De repente, trabalhando em casa: evidências sobre o impacto do home office na vida das pessoas durante a pandemia

De repente, trabalhando em casa: evidências sobre o impacto do home office na vida das pessoas durante a pandemia

REDAÇÃO

29 de maio de 2020 | 08h56

Ana Paula G. Jelihovschi, Mestre em Administração pela EBAPE-FGV e analista Sênior na ClearSale

Gustavo M. Tavares, Doutor em Administração pela EBAPE-FGV e professor de administração no IFRJ

 

O crescimento do número de óbitos e infectados pela Covid-19 no Brasil exigiu que empresários tomassem decisões rápidas sobre os cuidados com seus funcionários. Em muitas organizações, o “home office” (ou teletrabalho) foi adotado por grande parte dos funcionários, que precisaram se adaptar rapidamente à rotina de trabalhar em casa.

Apesar de o home office não ser novidade, o cenário atual faz com que esta forma de trabalho apresente características peculiares. A pandemia exige uma série de restrições na vida em sociedade e nas relações entre as pessoas, bem como uma nova dinâmica familiar para quem segue o isolamento social. Além disso, os aspectos psicoemocionais relacionados ao medo, ansiedade e luto gerados pela crescente pandemia também tornam este momento bastante atípico. Ou seja, trabalhar remotamente em meio a esta pandemia sem precedentes tem afetado as pessoas de formas ainda desconhecidas.

É importante entender como os trabalhadores estão passando por este momento. Não se sabe por quanto tempo as medidas de isolamento social (e, consequentemente, o home office) irá perdurar e as empresas precisam de informações para tomarem suas decisões e melhorarem a qualidade de vida dos seus funcionários. Ademais, muitas empresas têm mostrado interesse em manter o modelo de teletrabalho mesmo após o fim da pandemia.

Mas como as pessoas estão se adaptando ao trabalho em casa em meio à crise da Covid-19? Elas estão sendo produtivas? Como estão conciliando o trabalho com seus diferentes papéis na família? Como está a saúde psicoemocional dessas pessoas? O que tem ajudado as pessoas a lidarem com esta situação?

Para esclarecer estas questões, um questionário foi aplicado em 984 funcionários de uma empresa de TI em São Paulo, que responderam de forma voluntária. A pesquisa foi realizada na primeira semana em que a empresa colocou todos os funcionários para trabalhar remotamente, em março de 2020, quando as medidas de isolamento social para prevenção à Covid-19 se tornaram mais ostensivas.

Os resultados apresentam achados interessantes sobre a saúde psicoemocional, produtividade e questões que envolvem a rotina de trabalho neste novo contexto. Alguns resultados são mostrados a seguir.

Medo do Coronavírus. O medo do Coronavírus e preocupação com a pandemia se mostrou muito presente entre os participantes. Em uma escala de 0 a 10, onde 0 significa “nem um pouco preocupado/com medo” e 10 significa “totalmente preocupado/com medo”, 76% dos participantes indicaram valores iguais ou maiores que 7.  Os participantes que indicaram maior medo e preocupação com Coronavírus, demonstraram também um estado psicoemocional mais prejudicado; ou seja, estavam mais agitados e com o humor menos estável. Importante, o estado psicoemocional dos participantes mostrou-se altamente associado ao seu nível de produtividade informado.

Planejar seu dia faz a diferença. Os resultados da pesquisa mostraram que os participantes que planejam seus dias com maior frequência apresentaram um melhor estado psicoemocional e maior produtividade. Aparentemente, ter o simples hábito de colocar no papel aquilo que precisamos fazer ao longo do dia, definindo prioridades e prazos, nos ajuda organizar não só o nosso trabalho, mas também nossos pensamentos e emoções.

O valor da boa comunicação. Verificamos que a qualidade da comunicação entre líderes e liderados têm afetado fortemente o estado psicoemocional e a percepção de produtividade de ambos no contexto de home office. Curiosamente, no caso dos funcionários em posições não gerenciais, a manutenção de uma boa comunicação com seus pares neste momento mostrou-se mais importante para a saúde mental e produtividade deles do que a comunicação com seus líderes.

O lado positivo da situação. Através de uma pergunta aberta, os participantes foram questionados sobre os pontos positivos e negativos do home office neste momento de pandemia. Algumas palavras utilizadas com maior frequência para informar os pontos positivos foram “tempo”, “segurança” e “família”. Os relatos apontaram que estar de home office gerou uma sensação de segurança e proteção para eles e suas famílias. Esse resultado é interessante ao relacionarmos com o alto nível de medo do Coronavírus que foi relatado pelas pessoas. Um outro ponto positivo informado por muitos participantes foi a oportunidade de passar mais tempo com suas famílias, bem como não ser necessário perder tempo se deslocando até o trabalho, evitando também o transporte público.

Mulheres têm menos tempo livre. Um achado curioso sobre a questão do tempo foi que os homens relataram ter mais tempo livre do que as mulheres em decorrência do home office. Eles usaram a palavra tempo em seus relatos (referindo-se a mais tempo livre) com uma frequência 50% maior do que elas. Essa percepção pode estar relacionada com os papéis sociais de gênero, construídos sobre homens e mulheres e suas responsabilidades em casa e na sociedade. Enquanto espera-se que as mulheres cuidem de seus filhos e das tarefas domésticas, isso é menos esperado para os homens que por sua vez, percebem ter mais tempo livre em casa do que as mulheres.

O lado negativo da situação. Sobre os pontos negativos do home office, relatou-se com frequência a falta de interação entre as pessoas (principalmente com os colegas de trabalho), a dificuldade de equilibrar o trabalho com o ambiente familiar, problemas técnicos (como a instabilidade da internet) e questões de ergonomia, como o desconforto da cadeira e do ambiente da casa, além dos ruídos externos de vizinhos e obras. E claro, a preocupação com a pandemia e a consternação com a situação foram temas comuns entre os participantes.

Um bom exemplo. Para dar suporte aos seus funcionários, a empresa avaliada neste estudo distribuiu cadeiras ergonômicas do escritório para as casas de todos os colaboradores que precisavam, além de computadores para que todos os 1700 funcionários pudessem trabalhar remotamente de maneira adequada. Além disso, medidas estão sendo tomadas para manter o cuidado com a saúde psicoemocional dos colaboradores através de espaços de conversas nas equipes, junto aos seus líderes, palestras com psicólogos e psiquiatras, além de atendimentos psicológicos. Em relação à postura da alta liderança da empresa, um projeto em andamento permite que o fundador da companhia converse com os funcionários individualmente, por uma hora ou mais se necessário, sobre assuntos diversos. Finalmente, webinars com o presidente e altas lideranças sobre os acontecimentos recentes na empresa e na sociedade têm sido recorrentes, prezando-se pela transparência. Estes são alguns exemplos do que a empresa tem realizado e que podem colaborar para que outras organizações também consigam lidar com este momento da melhor forma possível.

Outras aplicações do questionário serão realizadas durante o isolamento social para acompanhar como os funcionários estão lidando com esse momento. Isso permitirá a empresa ter maior clareza das ações que precisam ser tomadas para que as pessoas fiquem bem durante e após este período. O cuidado com as pessoas é sempre fundamental e deve ser primordial neste momento.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.