Cuidado nos tempos de pandemia

Cuidado nos tempos de pandemia

REDAÇÃO

20 de abril de 2020 | 20h27

Mariana Mazzini Marcondes, Doutora em Administração Pública e Governo pela FGV-EAESP e professora de Administração Pública e Gestão Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Marta Ferreira Santos Farah, Doutora em Sociologia pela USP e professora titular do Departamento de Gestão Pública da FGV-SP, onde também é vinculada ao Centro de Estudos de Administração Pública e Governo.

 

“Fique em casa e cuide-se! Cuide de sua família!”

Desde que a pandemia de Covid-19 começou, quantas vezes você ouviu ou disse algo parecido? Há algo tão difundido nesses tempos quanto o vírus: a preocupação com o cuidado. Mas as semelhanças param por aqui. Enquanto o Covid-19 projeta-se como o grande problema público mundial, o cuidado é apresentado como parte da solução. Mas, embora a importância (e os dilemas) do cuidado (e do trabalho doméstico de modo geral) tenha(m) ganhado projeção durante a pandemia, essa questão já era central para a sustentabilidade da vida humana desde que existimos como espécie, como as reflexões feministas apontam há muitas décadas. Neste texto, convidamos você para meditar sobre essas reflexões, enfocando o contexto atual. Ao final dele, indicamos algumas leituras e fontes de dados estatísticos, para você seguir conosco nesse debate!

O termo cuidado é bastante presente no nosso cotidiano. Mas ainda há pouca reflexão sobre essa prática social e sobre seus significados. Em uma abordagem feminista, podemos entender o cuidado como uma combinação de três dimensões: trabalho, emoções e ética.

Primeiramente, o cuidado é um trabalho. É auxiliar pessoas idosas que não conseguem mais se alimentar sozinhas. É trocar a fralda do bebê. É preparar a comida de toda a família. Trata-se de um trabalho que garante as condições materiais para atender nossas necessidades básicas como seres humanos.

O trabalho de cuidado aumentou durante a pandemia. As medidas de higienização recomendadas demandam maiores esforços. Além disso, as pessoas estão ficando muito mais em casa, cumprindo as regras de distanciamento e isolamento social. Isso tem contribuído para tornar as relações dentro das casas mais tensas. A ONU Mulheres alertou, no início da pandemia, para o risco de aumento da violência doméstica, o que vem se confirmando em diversos países e em cidades brasileiras, como atestam dados recentes sobre Rio de Janeiro e São Paulo. 

A segunda dimensão do cuidado é a das emoções, que nos remete à construção e manutenção de vínculos. Cuidar é abraçar a pessoa que você ama, preocupar-se com ela e sentir-se acolhida. É ter empatia com quem requer cuidados. A pandemia trouxe contornos bastante dramáticos para essa dimensão. Por um lado, a circulação do vírus dissemina a angústia, o medo e a incerteza, o que pode aprofundar quadros de ansiedade e depressão, aumentando a necessidade de cuidado emocional. Por outro lado, o distanciamento e o isolamento social tornam o abraço uma memória cada vez mais distante, em muitos casos, indicando que precisamos reinventar nossas formas de cuidar. 

A terceira dimensão (e talvez a menos óbvia) é a ética. A ética do cuidado é uma proposta de reformulação de como definimos o que é certo e o que é errado, reorientando nossas condutas pela responsabilidade com o bem-estar de pessoas (e de animais e até mesmo do meio ambiente). Implica reconhecer que todas somos vulneráveis e interdependentes. Essa dimensão indica que o cuidado transcende o grupo familiar e se espraia pela vizinhança, alcançando a (re)definição da cidadania. O cuidado comunitário, que já era uma realidade antes do Covid-19, tem emergido como uma resposta potente em regiões historicamente negligenciadas pelo poder público, a exemplo de Paraisópolis. Nela, a comunidade tem organizado uma rede de solidariedade, que envolve desde campanhas de arrecadação (links Rede de apoio a mães e trabalhadoras informais e Empreendedoras de Paraisópolis, até conscientização para medidas de distanciamento social e monitoramento de casos de saúde. Mesmo em bairros mais consolidados, a solidariedade tem emergido, rompendo com os muros em que cada família se fechava.

Apresentadas as três dimensões do cuidado, é necessário observarmos que, até aqui, contamos uma história sem sujeitos, e precisamos trazê-los para o centro desta narrativa. Isso porque cuidar é uma ação que relaciona quem é cuidado a quem cuida. Quando pensamos em quem é cuidado, com frequência nos vêm à mente as pessoas ditas dependentes, ou seja, que não podem se cuidar sozinhas, a exemplo de crianças e pessoas com deficiência. A crise do Covid-19 chamou especial atenção, contudo, ao cuidado com as pessoas idosas. Entretanto, a verdade é que todas nós precisamos de cuidado, em algum momento de nossas vidas. Reconhecer nossa vulnerabilidade é um passo importante para valorizarmos o cuidado, o que a pandemia tem possibilitado de forma dramática.

É fundamental, ainda, olhar para quem cuida. A crítica feminista vem denunciando que esse sujeito é feminino, e, embora isso seja visto frequentemente como algo natural, trata-se de uma construção social e histórica, ancorada na divisão sexual do trabalho. É essa âncora que estrutura nossa vida social e atribui primariamente às mulheres o trabalho de reprodução da vida humana. Trabalho esse que, apesar de garantir a sustentabilidade da vida, é desvalorizado, sendo inclusive visto como um “não trabalho”; um afazer doméstico (quando feito pelas mulheres), ou uma ajuda (quando assumido pelos homens). 

Se em tempos de Covid-19 o cuidado parece ser sobretudo doméstico, é importante lembrar que isso tampouco é uma novidade. O cuidado é realizado principalmente nas casas, porque ele ainda é compreendido como uma questão privada, de que uma rede de mulheres precisa “dar conta”, e não como um problema público que demanda políticas públicas, responsabilizando o Estado. É importante, ainda, não perdermos de vista quem está cuidando fora de casa, na linha de frente do combate à pandemia: profissionais de saúde. Embora a figura do médico seja a mais lembrada nesses momentos, é importante não esquecermos das enfermeiras e auxiliares e técnicas de enfermagem (sublinhamos o gênero porque sua flexão, na construção das personagens, tem o propósito de fazer você refletir como imagina tais profissionais).

Para conseguirmos olhar nos olhos de quem cuida e de quem é cuidado é ainda necessário fazermos mais um movimento: irmos além da desigualdade de gênero, reconhecendo que ela é articulada à desigualdade de classe e de raça. Mulheres negras e empobrecidas carregam sobre seus ombros, desproporcionalmente, a estrutura social que garante o cuidado no Brasil, especialmente as trabalhadoras domésticas remuneradas. Em seus lares, são especialmente as mulheres negras que têm que: cuidar das crianças sem escola e sem merenda; administrar a higiene, muitas vezes sem água; gerir as emoções ao não poder seguir o comando de “fique em casa”, por terem que continuar a se deslocar para trabalhar se expondo a riscos; e adoecer (ou ver familiares adoecendo) sem acesso à saúde.

O Covid-19 mudou nossas vidas de forma radical, nos últimos meses. Consigo, trouxe algo além da angústia, da solidão e do acirramento da violência. Ele também explicitou problemas sociais que já permeavam nosso cotidiano, mas que, para muitos, era como um vírus: invisível. Para enfrentarmos essa pandemia, contudo, precisamos reconhecer as raízes do que nos adoece enquanto sociedade: as desigualdades e a divisão sexual, racial e social do trabalho.

Mas, só reconhecer não é o suficiente. Precisamos reorganizar nosso projeto societário, não apenas para achatar a curva de Covid-19, mas para trazermos para o centro do nosso debate político a sustentabilidade da vida humana. Para isso, nossas políticas públicas precisam reconhecer a interdependência como um valor ético fundamental, garantir que o Estado e os homens assumam a corresponsabilidade pelos cuidados, e que quem cuida seja também cuidada. Os primeiros passos devem ser tomados agora, incluindo medidas de proteção também a quem cuida, em casa ou nos serviços de saúde.

 

Quer saber mais? Algumas sugestões de leituras e fontes de dados!

Para aprofundar a análise de dados estatísticos, sugerimos que você navegue por aqui: Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça (IPEA), Síntese de Indicadores  (IBGE) e Boletim Pobreza, Substantivo Feminino do Observatório das Desigualdades (Fundação João Pinheiro).

Se o seu interesse é em leituras feministas sobre o cuidado, algumas recomendações. Sobre ética do cuidado, leia Joan Tronto e Eva Kittay. Sobre a sustentabilidade da vida humana e economia feminista, Cristina Carrasco. Nancy Fraser também pode te interessar! Sobre trabalho e gênero, autoras como Danièle Kergoat e Helena Hirata e Nadya Araujo Guimarães são paradas obrigatórias! No Brasil, há, ainda, contribuições fundamentais dos movimentos feministas, como da SempreViva Organização Feminista (SOF), do Cfemea e do SOS Corpo. Se o seu interesse é sobre políticas públicas e gênero, confira Marta Ferreira Santos Farah.

Por fim, se você quiser aprofundar, indicamos quatro teses recentes sobre o tema, em diferentes áreas, de jovens pesquisadoras feministas. Na economia, discutindo dados estatísticos sobre uso do tempo, Luana Simões Pinheiro. No Direito, refletindo sobre o Direito ao Trabalho a partir do cuidado, Regina Stela Corrêa Vieira. Nas Ciências Sociais, discutindo as relações de família, Estado e mercado em relação ao cuidado, Renata Moreno. Na Administração Pública, sobre políticas de cuidado infantil em perspectiva comparada, Mariana Mazzini Marcondes.

(Todas as referências estão clicáveis)

 

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