Das cidades inteligentes para as cidades saudáveis

Das cidades inteligentes para as cidades saudáveis

REDAÇÃO

13 de abril de 2020 | 14h29

Júlio Ribeiro é CEO da Hubse Tecnologia, especialista em geotecnologias e Cidades Inteligentes e Professor do FGV Management.

Eduardo de Rezende Francisco é professor de Data ScienceGeoAnalytics  e Big Data da FGV EAESP.

 

Nosso caro leitor já ouviu certamente falar de Cidades Inteligentes. A evolução tecnológica das últimas décadas, o advento do Big Data e da Inteligência Artificial, a maior consciência de integração sistêmica (promovida pelas geotecnologias) e a gradativa adoção de sistemas de monitoramento para gestão pública vêm fazendo esse conceito expandir-se no mundo. No Brasil, os holofotes mundiais que as Olimpíadas do Rio em 2016 e a Copa do Mundo em 2018 trouxeram ajudaram a vender esse posicionamento para o imaginário da população (sem, de fato, entregá-lo completamente).

Cidades Inteligentes, ou Smart Cities, apresentam taxonomia e conceitos em construção. Todavia, podemos defini-las como aquelas cidades onde a tecnologia é utilizada de forma sustentável e ubíqua para melhorar a qualidade de vida de seus usuários. Essa definição expande o conceito de cidadão para usuário, abarcando assim diversas situações de uso ocasional dos serviços, de infraestrutura e benefícios da cidade. Essa é a real motivação, o real propósito de termos cidades inteligentes.

Sob a perspectiva tecnológica, podemos pensar que cidades inteligentes otimizam a utilização dos recursos para servir melhor os cidadãos. Isso vale para a mobilidade, a energia ou para qualquer serviço necessário à vida das pessoas. Considerando esse propósito ampliado, será que caminhamos de forma holística e de longo prazo para atingir de fato o que se pretende?

Antes mesmo de entrar no tema da pandemia global do COVID-19, precisamos parar e refletir: estávamos indo em uma direção sustentável? Desde o ano de 2019, mais da metade da população mundial vive mais em aglomerações urbanas do que em áreas rurais ou outros arranjos. Ou seja, metade do mundo organiza-se em cidades. Ao longo de toda história, esta é a primeira vez que temos mais de 3,5 bilhões de habitantes vivendo como urbanoides. E esse número só cresce. No contexto nacional, o Brasil já é predominantemente urbano desde a década de 1980.

Esse processo tupiniquim de urbanização foi tão rápido e sem todo o planejamento necessário que acabamos por colher, hoje, os frutos desse crescimento desordenado. Adicionamos a esse cozido um molho de “não priorização da educação básica de qualidade” e um tempero de “visão política de curto prazo” e nossa receita de vida urbana sustentável desanda. O que podemos dizer é que as cidades, em geral, estão doentes.

A metáfora é direta, forte e implacável – as cidades são organismos vivos. Assim como nós, seres humanos, as cidades possuem subsistemas. Alguns deles: sistema rodoviário, sistema arbóreo, sistema educacional, sistema de saneamento, sistema financeiro, sistema construtivo e muitos outros. Como toda construção sistêmica, há, ou deveria haver, forte conexão entre eles, mas o nosso entendimento, organização cultural e ações se dá nos sistemas isoladamente. Por mais que busquemos a integração, nosso modelo mental enxerga sistemas isolados ou pouco associados. Não vemos o organismo completo. É como se um paciente que está com uma forte dor de cabeça for em um oftalmologista e ele “só” olhar a visão, ou se ele for em um nutrólogo e ele “só” olhar os hábitos alimentares. Sabemos que um problema como dor de cabeça pode ter origem em tantos fatores que é preciso olhar o paciente de maneira mais holística.

É esse paradigma que precisa ser construído para nossas cidades. Deveríamos geri-las, ou simplesmente percebê-las, de maneira completa, sistêmica e dinâmica. As cidades são sistemas abertos, complexos e possuem subsistemas, assim como fazem parte de sistemas maiores, como bacias hidrográficas, regiões metropolitanas ou fluxos de abastecimentos de alimentos ou remédios.

Dessa forma, começaríamos a perceber que nossas cidades, no Brasil e em grande parte do mundo, se tornaram grandes problemas de gestão e planejamento. Muito se fala em qualidade de vida urbana, mas com uma cidade doente, todos que nela habitam também acabam tendo dificuldades de serem plenamente saudáveis.

Podemos pensar que, no organismo cidade, nós somos um tipo importante de célula. Se grande parte de nós está doente, todo o organismo sofre. Se o organismo está doente, pouco produtivo ou em crise, o impacto também é refletido em nós.

É por isso que o conceito de cidade inteligente deve ser aprimorado. A evolução deve seguir, profunda e sine qua non, para o conceito de Cidade Saudável.

De forma análoga, pensem na hierarquia da Pirâmide de Maslow, da base ao topo. Observamos as necessidades básicas de sobrevivência sustentando as condições de segurança, em seguida os aspectos afetivos sociais, depois a autoestima e, por fim, a autorrealização, ou o atingimento da maximização dos potenciais. Se isso funciona para os organismos humanos, também funciona para as cidades.

A pandemia de COVID-19 permitiu-nos observar o que as maiores cidades do mundo, como Nova Iorque, Tóquio, Londres, Milão, Paris e São Paulo, estão realizando, que é: suprir as necessidades básicas dos seus subsistemas essenciais. Se o subsistema de saúde física e mental de suas pessoas não estiver bem, os demais subsistemas, como o econômico ou o educacional, não se sustentarão depois.

Uma cidade saudável compreende e monitora suas áreas de risco, assim como tem mapeado também quais são seus potenciais. Uma cidade saudável vai muito além de cuidar das doenças, pois precisa cuidar de fortalecer seus aspectos saudáveis, estimulados pela busca das realizações humanas. Contudo, é necessário entender e fazer com que as informações e sinais de alertas das enfermidades sejam monitorados e organizados em um grande sistema nervoso central.

Falta-nos uma visão de Cidade Saudável. Por que não temos um checkup completo das nossas cidades? Por que algumas cidades não possuem uma mínima capacidade de autossustentação? Por que as cidades não se veem dentro de um ecossistema? Se uma cidade de uma região tem problemas econômicos ou ambientais, de violência ou de epidemias, é sabido que o problema irá afetar os organismos urbanos vizinhos, pois ou os problemas migram, ou as pessoas migram e, por consequência, os problemas irradiam.

Está claro que devemos melhorar o entendimento das nossas enfermidades urbanas. Basta olharmos o histórico de TODAS as epidemias ou pandemias pelas quais já passamos no planeta – ou elas começaram em ambientes urbanos insalubres ou foram disseminadas em cidades populosas e, depois, se espalharam para todo o mundo. Garantir que cada cidade busque o seu nível de equilíbrio saudável é buscar o equilíbrio das redes de cidades do mundo. A tecnologia deve ser usada com uma finalidade mais ampla, um modelo mental mais completo.  Precisamos incentivar, destacar, mapear e compartilhar as práticas saudáveis das pessoas, famílias, comunidades e organizações. Por fim, expandir a visão das gestões urbanas e políticas públicas.

Passadas as adaptações sociais e econômicas consequentes da pandemia do COVID-19, teremos um alívio momentâneo e uma sensação de que o pior já passou. Mas teremos consequências. O mundo estará mais ansioso, aguardando a próxima praga a ser combatida. Assim como aconteceu após a 2ª guerra mundial, com a criação da ONU, tratados nucleares e antinucleares, o mundo pós-COVID-19 ainda será um mundo com a presença constante do fantasma da pandemia, que de fato o circundará pelos riscos de novas crises. É por isso que precisamos pensar e utilizar tecnologia integrada e visão sistêmica ampliada para criar cidades mais saudáveis.

Precisamos, portanto, evoluir a visão de Cidade Inteligente para a de Cidade Saudável, que é aquela capaz de cuidar de maneira integrada de todos seus organismos internos, o que inclui cada um de nós!

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