Derrubar estátuas também pode construir a história

Derrubar estátuas também pode construir a história

REDAÇÃO

12 de junho de 2020 | 11h24

Amon Barros é professor da universidade de Essex e professor licenciado da FGV EAESP. Desde o doutorado vem explorando a interseção entre história e administração e entre empresas, empresariado e política.

 

Toda história é escrita a partir dos interesses do presente. Por isso, quando se erige uma estátua, não se abre uma janela para o passado, busca-se dizer algo às pessoas que compartilham o aqui e o agora com tal monumento.

Uma estátua é um documento. E deve ser lida não apenas pelo seu valor de face, mas a partir daquilo que não diz. Todo documento é elaborado dentro de certas regras e submetido ainda aos desejos de quem produziu o registro. Assim, não se pode esperar que o monumento revele seus sentidos subjacentes, sem que se faça um exame crítico do que ele revela e daquilo que esconde. Basta pensar nas diferenças entre ler uma ata e participar de uma reunião.

O que a estátua diz é resultado dessa dinâmica ente intencionalidades e sentidos atribuídos pelo passante, e não de seu caráter testemunhal sobre o passado. Como bom documento, a estátua não revela a intenção de quem o produziu. Aparece, ao observador como um objeto neutro. E é a partir da memória que se liga ao cotidiano das pessoas. Ao fazer isso, a operação aí em curso é de iluminar uma dimensão apagando outras. Por exemplo, o traficante de pessoas escravizadas que é apresentado como um comerciante de sucesso.

A memória é produto de disputas em torno do que se quer lembrado ou esquecido. E é por isso que a disputa em torno de monumentos que dão suporte às memórias é legítima. Diferente da história, a memória se dispõe como um acervo de conhecimentos dispersos pelo tecido social e que se apoia em certos objetos e práticas para se manter “viva”.

A história, por outro lado, interroga a memória e produz algo distinto, já que tem a princípio um compromisso com a objetividade, embora não com a neutralidade. A história se coloca para a crítica a partir do momento em que é produzida. E ainda que as intencionalidades não se façam necessariamente transparentes no texto histórico, ele se produz já com a antecipação da crítica.

Portanto, ao se derrubar uma estátua, não se ataca “o passado” ou “a história”, mas uma memória, um objeto que deseja suportar uma certa forma de lembrar o que foi e estruturar o que será. É necessário entender quem quis colocá-la ali, em qual contexto e com qual intenção. É como olhar um quadro sem entender seu sentido, apreciando as suas formas e observá-lo escrutinando o que ele pode dizer e o que o autor quis dizer.

Nesse sentido, é esperado que diferentes interpretações de figuras do passado e da funcionalidade da estátua se confrontem diante da ação direta contra esses monumentos. Sempre se olha para essas imagens com a partir de um momento e um lugar. Assim, estátuas ofensivas para uns, podem ser inofensivas para outros. É irônico, mas é uma relação dinâmica.

O monumento não é uma janela para o passado. Se fosse, bastava deixá-lo ali e todos olhariam e veriam por si o que está sendo dito. Estátuas são artefatos inserido nas conversas do presente, buscando suportar memórias específicas.

Derrubar uma estátua pode muito bem servir para estabelecer ou descentralizar narrativas. Colocar no museu, também. É também fazer história, já que a crítica da memória é momento fundamental da produção novas narrativas compartilhadas.

A cidade pode ser lida como um arquivo. O que fica e o que saí, constroem parte das narrativas possíveis ou desejáveis sobre o espaço. A demolição de um casarão, a construção de uma torre espelhada ou a construção de um monumento dizem algo da comunidade que os abriga. Discutir se “o povo” dever ser o curador desse acervo é relevante, inclusive para se pensar quem pode ou deve decidir sobre a memória. Essa disposição, claro, pode se dar por vias formais ou nas ruas, onde as regras de tomada de decisão são distintas.

Ou seja, ninguém perde o passado ao se derrubar uma estátua. Ele já estava perdido. Cabe perguntar qual narrativa que está ali e no lugar de quais outras, interrogar se qualquer homenagem merece o espaço público por ser objeto de memória e decidir se é possível ressignificar o objeto mantendo-o como está. Acredito que isso deva ser feito, pensando em produzir espaços que respeitem a integridade das pessoas e tendo em conta os valores que a sociedade deseja comunicar aos seus partícipes.

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