Crônica de um ano que não vai acabar.

Crônica de um ano que não vai acabar.

REDAÇÃO

30 de dezembro de 2020 | 20h52

Hesaú Rômulo, Cientista político e professor da Universidade Federal do Tocantins. Doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília.

 

Um dos meus textos preferidos de fim de ano é atribuído a Antonio Gramsci. Nele, o italiano encarcerado olha pela janela e começa “Todas as manhãs quando acordo novamente debaixo da imensidão do céu, sinto que pra mim é dia de Ano Novo”. Odio il Capodanno é um recado duríssimo – e por esta razão me apetece tanto – dessa mística social construída em volta da mudança repentina de ares e humores pelo virar da folha do calendário.

Gramsci sabia, e me ensinou, que a espada do tempo continua implacável sobre nossas cabeças. Tal qual os astros do sistema solar, ela age de maneira indiferente aos dramas que incorremos neste planeta. Em um ano mortífero como foi 2020, a nova realidade que se impôs nos impediu de realizar tantos e tantos projetos há muito rascunhados. As resoluções de dois mil e dezenove foram congeladas, postergadas face ao novo vírus que se estabeleceu e alterou milhares de realidades, principalmente a dos mais pobres. 

Tickets de voo cancelados, reembolsos, aniversários remarcados, sessões de cinema quintas à noite, batizados, foram varridos momentaneamente das nossas vidas. Relembrando o óbvio: esta vida, sempre em trânsito, rodopia sobre o fio da navalha. E mesmo aqueles três primeiros meses não foram suficientes para ensinar lição alguma. Decerto a humanidade só aprende com a tragédia íntima, aquela que assalta a casa do vizinho, o irmão nosso, o colega de escola que estimamos. Isto porque nenhum luto dura para sempre. Em pouco tempo saímos de casa novamente (alguns mais que outros) para celebrar este fato indelével: a vida não parou por conta do coronavírus.

E agora, virando a esquina de um ano caótico, nenhum aprendizado coletivo será suficiente para tirar-nos do buraco. Sinto muito não ter avisado lá no começo que esta não é uma crônica otimista sobre o ano que chega. Isso mesmo, continuaremos indiferentes. A aprovação do presidente da república, com uma resposta surrealista para o enfrentamento à pandemia, segue recorde desde o início do mandato. E poderíamos discutir com os poucos amigos que restaram sobre quais as razões para isto. Meu recado aqui é: olhe para os seus, os que estão na sala de estar diante de você, e agradeça por mais uma volta completa em torno do calendário. 2020 não foi um ano de vitórias conjuntas, foi um ano da sobrevivência individual, foi um ano que provou que mesmo na pior situação, não perdemos para nós mesmos. 

Desde as eleições de 2018 temos presenciado esse acirramento das relações pessoais, do debate civilizatório de qual o lugar da política e do radicalismo ideológico entre aqueles que considerávamos sensatos. O isolamento social, a cloroquina, o lockdown, a vacina que nunca chega são ingredientes que se somam a este muro de decepções com seus familiares, com seus cônjuges que, vejam só, operam do outro lado do espectro. Gosto muito da sensação, perdoem-me a vanglória, de que a única coisa que liga meus pais (há dezoito anos separados) é a convicção política. Embora nem todos possam viver algo parecido, a dica deste que vos fala é que valorizem estes vínculos, ainda que não sejam sanguíneos. A lição do ano, para os que se dispuseram a aprender, passa por compreender como as escolhas políticas que fazemos em tempos de paz proporcionam terríveis consequências em tempos de guerra.

E a guerra continua aí. Ela não me impede de tomar uma cerveja, no sofá de casa, quinta à noite enquanto sofro com mais uma derrota do Sampaio Corrêa. Mas ela segue, entupindo os leitos de UTI enquanto nos indignamos em silêncio com os conhecidos que estampam fotos e vídeos em festas lotadas de pessoas querendo viver, querendo aproveitar o que lhes resta de vida. Eis a contradição do ano que acabou. Enquanto alguns de nós preferem evitá-la, outros tantos assumem-na de braços abertos.

Compreensível demais que Gramsci esteja irrequieto com o estado de coisas que o cercavam, em virtude do contexto histórico difícil que enfrentou naquele longínquo 1917. Compreensível demais que alguns de nós queiram livrar-se do que significou um ano ruim, e enxergar apenas para janeiro como uma tábua de salvação, desprendendo-se do potencial de assombração que o passado possui. 

Com todo o receio de ser confundido com um coach ou escritor de autoajuda eu digo que a chave é a renovação, e Gramsci já dizia isso no começo do Século XX: “Por isso odeio o Ano Novo. Desejo que toda manhã seja um ano novo para mim. Todo dia desejo fazer as contas comigo mesmo, e todo dia quero me renovar. Nenhum dia separado para o repouso. As folgas eu mesmo escolho, quando me sentir embriagado pela vida intensa e desejar dar um mergulho na animalidade, para dela tirar novo vigor”. 

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