatura de 1998, dispensa apresentações. Em um de seus romances mais conhecidos, O Ensaio Sobre a Cegueira (1995), Saramago tratou do caos causado por uma pandemia de cegueira branca que teve início em um homem, mas que se espalhou causando abalo nas estruturas sociais. O livro autoriza imersões pelas mais diversas perspectivas, como a literária, psicanalítica e política. É esta última que interessa aqui.

N’O Ensaio Sobre a Cegueira, o governo da cidade tentou conter a doença, todavia titubeou ao fazê-lo. As passagens em que a atuação do governo é demarcada revelam inaptidão para gerir a crise. Entre as evidências disso, colocou-se em prática uma estratégia pouco original de imputar aos outros a causa das suas próprias limitações. Já em um estágio avançado de alastramento da doença, entre as medidas tomadas o governo baixou um decreto contendo 15 ordens, algumas delas sem o menor nexo com a doença, como, por exemplo, a exigência de manter as luzes sempre acesas.

É verdade que o governo da cidade adotou a quarentena para os infectados e o isolamento social para os demais como forma de combater o avanço da doença. Optou, nesse aspecto, por se orientar pelo crivo da história. Em pandemias, o distanciamento e o isolamento sociais são sempre eficazes. Mas, antes que se intua a ausência de alguma insanidade por parte do governante, também previu execução sumária para quem descumprisse as regras. Contudo, nada surtiu efeito. Era tarde demais. Em pouco tempo, todos os cidadãos da cidade estavam cegos, com exceção de uma mulher, esposa de um médico, a única que, com sua bondade e destemor, parecia imune à moléstia.

Não faltam acontecimentos horrorosos descritos nesse romance. Saramago certa vez disse que O Ensaio Sobre a Cegueira “são 300 páginas de constante aflição”. O mundo tornou-se uma treva branca, padeceu de um “mal branco”, aparentemente impossível de conter. O que começou como um problema sanitário terminou como tragédia coletiva. Por exemplo, a falta de funcionários para prestar serviços públicos básicos fez com que lixo e cadáveres fossem empilhados pelas ruas. Na falta dos funcionários de saúde, a crise sanitária se alastrou. Sem a polícia, veio a barbárie.

Assim, o avançar da cegueira, que não era letal – diga-se de passagem, levou à ruína do Estado, enquanto forma de organização social. Houve um colapso do sistema público que culminou em caos social. Nesse sentido, Saramago empresta um tom hobbesiano para a sua narrativa, revivendo um retorno ao estado de natureza. Em O Leviatã (1651), Tomas Hobbes (1588 – 1679) aduz que o caos e a eterna luta de todos contra todos seriam contidos pelo Estado, que garante a paz e preserva o bem maior de todos, a própria vida.

Interessante é que a obra se consubstancia em uma narrativa de Saramago assentada com foco em duas dimensões, individual e coletiva. Não poupa críticas à moralidade e ao Estado, embora esta última dimensão se sobreponha à primeira algumas vezes. E, faz sentido que assim o seja. Saramago explorava com perspicácia a força das estruturas sociais sobre a esfera individual, especialmente o autoritarismo enquanto elemento de que lançam mão governos ineptos. O autor fez antes essa abordagem em O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991).

Por tudo isso, embora escrito décadas depois, é possível dizer que O Ensaio Sobre a Cegueira se aproxima em alguns aspectos de distopias como as de Aldous Huxley (1894 – 1963), Admirável Mundo Novo (1932), e de George Orwell (1903 – 1950), 1984 (1949). As distopias em geral não deixam de explorar ao máximo paradoxos e contrapontos. Não raro, são impactantes pelo ângulo social e político e lidam com dilemas individuais, com a violência e o pessimismo. O Ensaio Sobre a Cegueira está repleto desses elementos.

Todavia, n’O Ensaio Sobre a Cegueira Saramago desnuda uma dimensão individual do problema de saúde pública. A falta de empatia das pessoas, uma expectativa moral cristã, evidencia-se do livro em diversas passagens. Não se desenrola assim, ao menos na leitura que se faz aqui, acerca do controle opressivo constante do Estado sobre o indivíduo, como em Admirável Mundo Novo e em 1984. O autoritarismo está em O Ensaio Sobre a Cegueira mais como recurso político de manutenção do poder e da ordem levado a efeito por um governo incompetente.

Ademais, ressalta-se que o romance do escritor lusitano é sobre problemas reais da organização social, especialmente sobre o fracasso do processo civilizatório, parafraseando Norbert Elias (1897 – 1990). Nesse sentido, o seu paradoxo ou contraponto se dá com a própria realidade e não em um espaço ficcional. Por exemplo, não deixou de salientar os efeitos econômicos da pandemia. Em algumas passagens, revelou a preocupação do governo com o rumo da crise sanitária, mas mostrou como de início a economia foi o principal foco daqueles que estavam no poder, especialmente voltado para salvar os bancos, em detrimento da vida das pessoas.

Assim, O Ensaio Sobre a Cegueira é atual, no momento em que o mundo está sofrendo com a pandemia causada por covid-19. Aqui e ali, esse tipo de ilação tem repercutido. Contudo, o romance de Saramago se realiza assustadoramente como profecia no caso brasileiro.

Evidente que a ficção não se encaixa na realidade como uma luva nos dedos de uma mão. Há pontos de sintonia com a tragédia vivenciada no Brasil, nas dimensões individual e coletiva, como assinalado acima, mas, há diferenças também.

Como a narrativa de Saramago se passa em uma cidade e não em uma Federação como a brasileira, o governo da ficção tratou de destinar aos cidadãos a culpa da disseminação da doença e da desgraça que se seguiu. Jair Bolsonaro faz isso primeiro com os governadores e prefeitos que o contrariam, embora não deixe de delegar a cada indivíduo a responsabilidade por sua própria existência, em boa medida estimulando a luta de todos contra todos, assim como faz em relação ao assunto do posse de armas.

No romance, as pessoas não morriam de cegueira, mas da cegueira. No Brasil, pode-se dizer que a tragédia será maior pelo mesmo motivo. Mas, se na ficção Saramago deixa nas entrelinhas a origem da cegueira, no Brasil de Sergio Buarque de Holanda (1902 – 1982) a história é outra. Segundo um dos mais renomados intérpretes do Brasil, um dos principais problemas para o estabelecimento da democracia e mesmo do Estado por aqui seria o “homem cordial”. Essa figura típica ideal elaborada por Holanda obedeceria aos imperativos do coração e não às normas impessoais e abstratas.

Duas das principais características de Jair Bolsonaro são o personalismo e a desobediência às regras. Nunca escondeu que, em primeiro lugar, está ele, em segundo, sua família e, em terceiro, os seus amigos. Do seu modo de agir observa-se a confusão entre o público e o privado. Nesse sentido, jamais se imiscuiu de demonstrar para que veio. Comportava-se como um pater desde antes de disputar a Presidência da República. Sempre tripudiou sobre a vida e a democracia.

Não por menos, Bolsonaro foi convidado a deixar o Exército Brasileiro e ataca a Constituição de 1988 como sua principal inimiga. Nesse último aspecto, a Carta de 1988, que explicita a República Federativa do Brasil como Estado democrático de direito, é encarada por ele como uma muralha que precisa ser destruída, pois o faz ter que se curvar contra seu modo de enxergar o mundo. Em suma, quem defende a Constituição de 1988 o impede de fazer do espaço público uma extensão do seu ambiente doméstico.

Não há dúvida de que foram muitos os que não se deram conta antes daquilo que elegeriam, talvez a maioria. Mas, ainda existem outros que se recusam a ver até hoje, quando não o apoiam deliberadamente. De todo modo, para compreender ambos os grupos (arrependidos e convictos), deve-se olhar para as raízes do autoritarismo brasileiro. Os dois grupos se orientaram em torno de algo em comum, que os fez (e ainda faz a menor parte) encarar a diferença (o outro) como inimigo e a eleição presidencial como uma guerra.

A covid-19 está matando em todo o mundo. Entretanto, no Brasil, ela encontrou terreno perfeito para se instalar, sem maiores obstáculos do governo federal, mas também por parte de cidadãos que se veem representados por esse governo. Muito por isso, a doença será mais letal do que em outros lugares. Afinal, a cegueira que elegeu Bolsonaro é a falta de respeito à vida e o desapego de valores democráticos e republicanos. Isso, certamente, potencializa os efeitos funestos da pandemia. Triste enredo que a História se ocupará de eternizar, não como trama literária, mas como registro de uma realidade no mínimo estarrecedora e vergonhosa para o Brasil.

 

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